Mensagem de D. José Ornelas para a Quaresma de 2024

Iniciamos, nesta Quarta-Feira de Cinzas, o caminho da Quaresma que nos conduz à Páscoa da libertação e da vida, por obra do Espírito do Senhor Jesus, morto e ressuscitado.
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Livres, pelo Batismo, como Filhos e Filhas do Pai do Céu

Iniciamos, nesta Quarta-Feira de Cinzas, o caminho da Quaresma que nos conduz à Páscoa da libertação e da vida, por obra do Espírito do Senhor Jesus, morto e ressuscitado. É um tempo de caminho, de preparação, de dar consistência aos projetos, aos sonhos, à esperança. 

Tudo isso é simbolizado por duas imagens ligadas ao deserto, ao número 40 e à água que muda a vida: A primeira é a do deserto percorrido, durante 40 anos, pelo povo de Israel deixando para trás a escravidão do Egito, a caminho da terra da liberdade, da dignidade e da esperança. A segunda é a de Jesus, movido pelo Espírito, que passa 40 dias no deserto, no encontro orante com o Pai e no discernimento da sua missão. Em ambas as imagens, há um sinal fundamental ligado à água, que revela uma transição de vida e de perspetivas de futuro e cada uma tem um guia e mestre: na primeira é Moisés, na segunda é Jesus 1.

O deserto do encontro com o Deus da libertação

A primeira imagem é-nos apresentada sobretudo pelo livro do Êxodo (cf. especialmente os capítulos Ex 1-24 e 32-34), que narra a intervenção salvadora de Deus, que se revelou a Moisés e o enviou para libertar o seu povo da escravatura em que se encontrava no Egito. A Moisés, Deus diz: 7 Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor aflito diante dos seus capatazes; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. 8 Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel… 10 E agora, vai; Eu te envio ao faraó, e faz sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel.” (Ex 3,7-10).

Na solidão do deserto, o pastor Moisés, escuta a voz de Deus, que lhe faz sentir que o grito de aflição do povo escravizado chegou até Ele e que vem libertá-lo. Moisés aprende que Deus não fica longe do grito de aflição dos injustiçados e escravizados. É a partir desse encontro que ele se sente chamado: a solidão imensa do deserto é povoada por Deus, que se faz presente porque decide agir através de Moisés. Por isso, a libertação será toda de Deus, mas tornar-se-á realidade através da liderança e da palavra proferida, em Seu nome, por Moisés.

Este é o primeiro sentido da nossa Quaresma: o encontro Tu a tu, com Deus. Ele conhece-nos melhor que nós mesmos. Moisés fala pouco, mas escuta muito, por isso, terá algo de novo e de válido para comunicar ao seu povo. Assim deve ser a nossa oração, nesta Quaresma e sempre: terá espaços e tempos em família e em comunidade, mas não pode prescindir do silêncio do encontro com o Pai do Céu, para escutar o que Ele tem a nos dizer e para olhar a vida como Ele a vê. O deserto desse encontro vital não precisa de ser um deserto de areia:  pode ter lugar no silêncio do nosso quarto ou de uma igreja, num passeio tranquilo… mas não nos esqueçamos que Ele está próximo, mesmo no meio do rebuliço da cidade, no ruido dos robôs da fábrica, no silêncio pesado de uma sala de exames, na aflição das urgências hospitalares. Em qualquer espaço ou situação, Deus continua a dizer, como a Moisés: “Eu ouvi… Eu vi… Eu conheço… Eu desci para libertar… Vai, liberta!”. Daí há de nascer a nossa missão e o nosso compromisso, como aconteceu com Moisés, com Maria, com os apóstolos e com tantos e tantas ao longo dos séculos, que, a partir do deserto fecundo do encontro com Deus, encontraram a força e a luz para transformar-se e transformar o mundo. 

O deserto do encontro com Deus, tem também de nos deixar inquietos, de nos mover à compaixão libertadora tornando-nos sensíveis à situação da nossa família e da Igreja, bem como aos dramas concretos das multidões vítimas de perseguição e injustiça, da fome, da guerra, da degradação do nosso planeta. O deserto do encontro com Deus não é um refúgio cómodo, estéril ou alienante diante da realidade da vida, mas tem de ser povoado pela realidade que nos rodeia, tentando vê-la com os olhos de Deus.

O encontro de Moisés com Deus no deserto terá consequências para todo o povo, como libertação e como aprendizagem e preparação, para viver como povo na terra da promessa. Guiados por Moisés, o chamado e enviado de Deus, os israelitas puseram-se a caminho e foram acompanhados e salvos pela ação prodigiosa de Deus, na passagem do mar (cf. Ex 14), cujas águas, significaram o fim da escravidão e começo do caminho do deserto que leva à liberdade, à constituição de um povo, com dignidade, justiça e solidariedade: o povo de Deus, com o qual Ele celebrou uma aliança eterna.

Caminhar no deserto não foi fácil nem linear. O caminho entre a libertação do Egito e a formação de um povo e de uma nação consagrada a Deus, numa terra própria é um deserto de avanços e recuos, de confiança, de dúvidas e de oposições. Em todo esse percurso, através de Moisés, Deus foi dando constantemente rumo e força a Israel, mesmo quando este sentia “saudade” do tempo da escravidão e se rebelava ou desanimava pelo caminho. Apesar da infidelidade do povo, Deus permaneceu fiel, porque é “Deus misericordioso e clemente, lento para a ira e cheio de misericórdia e de fidelidade” (Ex 34,6).  

A nossa Quaresma recorda, não apenas a história de Israel, mas também a história pessoal, familiar, e da nossa comunidade Igreja, como lugares e tempos em que experimentámos fracassos, erros e desvios, mas igualmente a presença inabalável da fidelidade amorosa de Deus, a força renovadora da água com que fomos libertados e integrados na Sua família, e sobretudo a presença renovadora do Seu Espírito que torna possível retomar, com nova confiança e coragem, o caminho a que fomos chamados. É tempo de recordar, de agradecer, de traçar caminhos de coerência e de futuro.

Impelido pelo Espírito, Jesus discerne, no deserto, o projeto do Pai

Jesus tem bem presente a memória e a esperança do seu povo e associa-se aos israelitas que respondem à pregação de João Batista e se fazem batizar no rio Jordão, como sinal de mudança de vida e como expressão de disponibilidade para colaborar na transformação que essa mudança significava.

Mas traz algo de mais vital, libertador e transformador. Representa o cuidado de Deus que “Vê, ouve e conhece” a situação dolorosa do seu povo e da humanidade, com que se revelara a Moisés. Mas, em Jesus, é presença autêntica de Deus no seio da humanidade, para refazê-la pelo Espírito. É isso que testemunha a voz do Pai, na presença do Espírito, quando Jesus sai da água do Jordão: “Este é o Meu Filho muito amado, o Meu Escolhido” (Mc 1,9-11). 

Estas palavras são dirigidas a cada pessoa que, pelo batismo, recebe o Espírito de Jesus: “tu és meu filho querido… minha filha querida”. É essa passagem pela água do batismo, prefigurada pelas águas do mar, no tempo de Moisés, que nos permite responder também a Deus, como nos diz S. Paulo: “Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai” (Rm 8,15). Sem deixar de ser parte desta humanidade, fomos transformados com um princípio vital novo, que é da natureza do Deus vivo e imortal. É pelo Seu Espírito que nos vamos transformando e aprendendo a viver ao ritmo de Deus, guiados pelo exemplo de Jesus, o Seu Filho e nosso irmão.

Os 40 dias do deserto de Jesus têm um sentido novo e programático, para Ele e para os que o seguem. Ele é impelido e guiado pelo Espírito, para discernir, em comunhão com o Pai, qual é a Sua vontade (projeto) na missão pública que está a iniciar. Os evangelhos de Mateus e Lucas identificam o conteúdo desse tempo de discernimento, com três áreas que marcam a atitude de Jesus, no confronto com perspetivas humanas de vida, felicidade, sucesso. No seu buscar a vontade/projeto do Pai, Jesus deixa-se guiar pela Palavra que encontrava na Escritura e que iluminava o seu modo de pensar e de agir. Desse modo, Ele propõe-nos o sentido da nossa Quaresma e da nossa vida, como filhos e filhas de Deus. O primeiro meio para encontrar o nosso caminho é conhecer e viver a Palavra de Deus.

Fiel ao seu ser “Filho querido”, Jesus age segundo os critérios do Pai, e não dos critérios humanos de felicidade: riqueza, sucesso e poder. Por isso este confronto no deserto é presentado como modelador do nosso discernimento e busca do projeto de Deus para a nossa vida.

Jesus não se aproveita da própria posição e poder para acumular riqueza ou manipular pessoas – “Diz que estas pedras se tornem em pão” (Mt 4,3). Como Filho, Ele sabe que o Pai alimenta até as aves do céu (Mt 6,26) e que a felicidade dos filhos e filhas de Deus se nutre de “toda a Palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4).

Não se deixa levar pela tentação efémera da vaidade e da fama, para se tornar uma “estrela” ofuscante e maravilhosa: “Deita-te daqui abaixo… os anjos suster-te-ão nas suas mãos” (Mt 4,6). Ele foi enviado pelo Pai, para realizar sinais e prodígios em favor dos que precisam e não para usar deles para se tornar grande. O grande milagre será estar ao lado dos que sofrem fome, sede e injustiça, partilhando as suas dores e dificuldades, multiplicando pão, saúde, vida, até entregar totalmente a sua vida em favor deles. Os sinais maravilhosos que realiza, servem para revelar o prodigioso amor do Pai pelos mais pequenos e carenciados.

Finalmente, Jesus rejeita totalmente a ideia de conquista do poder, que leva sempre a adorar os deuses do dinheiro, da violência, da guerra, da repressão: “Tudo isto te darei, se prostrado me adorares” (Mt 4,9). O Filho Jesus conhece e vive em comunhão com o Único Deus e Senhor. Os que se colocam em lugar de senhores para dominar os outros usurpam posições que não lhes pertencem: Há um único Senhor e Pai, “só a Ele adorarás e servirás”. A rutura de Jesus com a tentação corrupta do poder, para dominar e reprimir a liberdade dos filhos e filhas, é radical e sem conciliação: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão” (Mc 9,45). 

Como Filho do Pai do Céu, Jesus mostra-se livre em relação a tudo e a todos, até livre de Si próprio como homem e daquilo que poderia ser a “tentação” manipuladora do sucesso ou da dor, da glória ou da humilhação, da vida e da morte. Toda a sua vida tem um único sentido e um objetivo: trazer a todas as pessoas que o aceitem – porque Ele não obriga ninguém – a alegria, o amor e a vida do Pai do Céu. 

O caminho pelo qual Jesus se decide, a Quaresma do deserto não é negação da autoestima, ou uma vida de lamentações deprimentes. Também não quer ser uma via triunfante de conquista de troféus por meritocracia. É, pelo contrário, uma “Boa Notícia” de vida, de consciência de ser amado pelo Pai do Céu; de sentir-se irmão numa fraternidade sem muros nem exclusões; de multiplicação do pão da mesa, da dignidade, da educação, da ciência e dos outros dons de Deus para todos; de fundada esperança numa vida que não promete facilidades, mas que está nas mãos carinhosas e poderosas do Pai do Céu.

O Espírito que gera filhos e filhas de Deus, em Igreja

O deserto de Jesus, como Homem e Filho de Deus, é-nos oferecido como caminho de Quaresma e de vida em Igreja. Assumir o Espírito do nosso batismo, que nos torna filhos/as do Pai do Céu, em Jesus, torna-nos irmãos e irmãs uns dos outros. Não renunciamos à família onde nascemos, mas integramo-nos numa família alargada, nascida do mesmo Espírito de Jesus gratuitamente oferecido a todos. Uma Igreja que, no dizer do Papa Francisco em Fátima, se assemelha à capelinha da Cova da Iria: tem colunas para sustentar um teto que dá abrigo, mas não tem muros, de modo que esteja sempre aberta a todos, todos, todos.

O discernimento de Jesus no deserto, guia o nosso discernimento e prepara-nos para construir a Igreja em que nascemos pelo Batismo, como filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs uns dos outros. Nesta Igreja todos temos uma função e uma missão, desde o bebé que é levado ao batismo àquela pessoa de quem nos despedimos num funeral. É importante ser livres para entrar nesse deserto de comunhão com o Pai, e deixar que Ele nos guie na descoberta daquilo que Ele quer de nós. É importante que este encontro seja expressão do desejo de realizar esse projeto de Jesus a nosso respeito, rezando como Jesus nos ensinou – “seja feita a vossa vontade” – de coração livre para buscá-la e segui-la, com alegria e fidelidade.

A nossa Igreja está em caminho de renovação e conversão pastoral. Nesta altura, é particularmente importante a participação ativa de todos, em espírito sinodal, como foi apresentada na “Carta Pastoral” 2 do início deste ano pastoral. Deus conta com o papel de todos e de cada um, segundo a função que lhe pede na Igreja. Não fiquemos a ver, mas participemos ativamente no caminho sinodal da nossa Igreja.

Maria, a Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, também nos guia com a sua atitude de disponibilidade, idêntica à de Jesus, para aderir ao projeto de Deus e para realizá-lo na sua vida. Ao anjo que transmite o convite de Deus, ela responde: “Eis a serva do Senhor, aconteça em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

A peregrinação diocesana a Fátima, a 16 e 17 de Março, é uma ocasião para renovar em nós a atitude de adesão meditada e assumida de Maria ao projeto de Deus, e a sua prontidão para pô-la em prática, partindo apressada para a montanha, levando Jesus ao seu povo e ao mundo.

Abertos à solidariedade fraterna com quem mais precisa

Um sinal de conversão quaresmal e de vida é a partilha dos dons que recebemos de Deus para atender às necessidades de quem precisa. Por isso se pede às pessoas e famílias que, em espírito de libertação solidária, se privem de algo de seu para acudir a essas situações de carência. Na nossa Diocese de Leiria-Fátima, costuma-se destinar o produto destas ofertas feitas nas paróquias, parte para uma situação no interior da nossa Diocese e outra para uma situação particularmente carenciada, na Igreja e no mundo.

Este ano as duas situações serão para os seguintes destinos:

a) Para a Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima, a fim de acudir às necessidades das muitas pessoas que pedem auxílio;

b) Para acudir, através da Igreja na Palestina, aos desalojados da devastadora guerra que deixou dezenas de milhares de pessoas mortas e privou mais de 1 milhão de outras dos mais elementares bens de subsistência.

Que o Senhor abençoe e multiplique a vossa generosidade para com quem precisa!

Bom caminho de Quaresma, em direção à Páscoa do Senhor!

Leiria, 14-02-2024

† José Ornelas Carvalho
Bispo de Leiria-Fátima

1 Na sua mensagem para este percurso quaresmal – Através do deserto, Deus guia-nos para a liberdade – o Papa Francisco recorda as origens bíblicas deste caminho, partindo destas duas imagens. Pode ler-se no site da diocese: https://www.leiria-fatima.pt/mensagem-do-papa-francisco-para-a-quaresma-2024/.

2 Carta Pastoral: Pelo Batismo somos Igreja viva e peregrina

MENSAGEM PARA A QUARESMA
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Captura de ecrã 2024-04-17, às 12.19.04

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