Lectio divina para o XXXIII domingo comum (15/11/2020)

Desde que nascemos, foram-nos confiados múltiplos bens (físicos, intelectuais, relacionais...) que devemos fazer desenvolver e render ao longo da vida.

Fazer render os bens que Deus nos confia

Desde que nascemos, foram-nos confiados múltiplos bens (físicos, intelectuais, relacionais…) que devemos fazer desenvolver e render ao longo da vida. Esse esforço permite-nos a realização como pessoas humanas, a integração na família e na sociedade e o contributo para o bem comum da humanidade. A esses bens pessoais acrescentaram-se os espirituais que recebemos de Deus através do batismo e da fé cristã. De uns e outros nos serão pedidas contas por quem no-los deu: devemos responder pela forma como os fizemos render.

Entre os bens espirituais que Jesus nos confia estão a Palavra e o Pão da Vida, que nos são dados na celebração da Eucaristia e que devemos fazer render na vida que levamos e nas obras que realizamos. Na oração eucarística, pedimos assim a Jesus: “Abri os olhos do nosso coração às necessidades e sofrimentos dos irmãos; inspirai as nossas palavras e obras para confortarmos os que andam cansados e oprimidos; e ensinai-nos a servi-los de coração sincero, segundo o exemplo e o mandamento de Cristo. Fazei que a vossa Igreja seja o testemunho vivo da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que em todos os homens se renove a esperança do mundo novo” (Oração Eucarística V-D).

Preparemo-nos com a leitura orante da palavra de Deus, pessoalmente, em família ou em grupo, para participarmos mais frutuosamente na Eucaristia dominical.

1. Invocação

Senhor Jesus, na Missa, tu dás-nos a Palavra de Deus e o Pão do Céu. 

Com eles alimentas a nossa vida e nos envias em missão para os fazermos frutificar.

Concede-nos escutar, acolher e compreender as tuas palavras.

Elas nos deem vida e nos guiem para fazer render os bens que nos confias. Ámen.

2. Escuta da Palavra de Deus

2.1. Vamos escutar um texto do Evangelho de S. Mateus. Jesus conta mais uma parábola sobre o Reino de Deus e as “ultimas coisas” que nos esperam. Alude aos bens que Deus confia aos homens, “a cada um segundo a sua capacidade”, à responsabilidade que lhes atribui e à confiança de que serão diligentes para fazer render esses bens. O relato lembra aos cristãos que têm no seu horizonte a segunda vinda de Cristo e que na sua vida quotidiana deverão empenhar-se em desenvolver as oportunidades, as responsabilidades que lhes são oferecidas e as tarefas confiadas a cada um. São tudo bens de Deus que é preciso fazer frutificar durante o tempo de vida que temos. Deus dá espaço ao homem para tomar as suas iniciativas e pôr a render as suas próprias capacidades em variados domínios.

2.2. Leitura do Evangelho segundo S. Mateus (25, 14-30)

O Reino do Céu 14«será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. 15A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. 
16Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. 17Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. 18Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
19Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. 20Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ 21O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
22Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: ‘Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.’ 23O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’
24Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: ‘Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.’ 26O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. 27Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ 28‘Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. 29Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’»

2.3. Breve comentário

A parábola apresenta dois tipos de atitudes perante os bens que Deus confia aos homens e mulheres: a de quem trabalha e usa as suas capacidades para os fazer render e a daquele que, tendo uma ideia de Deus como duro e muito exigente, fica com medo e esconde o talento. Note-se que a distribuição de bens é a cada um “conforme a sua capacidade”. Reconhece-se a diversidade das pessoas e não são fixados objetivos. Cada um deve determinar os seus, para honra do proprietário e igualmente também para o seu próprio seu bem.  A recompensa e o elogio recebem-se conforme a diligência e fidelidade de cada um e não segundo a quantidade que alcançou. Os fiéis servidores participam da alegria do proprietário, que lhes atribui maiores responsabilidades, pois valorizaram-se, cresceram. O “servo mau e preguiçoso” é não apenas repreendido, mas perde até o pouco que tinha. Empobreceu e foi excluído do convívio do Senhor.

“Jesus convida os seus ouvintes a mudar de mentalidade: do temor e mesquinha obediência à perspetiva do amor. A verdadeira natureza da relação entre Deus e o homem é o amor. O discípulo de Jesus deve atuar sempre com a lógica do amor e traduzir a mensagem evangélica em atos concretos, generosos e ousados” (Lectio divina para cada día del año, vol. 13. p. 307).

Esta parábola evoca também aspetos da Eucaristia. Nela, através da Igreja, Jesus confia-nos os bens da Palavra de Deus e do Pão da vida, para que os façamos render dando frutos de vida e testemunho cristãos. Antes de mais, forma-nos e alimenta-nos para crescermos espiritualmente e termos, no nosso íntimo, recursos para enfrentar a vida e assumirmos as nossas responsabilidades e missão. Escreve D. António Marto: “Não há́ Missa sem missão! A celebração termina com a bênção e a despedida finais. É um rito de envio para as nossas ocupações normais e para levar a bênção e a paz de Deus para a vida no mundo. A palavra Missa provém precisamente da fórmula de despedida em língua latina «Ite, missa est», que significa «Ide, sois enviados!» (Youcat, 212).

Assim, «a despedida no final de cada Missa constitui um mandato que impele o cristão para o dever de propagação do Evangelho e de animação cristã da sociedade» (FCS 24), através dos valores, atitudes e propósitos que a Eucaristia exprime e suscita: a alegria de testemunhar a fé, o amor ao próximo, o acolhimento, as relações de comunhão, a fraternidade, a solidariedade, a partilha, o diálogo, a reconciliação, a paz, o cuidado da criação, o serviço e apoio aos mais pobres, frágeis e marginalizados. Aquele que diz «tomai e comei, isto é o meu corpo» é o mesmo que declara: «o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a mim que o fazeis» e «brilhe a vossa luz diante dos homens…».” (Eucaristia, encontro e comunhão com Cristo e os irmãos, n.9). Estes são alguns dos frutos que na vida quotidiana e na sociedade deverão produzir quantos recebem os dons da Palavra e do Pão da Vida, que Jesus Cristo lhe confia em cada Eucaristia em que participam.

3. Silêncio meditativo e diálogo

 – O Reino do Céu «será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. Jesus sugere que Deus confia nos homens e lhes entrega bens para administrarem. Reconheço o amor e a confiança de Deus em relação a mim? Que bens me confiou e que faço com eles? 

A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. Pelo seu amor e pedagogia, Deus respeita e promove as diferenças e as capacidades de cada um. Com a sua ausência, garante-nos a necessária liberdade e a conveniente autonomia.  Reconheço e valorizo com realismo e confiança as minhas próprias capacidades? Sinto que Deus me concede e garante a liberdade e me atribui responsabilidade na administração dos seus bens?

Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Deus não se esquece de nós. Volta, chama-nos novamente e pede-nos contas do que fizemos com os bens que nos confiou. Estou pronto e confiante para responder pela administração dos bens de Deus: a sua Palavra, a Missa e os Sacramentos, as minhas capacidades e bens pessoais e familiares…?

Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: ‘Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.’ O mesmo fez o que recebeu dois talentos. Ao domingo, quando participo na Missa, na apresentação dos dons, que tenho eu para apresentar com o pão e o vinho e para agradecer a Deus? Sinto-me reconhecido e dou graças a Deus pelos bens que me concede e pelos seus frutos?

O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.’ Deus reconhece, elogia e recompensa os esforços que fazemos para fazer render os bens e tarefas que nos confia: dá-nos mais responsabilidades e faz-nos entrar na comunhão com Ele. Já me tenho sentido recompensado e abençoado por ter sido fiel e viver segundo a Palavra de Deus?
 – … sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence. Uma má imagem de Deus só pode levar a uma relação de medo e à estrita observância de obrigações. Não há lugar para o amor e a confiança. Qual o meu pensamento sobre Deus? Que tipo de relação tenho com Ele? Vou à missa só por costume ou obrigação?

‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.’ Deus não admite a maldade nem a preguiça nos homens. Quer pessoas livres, responsáveis e com iniciativas. Guardo só para mim os bens de Deus ou partilho-os com os outros para que deem mais frutos? Sou criativo e generoso no uso das minhas capacidades e conhecimentos?

…ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Como o dinheiro aumenta investindo-o, assim acontece com a fé em Jesus Cristo: se a mantemos passiva no coração, diminui até se extinguir. Se nos esforçamos por a viver e praticar com a oração, o testemunho e as boas obras, ela cresce e dá frutos. Está a crescer a minha fé e torna-me generoso e diligente no testemunho e no serviço caritativo aos outros?

Tomai e comei… Tomai e bebei… Fazei isto em memória de mim… Na Eucaristia, Jesus confia-nos o seu Evangelho e a comunhão consigo próprio e com os irmãos, para nos dar a vida em abundância. Cresço espiritualmente com esses bens? Dão frutos na minha vida e ação no mundo, para a sua transformação segundo Deus?

4. Silêncio, oração e gesto

– Em silêncio, perguntando: Senhor, que queres dizer-me com esta palavra?, cada um procure escutar e descobrir dentro de si o que Jesus lhe ilumina, inspira ou sugere… 

Pode lembrar-se o envio que recebemos na Eucaristia: “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”. O Senhor ressuscitado está sempre connosco. É fonte e força de vida divina no nosso dia a dia para dar frutos para glória de Deus e bem dos homens.

– Depois, com palavras ou algum gesto, cada um pode partilhar com os outros o que sentiu e o compromisso que assume. Podem dizer a que missa vão no domingo.

– Terminam, levantando as mãos e rezando juntos o Pai Nosso.

(Se a família ou grupo quiserem, podem enriquecer o encontro com um cântico)

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