Lectio divina para o Domingo de Páscoa, Ano C

Passado o sagrado dia de sábado, logo que se tornou possível, Maria Madalena vai ao encontro do Senhor “morto”, um encontro que lhe permita aliviar o sofrimento e a saudade.

Onde encontrar o Senhor vivo?

Breve Introdução

Passado o sagrado dia de sábado, logo que se tornou possível, Maria Madalena vai ao encontro do Senhor “morto”, um encontro que lhe permita aliviar o sofrimento e a saudade. Desolação das desolações, o sepulcro aberto, mas o Senhor não estava lá. Parte, a correr, e vai ao encontro daqueles que, como ela, tinham sede de Deus. Instala-se a inquietação: “que terá acontecido?”. Ainda não tinham entendido… Só o encontro pessoal com Cristo ressuscitado, acalma a dor, esbate a dúvida, cria certezas. Não será a Eucaristia dominical ocasião que o Senhor nos oferece hoje para o encontro com Ele?

1. Invocação do Espírito Santo

Vinde, Espírito Santo,
enche-nos de desejo do encontro com o Senhor;
guia os nossos passos para Ele;
abre-nos os olhos para ver e o coração para compreender;
envia-nos ao encontro daqueles que Te procuram
e põe em nossos lábios palavras de ressurreição.

2. Escuta da Palavra de Deus

2.1. Vamos escutar uma passagem do Evangelho segundo S. João (Jo 20,1-9)

A fé dos primeiros discípulos na ressurreição de Jesus baseava-se, em ultima análise, no encontro pessoal com Ele depois da morte. Aqueles que não O tinham encontrado pessoalmente, confiavam no testemunho fidedigno de quem o afirmava. Como nós. Na nossa busca de argumentos a favor da ressurreição, não podemos ir além da credibilidade das testemunhas que a afirmam e cuja fé passou a ser normativa para a Igreja. 

Apesar disso, deve ter-se em conta a informação constante dos Quatro Evangelhos sobre um facto que precedeu as aparições ou encontros pessoais com o Senhor: a descoberta do sepulcro vazio. Por que razão essa descoberta não suscitou imediatamente a fé na ressurreição é questão a que cada Evangelho responde de maneira diferente. Continua a ser, ao fim e ao cabo, uma questão em aberto. O facto não se revestiu de demasiada importância possivelmente porque o encontro pessoal com Jesus ressuscitado teve lugar muito depressa. Então o sepulcro vazio passou a ser considerado como algo muito secundário. 

2.2. Leitura do Evangelho segundo São João 

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predileto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Palavra da salvação.

2.3. Breve comentário

A narrativa de S. João é muito estilizada. Há coisas que se supõem conhecidas: por exemplo, que O sepulcro tinha sido selado. Além disso, apresenta o acontecimento fazendo-o progredir do pensamento da simples consternação para a fé. Vejamos o progresso. 

A reação de Maria Madalena – que vai sozinha ao sepulcro e não com outras mulheres como nos contam os demais evangelhos – é de consternação. Esta deve-se ao facto de o sepulcro não se encontrar nas condições em que o tinham deixado na sexta-feira, depois da sepultura de Jesus. Outra reação é a do discípulo predileto. Vai a correr ao sepulcro, chega primeiro, o que indica a proeminência que no Evangelho de S. João tem este discípulo. João aparece sempre em relação com Pedro e, às vezes, superando-o. Assim se evidenciava a sua autoridade, já que a de Pedro era indiscutível. 

A reação decisiva é a do discípulo predileto, não a de Pedro. O outro discípulo verificou, tal como Pedro, como tinham ficado as coisas: viu as ligaduras, O sudário… Era inadmissível que um ladrão tivesse deixado as coisas tão em ordem. Devia ter-se passado outra coisa. A conclusão, porém, não se impunha facilmente. Desta verificação à conclusão de que Jesus teria ressuscitado, havia um longo caminho a percorrer. 

O outro discípulo, porém, viu e acreditou. E a única ocasião em que se afirma, em todo o Novo Testamento, que alguém acreditou ao ver vazio o sepulcro onde Jesus tinha sido sepultado. Possivelmente, o que se pretende afirmar é que foi esse discípulo o primeiro a acreditar na ressurreição de Jesus, antes de Maria Madalena e até de Pedro. 

O evangelista dirige-se a leitores que, na sua maior parte, não tiveram nenhum encontro pessoal com Cristo do estilo das aparições. Apesar disso, poderiam ter a certeza da sua fé em Cristo ressuscitado? Não era necessário um encontro pessoal? O evangelista responde que não. Ele próprio, aliás, tinha acreditado tendo como ponto de partida, não o encontro pessoal, que seria o ideal, mas simplesmente os indícios observados no sepulcro vazio. 

Pretenderá, com isso, ser exemplo de credibilidade e da disposição para acreditar que devem ter os que ouvirem falar do facto da ressurreição aos que foram testemunhas desde o princípio?

Afirma-se, além disso (v.9), que a fé a que chegou o discípulo amado era algo muito novo para ele e para os outros. Ninguém dera conta, a partir do conhecimento do Antigo Testamento, de que Jesus tinha que ressuscitar de entre os mortos. Isto aconteceu posteriormente, quando a reflexão cristã descobriu a profundidade das passagens do Antigo Testamento que apontavam para a ressurreição do Messias. Evidentemente, isto não aconteceu naquele momento, embora o evangelista pareça afirmá-lo. A afirmação «viu e acreditou» terá corrido exatamente naquele momento? A resposta a esta pergunta não é tão simples como à primeira vista poderia parecer.

3. Silêncio meditativo e diálogo

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro…

O primeiro dia da semana, manhãzinha, ainda escuro, aponta-nos para o início de um novo ciclo na história da salvação, na nossa história… O tempo do encontro com Deus é o agora.  

  • Estou atento às inspirações do Espírito, em cada momento, para o encontro com o Ressuscitado? Sabendo que cada momento de chamamento divino é momento de graça, continuo a perder oportunidades? 

… viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro…

O ver, julgar e agir é o motor da vida do cristão. E também a partilha e procura com outros.

  • Vivendo no mundo dominado pelo ver, pela profusão e exaltação da imagem, procuro discernir o que é de Deus (vida) ou da mentira (morte)?  Presto atenção e “corro” a anunciar boas novas, ou “corro” a divulgar notícias e acontecimentos que aumentam e dispersam o mal?

Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram. 

A “perda” de Deus leva à perda do sentido da vida e do que somos. Porque procurais entre os mortos aquele que vive? O mundo apresenta-nos falta de valores e contravalores e não como e onde alcançar libertação e felicidade. 

  • Tenho consciência de que muitas filosofias e doutrinas de autossatisfação e autoconhecimento afastam de Deus e me levam a pensar que não é necessário na minha vida, na minha salvação? Tenho consciência de que o encontro com Deus acontece na oração, pessoal e comunitária, na escuta e meditação da Palavra da Escritura, e que só aí posso “saber onde Ele está”?

… ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Só em Deus encontra tranquilidade o nosso espírito. A busca de Deus é permanente e não podemos querer “entender Deus”. A Escritura é lugar onde Deus se nos dá a conhecer. 

  • Na minha oração, leio a Palavra de Deus e ponho-me nas mãos dele, aceitando e fazendo a sua vontade? Ou procuro limitar Deus à minha forma de pensar, querendo compreendê-Lo, mais do que deixar-me amar e ensinar por Ele? 

4. Propósito e oração 

– Ao longo da semana, vou procurar momentos de encontro pessoais com Deus, que, por Ele, me levem à proximidade com os outros, particularmente com os “mais pequenos”.

Cada participante pode, querendo, apresentar uma breve intenção de oração.

Pai Nosso…

Senhor Deus do universo,
que, neste dia, pelo vosso Filho unigénito,
vencedor da morte,
nos abristes as portas da eternidade,
concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição de Cristo,
renovados pelo vosso Espírito,
ressuscitemos para a luz da vida.
Por Cristo Senhor Nosso.

Repositório LECTIO DIVINA
https://bit.ly/2W4uDI6

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