Lectio divina para o Domingo de Ramos, Ano C (Podcast)

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Texto: Jorge Guarda, P. e Marco Daniel Duarte
Vozes: Maria Eugénia Ferreira e José António Ferreira
Pós-Produção: José Simões, Rádio Canção Nova

Lavar os pés: a outra face resplandecente da Eucaristia 

Introdução

As primeiras comunidades cristãs encaravam o mistério eucarístico com a convicção, também nossa hoje, de que não há Corpo sacramentado sem que a Igreja, enquanto Corpo de Cristo, esteja unida pelos laços do amor. Por esta razão, é o próprio Jesus que, no contexto da ceia pascal — ou primeira Eucaristia — dá um mandamento a que chama novo, o de os seus discípulos se amarem uns aos outros como Ele os ama. 

A revolução que este ‘mandatum’ acarreta é de tal ordem que, mesmo naquele cenáculo onde estavam os mais íntimos de Jesus, a comunidade dificilmente está preparada para a entrega até ao fim, de que o lava-pés é clarividente sinal. Também os seus discípulos serão eucaristia — ação de graças que celebra a entrega amorosa — se assim celebrarem, lavando os pés aos seus irmãos, a Páscoa do Senhor. 

Palavra de Deus

Vamos escutar uma passagem do Evangelho segundo São João (13, 1-17)

Antes da festa da Páscoa,
Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora
da passagem deste mundo para o Pai,
Ele, que amara os seus que estavam no mundo,
levou o seu amor por eles até ao extremo. 
O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes,
a decisão de o entregar.
Enquanto celebravam a ceia,
Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos,
e que saíra de Deus e para Deus voltava, 
levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. 
Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos
e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. 
Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe:
«Senhor, Tu é que me lavas os pés?» 
Jesus respondeu-lhe:
«O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora,
mas hás de compreendê-lo depois.» 
Disse-lhe Pedro: «Não! Tu nunca me hás de lavar os pés!»
Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo.» 
Disse-lhe, então, Simão Pedro:
«Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!» 
Respondeu-lhe Jesus:
«Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo.
E vós estais limpos, mas não todos.» 
Ele bem sabia quem o ia entregar; por isso é que lhe disse:
‘Nem todos estais limpos’. 
Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto,
voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: 
«Compreendeis o que vos fiz?
Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. 
Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés,
também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 
Na verdade, dei-vos exemplo para que,
assim como Eu fiz, vós façais também. 
Em verdade, em verdade vos digo,
não é o servo mais do que o seu Senhor,
nem o enviado mais do que aquele que o envia. 
Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.»

Meditação

Levar o amor até às últimas consequências é a marca decisiva que os cristãos são chamados a viver, em cada momento das suas vidas, como se a respiração devesse depender dessa atitude. 

Amar até ao extremo é, de facto, seguir o mandamento de Jesus e leva-me a perguntar: 

como sinto na minha vida essa identidade que recebi no dia do meu batismo, essa cruz que me lembra a entrega até ao fim daquele me ama e se entregou por mim? 

Ter a intenção de sair do nosso comodismo é já um primeiro passo para ir ao encontro do que o Evangelho ensina. Ainda mais longe nos leva a atitude de pormos sobre nós uma toalha à cintura que bem simboliza a disponibilidade para servir. 

Amar até ao extremo é, de facto, seguir o mandamento de Jesus e leva-me a perguntar:

sou capaz de me despojar dos mantos em que me envolvo, de atar uma toalha à cintura, de tomar água numa bacia e de ajoelhar perante aquele que é meu irmão? 

Tantas são as interrogações e exclamações perante a atitude do Mestre quando se dispõe a lavar os pés. Não causa admiração o espanto de Pedro perante um escândalo para a mentalidade humana: Deus ajoelha-se perante a humanidade? Deus lava os pés à humanidade? Deus enxuga os pés à humanidade? 

Amar até ao extremo é, de facto, seguir o mandamento de Jesus e leva-me a perguntar: 

– que imagem tenho de Deus: distante, com um manto real, coroa, cetro de ouro e sentado no trono de poder? ou a de um Deus que se entrega no trono da Cruz, se aniquila ao ponto de assumir a condição humana e nos lava os pés para nos dar a vida em abundância? 

Ser cristão é uma maneira de viver segundo o exemplo de Cristo. Aos discípulos pergunta, quando explica uma lição mais, sempre com o conteúdo do amor até ao fim: «compreendeis o que vos fiz?». 

Amar até ao extremo é, de facto, seguir o mandamento de Jesus e leva-me a perguntar: 

– compreendo o que Jesus fez por mim? Estou disposto a imitar Jesus com a entrega da minha vida, nas pequenas e nas grandes ações, na família, na escola ou no trabalho, no convívio com os meus vizinhos, nas relações com os meus conhecidos e na forma de conviver com os marginalizados da sociedade? Percebo que é desta entrega que se faz a Eucaristia e que esta entrega é a outra face resplandecente da Eucaristia? 

Oração

Senhor Jesus,
Tu amaste os teus discípulos e lavaste os seus pés,
como exemplo para eles assim fazerem também.
O teu Espírito presente em nós
nos leve a praticar o amor recíproco e o serviço aos irmãos.
Torna-nos mais próximos e capazes de lavar os pés
aos pobres, doentes, refugiados ou sós. Ámen.

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