Lectio divina para o 7º Domingo de Páscoa, Ano C (Solenidade da Ascensão)

A Solenidade da Ascensão do Senhor, celebrada quarenta dias após a Páscoa ou no domingo seguinte, evoca a entrada definitiva de Jesus na glória de Deus Pai.

A Ascensão de Jesus: da bênção à promessa

Lectio divina para o Domingo da Ascensão do Senhor – Ano C – 29.05.2022

Breve introdução

A Solenidade da Ascensão do Senhor, celebrada quarenta dias após a Páscoa ou no domingo seguinte, evoca a entrada definitiva de Jesus na glória de Deus Pai. Encerra o percurso histórico de Jesus iniciado na Sua Encarnação no seio de Maria, Sua Mãe. S Lucas, autor do Livro dos Actos dos Apóstolos e do relato evangélico conhecido como Evangelho segundo S. Lucas, aponta nestas duas obras datas diferentes para a Ascensão de Jesus: no próprio dia de Páscoa (relato evangélico) ou quarenta dias depois (Atos dos Apóstolos). Não está equivocado. Apenas no Livro dos Actos procura escrever uma reflexão teológica, respondendo, assim, às dificuldades concretas da comunidade cristã a quem escreve. Morte, ressurreição, ascensão, glorificação e dom do Espírito são diferentes perspectivas de um mesmo Mistério. 

1. Invocação

Senhor Jesus,
que vieste ao mundo
para que a nossa felicidade seja completa,
e regressas, agora, ao Pai ensinando-nos
o trajecto e o horizonte da nossa vida,
faz com que em cada dia,
sem deixarmos de nos empenhar nas coisas do mundo,
coloquemos o nosso olhar na vida eterna,
dádiva do vosso infinito amor.
Ámen.

2. Escuta da Palavra de Deus

2.1. Vamos escutar uma passagem do Evangelho de S. Lucas

O relato evangélico deste domingo narra-nos o episódio da Ascensão de Jesus ao Céu. Invocando as Escrituras, Jesus interpreta o que vai acontecer à luz da profecia do Antigo Testamento, promete enviar o dom do Espírito e enquanto se separa dos seus discípulos, abençoa-os. Este episódio faz-nos recordar o arrebatamento de Elias e a missão confiada ao seu discípulo Eliseu. Hoje seremos nós a dar testemunho deste acontecimento. Alude este episódio bíblico, igualmente, à alegria sentida pelos discípulos pelo sentido novo que a sua vida, a partir de agora, encontrou.

2.2. Leitura do Evangelho de S. Marcos (Lc 24, 46-53)

“Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade,
até que sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu. Eles prostraram-se diante de Jesus,
e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.”

2.3. Breve comentário

O episódio da Ascensão de Jesus, relatado por S. Lucas, aparece-nos com dois momentos muito claros: as últimas recomendações e a despedida. Colocada no mesmo dia da Páscoa, depois da aparição aos discípulos de Emaús, Jesus deixa aos seus discípulos, com clareza, a missão que agora lhes cabe levar por diante, na sua ausência física. Ele interpreta a Sua morte e ressurreição como o cumprimento das Escrituras e, ao mesmo tempo, apresenta este mistério como núcleo da pregação que os discípulos devem realizar e que, abundantemente, encontramos em muitas Cartas do Novo Testamento e no Livro dos Atos dos Apóstolos. Eles serão as testemunhas disso. Uma Igreja que cresce guiada e germinada pelo Espírito Santo, tendo no testemunho apostólico a sua manifestação visível. Jerusalém é apenas a cidade de onde partirá a Boa-Nova que há-de chegar até aos confins do mundo. Boa Nova que deve ser acolhida, celebrada e vivida. Arrependimento e perdão dos pecados serão fonte de esperança e de renovação de muitas vidas. Núcleo de pregação e de vida daqueles que se dizem discípulos-missionários de Jesus. 

Este testemunho apostólico, que durará até ao fim dos tempos, será sempre inspirado e sustentado pelo Enviado por Jesus e prometido por Deus Pai: O Espírito Santo. No dom da fortaleza, afastará os medos e os desânimos e levará o novo Povo de Deus a dar testemunho do que viu e ouviu. 

Na segunda parte da leitura, faz-se referência à Ascensão de Jesus, realçando dois aspectos: a bênção de Jesus aos seus discípulos e a alegria que estes sentiram. Apesar da despedida, que evoca sempre a dor da ausência, ainda assim sentiram alegria. Alegria profunda de quem sente que não fica só. Jesus parte, mas ao mesmo tempo fica. Uma presença pressentida, interiorizada. E é essa presença que podemos contemplar no dom da Eucaristia. É nela que encontramos a alegria de um Deus presente e actuante. É nela que mais do que fazer memória, actualizamos o dom da Última Ceia. Como escreveu Luciano Manicardi, Jesus vive na Igreja e a Eucaristia é «o lugar em que passa e floresce o Espírito, é o memorial em que os nossos sentidos são novamente postos perante a sua presença através dos sinais do pão e do vinho eucarísticos, da Palavra anunciada nas Escrituras, dos rostos das irmãs e dos irmãos reunidos em assembleia. É o lugar que renova o testemunho dos cristãos».

3. Silêncio meditativo e diálogo

Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia…” O que é a Eucaristia senão este memorial do Senhor que morreu e ressuscitou? A vitória da vida sobre a morte? A alegria da esperança de uma vida que não acaba? Eucaristia, à letra, quer dizer acção de graças. Em cada Eucaristia devemos dar graças ao Senhor porque Ele sofreu por mim e por nós, para nos dar a vida que jamais acabará. É na Sua vitória que encontramos a nossa vitória. Na Sua Paixão que encontramos força para as nossas “paixões”. 

“…e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.”
Depois da saudação inicial, a celebração da Eucaristia prossegue com o Ato Penitencial, levando-nos não apenas a fazer memória dos nossos pecados, como quem fica a remoer culpas, a reabrir feridas do passado. Pelo contrário, esta memória é activada para ser sanada, curada pelo perdão de Deus e levar ao arrependimento, à prevenção de novas quedas. Este perdão que Jesus nos oferece não é um jogo psicológico. É a certeza de que a ofensa contra Deus cometida foi paga por Jesus, que nos resgatou da derrota eterna. Com que espírito vivo o ato penitencial na Eucaristia?

Vós sois testemunhas disso.” Martys (testemunha) na sua raiz tem esta dimensão de recordar, não apenas psicológico, mas também teologal e espiritual. Dar um rosto Áquele que veio e que virá. Por isso é testemunho profético: falamos d’Aquele que as Escrituras referem e d’Aquele que o Espírito Santo nos garante que virá. Os santos são aqueles que incarnam melhor esta profecia, pois nas suas vidas encontramos melhor a encarnação do espírito evangélico. No ide em paz e o Senhor vos acompanhe, no final da celebração da Eucaristia, encontramos este mandato missionário de ir, não porque a missa acabou. Mas de ir anunciar. Como procuro viver em cada missa este envio? Que propósitos faço?

Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Jesus em comunhão profunda com Deus Pai concede o dom do Espírito Santo aos seus discípulos. Pelo Baptismo e Confirmação, também nós, recebemos este dom. Estes dois sacramentos em conjunto com o sacramento da Eucaristia constituem os sacramentos da iniciação cristã. Ao fim de um período de catequese que habitualmente termina com a celebração do Crisma, porque muitos jovens cristãos deixam de frequentar a Eucaristia, quando devia ser o contrário? Como vivo eu este dom do Espírito: em chave missionária, ou em chave demissionária?

– “…e, erguendo as mãos, abençoou-os.” As mãos de Jesus são mãos que abençoam, que curam, que acolhem, que tocam, que partem e repartem o pão. E as nossas mãos, que fazemos delas? Na Eucaristia usamo-las para nos benzermos, para nos cumprimentarmos, para recebermos o Corpo do Senhor, para partilharmos do que temos no ofertório… para receber e para dar. Que boas obras temos para oferecer a Deus?

“e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.”

Os encontros com o Senhor, seja em oração pessoal, seja na celebração da Eucaristia, nunca os devíamos viver em chave intimista, fechada. Antes, eles remetem-nos sempre para a cidade dos homens, onde a vida acontece e se joga. Celebrar a Eucaristia não é uma fuga do mundo, mas o compromisso mais sério com a transformação do mundo. Porque a alegria de quem se encontra com Jesus não pode deixar de entusiasmar outros, de interrogar outros, de evangelizar outros. Com que cara saio eu de cada Eucaristia? Com cara de gente salva a quem Jesus prometeu a salvação eterna, ou com cara de sofrimento que a ninguém atrai?

4. Oração final e gesto familiar

– Em silêncio, em família ou em comunidade cada um procure fazer memória agradecida dos benefícios, dons, graças que ao longo da sua vida recebeu da parte de Deus, incluindo o dom do céu onde Jesus já se encontra.

– Depois, livremente, quem se sentir interpelado, pode partilhar as alegrias de se sentir discípulo amado, enviado e salvo. 

– No final da partilha, rezam juntos o Pai Nosso finalizando com o cântico: Iremos com alegria para a casa do Senhor

Repositório LECTIO DIVINA
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