Mensagem de D. José Ornelas para a Quaresma 2023

É tempo de repensar com verdade aquilo que somos e como agimos, a partir do nosso encontro com Deus, e de deixar-nos transformar e transformar a realidade que nos rodeia, à luz desse encontro. 
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Subir ao alto, para ver a realidade com os olhos de Deus

Com a celebração desta Quarta-Feira de Cinzas, damos início ao tempo da Quaresma, como caminho de preparação para a Páscoa. É um tempo de conversão, a partir do coração, isto é, daquilo que somos de verdade, da nossa maneira de pensar e de agir. É tempo de repensar com verdade aquilo que somos e como agimos, a partir do nosso encontro com Deus, e de deixar-nos transformar e transformar a realidade que nos rodeia, à luz desse encontro. 

O Papa Francisco, fala desta mudança de perspetiva, propondo o convite que Jesus faz aos seus discípulos para subirem com ele a uma montanha, onde se lhes revela glorioso, lhes mostra o sentido da Escritura e lhes faz ouvir a voz do Pai, que lhes recomenda: “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O!” (Mt 17,5).

Esta narração, afirma o Papa, ilumina o nosso caminho de conversão quaresmal: caminho de escuta da Palavra de Deus; caminho junto com os irmãos e irmãs, em Igreja; caminho que leva a contemplar o sonho de Deus para cada um de nós, na comunhão com Ele, na verdadeira felicidade que não acaba. 

Mas, como Pedro e os outros primeiros discípulos, temos vontade de seguir a Jesus e de estar com Ele, mas também temos dificuldade de entender e aceitar o caminho da cruz que Ele propõe. A cruz representa a disponibilidade para aceitar, com e como Jesus, a coerência (a verdade) da fé; para assumir com esforço, coragem e esperança, o caminho de transformação pessoal, da família, da Igreja, da sociedade. É preciso ter essa coragem de identificar aquilo que fere, humilha, destrói, que impede de caminhar e de construir algo de novo em nós e à nossa volta. 

Não se trata de assumir uma atitude de punição, humilhação, ou paralisante complexo de culpa. Reconhecer o mal, em nós e à nossa volta, à luz do olhar verdadeiro e misericordioso de Deus, é o início da conversão quaresmal que forja pessoas livres (livres daquilo que é só imediato e autorreferencial); pessoas que constroem solidamente e solidariamente a própria felicidade e um futuro luminoso à sua volta. Esse olhar libertador, não se fecha em si mesmo, mas leva a caminhar em direção aos outros e em direção a Deus.

Transformar purificando

Perante essa luz, sentimo-nos também como Igreja santa e pecadora. Jesus não escolheu discípulos perfeitos. Aceitou-os sem nunca os rejeitar, mesmo quando mostravam incompreensão, falta de coerência, e até negação e traição. Mas também nunca se resignou à falta de correspondência deles, dizendo que veio para os pecadores, como o médico vem para os doentes. Essa é a atitude que Ele continua a ter para com a Igreja e para com cada um dos seus discípulos e discípulas. 

É neste ambiente de conversão quaresmal que assumimos também a revolta e a humilhação pelos abusos sexuais que se verificaram na Igreja em Portugal nos últimos decénios. Sem entrar em polémicas sobre números — qualquer caso é uma enormidade injusta e dramática na vida de cada pessoa que foi vítima —, não podemos deixar de repudiar, lamentar e pedir perdão a quem foi objeto de cada um destes repugnantes atos. Repudiar e pedir perdão só têm sentido, porém, se significarem igualmente uma atitude ativa de não-resignação e de determinada e concreta atitude de ir ao encontro de que foi tão injustamente tratado e corajosamente se ergueu para denunciar, colaborando na reconstrução das suas vidas. Deixar-se converter significa igualmente fazer justiça a esse sofrimento, tomando todas as medidas para evitar que se repitam e, na medida do possível, tratar igualmente daqueles que foram autores desses atos. Este é um tema que não pode fugir do caminho quaresmal. Tomar a sério este drama será um modo de purificar e transformar positivamente a Igreja.

Juntos para caminhar

Outra proposta para esta Quaresma é a conversão para a transformação sinodal da Igreja em que estamos empenhados. É um caminho que está em curso e visa renovar cada paróquia, cada vigararia e diocese e a Igreja em todo o mundo, através da participação ativa de todos na vida da sua comunidade. Cada um recebeu, pelo batismo, a dignidade de filho e filha de Deus e dons e qualidades que vai desenvolvendo e colocando ao serviço dos outros, ao longo da vida. Esta relação filial com Deus realiza-se junto com outros irmãos e irmãs, filhos e filhas do mesmo Pai do Céu. 

O caminho sinodal deve converter as nossas atitudes concretas e o modo de organização das nossas comunidades. Na Igreja, não estamos simplesmente para assistir: Deus chama-nos a participar e a integrar a vida da nossa comunidade, na escuta da Sua Palavra, na oração, na comunhão e na missão comuns. A nossa conversão há de exprimir-se na participação, perguntando-nos diante de Deus: em que é que posso colaborar na missão comum.

Viver a festa universal do Evangelho

Uma expressão da sinodalidade, que faz parte da nossa conversão, na Quaresma deste ano, é a Jornada Mundial da Juventude que se realiza em Portugal no próximo mês de agosto. É uma ocasião única de fazer a experiência de uma Igreja que fala todas as línguas e se exprime em todas as culturas da terra. Acolher e viver a universalidade da Igreja, com os muitos milhares de jovens que chegarão a Portugal no próximo verão, significa estar presente, especialmente para os jovens. Para todos, trata-se de acolher e de colaborar para que essa festa da juventude, iluminada pelo Evangelho, possa acontecer entre nós. 

Saindo ao encontro de quem precisa

Finalmente, a transformação do Evangelho nunca é uma questão simplesmente interna de uma pessoa, de uma paróquia ou da Igreja no seu todo. A Igreja cumpre a sua missão quando sai de si mesma ao encontro de todo daqueles que, em qualquer parte do mundo têm particular necessidade de ajuda. 

Nesta Quaresma, de tantas situações difíceis do mundo em que vivemos, a nossa Diocese sublinha duas para um esforço especial da nossa vivência comum da Quaresma, duas situações particularmente dramáticas: a guerra na Ucrânia, que já dura há um ano e o terramoto que atingiu de forma devastadora a Turquia e a Síria

Destinaremos, pois, o produto da renúncia quaresmal deste ano a minorar o sofrimento destas populações devastadas pela guerra e pelos desastres naturais. Que o esforço e a renúncia que assumimos como caminho de Quaresma, possa ser colocada nas mãos de Deus para chegar a quem precisa urgentemente de ajuda!

A todos desejo uma santa e transformadora Quaresma, marcada pela cruz de Jesus que nos faz caminhar juntos em direção à Páscoa da libertação, da caridade solidária e da paz.

 ✝︎ José Ornelas Carvalho
Bispo de Leiria-Fátima

Mensagem do Papa Francisco
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Mensagem para a Quaresma
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