LEGALIDADE E CONSCIÊNCIA

A Lei está bem, mas a sua finalidade é salvar, não punir.

Não é raro ouvirmos pessoas de diversos estratos sociais, sobretudo detentores de cargos públicos, ao serem acusados de irregularidades no exercício das respectivas funções, afirmar que estão de consciência tranquila, porque não fizeram nada de ilegal.

Será difícil explicar que significado essas pessoas dão às palavras; mas é verdade que, muito frequentemente, os tribunais, por mais investigações que façam, não conseguem provar a veracidade das acusações que lhes são submetidas.

Não quero agora discutir o tema tão debatido do bom ou mau funcionamento da justiça em Portugal, nem fazer-me sequer eco dos que acusam as polícias e os tribunais de parcialidade, chegando até a dizer-se que o crime só não compensa quando se é pequeno ou se não tem dinheiro.

Não é esse o assunto que me vem à mente, nesta manhã de Primavera, com a natureza sorrindo por todos os lados, com um fortíssimo convite ao optimismo e à alegria, forma privilegiada de agradecer ao Criador a vida e o mundo que nos dá para podermos viver o tempo com laivos de eternidade.

O assunto que me vem à mente, inspirado no episódio do Evangelho que a liturgia põe à nossa consideração, nesta segunda-feira da quinta semana da Quaresma, tem a ver precisamente com esses laivos de eternidade, cuja ausência é denunciada pelo comportamento dos que afirmam com grande leviandade, que estão tranquilos, porque a consciência não os acusa de nenhuma ilegalidade.

Reparo no episódio de Jo 8, 1-11:

“Naquele tempo, Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar.

Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar.

Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em interrogá-l’O, Ele ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Jesus acrescentou: «Também Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar».

Dizem os entendidos que o templo andava em obras, o que torna verosímil, não só o gesto de Jesus escrevendo no chão, como também aquilo de atirar a primeira pedra: diríamos que é mais um pormenor que nos revela a recusa de Jesus em responder aos Seus adversários no campo em que eles o querem ter para discutir.

O Mestre não responde, pois, à pergunta que Lhe fazem, num contexto de desafio mal intencionado: a Sua missão não é discutir opiniões religiosas, sociais ou políticas, mas dar a vida pela verdade.

E qual é a verdade que aqui está em jogo?

Em primeiro lugar, a Lei: termo da Aliança de Deus com o Seu Povo, não pode servir de máscara, ou sepulcro caiado para corações cheios de podridão. A Lei é boa, e há que cumpri-la no que tem de mais profundo: as formalidades, os aspectos visíveis, podem facilmente transformar-se em crueldade discricionária.

— Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra! Só os inocentes podem queixar-se legitimamente dos criminosos e, se for o caso disso, pedir as sanções previstas na Lei.

Afinal, aqueles homens vão-se retirando um por um e não atiram nenhuma pedra.

Não atiram. Porquê?

Por terem visto que não estavam inocentes? Parece-me pouco. Porque então teríamos de pensar que jesus devia ter apedrejado a pobre senhora, surpreendida em grave delito de adultério.

O que eles viram foi que, muito mais importante que a legalidade era a pureza de consciência: a consciência de quem peca, reconhece a sua culpa, descobrindo assim que provavelmente é mais pecador que aquele que quer condenar.

A diferença está em que os acusadores se retiram, enquanto a acusada fica, certamente intuindo que aquele Jesus não só não pegará em nenhuma pedra, mas dará algum conforto ao seu coração humilhado e contrito.

Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não tornes a pecar. A Lei está bem, mas a sua finalidade é salvar, não punir.

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