Lectio divina para o 30º Domingo do Tempo, Ano C

À primeira vista, esta parábola pode levar-nos a tomar logo partido pelo publicano e desprezar o fariseu. Pela atitude humilde daquele e a arrogância presunçosa deste.

Redescobrir que tudo é dom de Deus 

Breve introdução

À primeira vista, esta parábola pode levar-nos a tomar logo partido pelo publicano e desprezar o fariseu. Pela atitude humilde daquele e a arrogância presunçosa deste. Mas, na verdade, o fariseu faz um diálogo sincero com Deus, onde se apresenta como o que é e faz: um homem justo, impecável, que até faz mais do que aquilo que manda a lei, como, por exemplo, na questão do jejum, em que a lei manda fazer uma vez por ano e ele jejua duas vezes por semana. Nele não há nada reprovável, a não ser o orgulho que sente pela sua retidão, que o contrapõe às outras pessoas e o afasta dos pecadores, o que não é nada de muito grave. Já o publicano é, na realidade, um ladrão e um explorador, que tira dinheiro aos pobres; carregado de pecados como está, para salvar-se, diz a lei, devia devolver tudo o que roubou, mais 20% de juros e abandonar essa vida, algo praticamente impossível segundo os rabinos.

Entendemos geralmente esta parábola como uma lição sobre a humildade, mas o seu ensinamento cala mais fundo: diante de Deus, todos temos sempre as mãos vazias, porque tudo é dom da sua bondade, mesmo as nossas boas ações, onde não podemos pretender ter méritos.

Invocação

Concede-nos, Senhor, a graça de descobrir o teu olhar

e de sermos iluminados pelo teu Espírito, 

para compreendermos o que nos queres dizer hoje na tua Palavra 

e podermos pô-lo em prática na nossa vida 

e nas atitudes para com os outros. Ámem.  

2. Escuta da Palavra de Deus

2.1. Vamos ouvir um excerto do Evangelho segundo S. Lucas

Jesus utilizava as parábolas para poder chegar mais facilmente às pessoas com imagens e personagens conhecidas por elas, de tal forma que conseguia tocar até os corações mais fechados. 

 Na parábola de hoje, vamos ver que quem quer acumular méritos diante de Deus acaba inevitavelmente desprezando os outros. Jesus aponta, pelo contrário, a atitude humilde e despretensiosa, pois tudo na nossa vida é dom de Deus.     

2.2. Leitura do Evangelho segundo S. Lucas (Lc 18, 9-14)

Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros: “Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava assim: “Meus Deus, dou-vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos”. O publicano ficou à distancia e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: ”Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador”. Eu vos digo que este desceu justificado para a sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.

2.3. Breve comentário

A questão principal que nos ocupa nesta parábola é descobrir porque é que o fariseu, sendo um homem justo, voltou para casa sem justificação e o publicano, um pecador, sim, regressou justificado por Deus. Este juízo de Jesus não está a considerar só a vida moral deles, pois ele não diz que o publicano seja bom e o fariseu mau.

O problema do fariseu é que se coloca diante de Deus cheio de si, com a sua grande lista de boas obras, cheio de méritos, e como que a exigir de Deus um reconhecimento. E separa-se dos demais simples mortais e pecadores, para não ser como eles. O publicano, pelo contrário, vai a Deus de mãos vazias, ciente do seu ser pecador, e oferece a Deus apenas o seu arrependimento sincero.

Hoje, também nós corremos sempre o risco de viver na atitude arrogante de perfeitos e melhores que os outros, porque fazemos muito diante de Deus. Pensamos que Ele nos deve por isso a salvação e atrevemo-nos a julgar e condenar aqueles que consideramos menos merecedores do que nós, sem percebermos que a bondade da nossa vida é dom de Deus e naturalmente deve fazer parte do nosso ser cristão.

Silêncio meditativo e diálogo

“Meu Deus, dou-vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como esse publicano…”

A atitude do fariseu mostra uma imagem de Deus própria dos judeus daquele tempo: um Deus contabilista que tem um grande livro onde anota todas as boas e más ações de cada um e distribui prémios e castigos. Daí, em consequência, surge a necessidade da separação de bons e maus, justos e pecadores.

Qual é a imagem de Deus que tenho? Sou também tentado a considerar-me com méritos diante de Deus? Considero-me melhor do que os outros?

“Meus Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador”

Verdadeiramente, perante Deus, o homem está sempre de mãos vazias. Sendo tudo de Deus, ninguém pode exibir nada de seu nem “comprar” a complacência divina.

Consigo reconhecer que as minhas boas obras são sinal da graça de Deus em mim? Aceito com confiança que a salvação é um dom do amor de Deus?

“Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.

Esta afirmação de Jesus é para aqueles que confiam nos seus próprios méritos, no caso, o fariseu que se exalta pelas suas boas obras e se sente orgulhoso diante de Deus por isso. Para não vir a ser humilhado, deve ser capaz de chegar a encontrar-se de mãos vazias, ser pequeno, pobre, para poder ser cheio dos dons de Deus.

Sinto afeição pela humildade? Ou sinto mais gosto pela ideia de ser exaltado?

“Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”

Estes não são só os fariseus, como costumamos pensar, mas os cristãos do tempo do evangelista para quem ele escreve, para os advertir desta perigosa mentalidade. E os cristãos de todos os tempos, já que a ideia de merecer diante de Deus está profundamente enraizada no ser humano e ninguém pode dizer que está totalmente livre deste pensamento, que faz tanto mal na vida das nossas comunidades.

Costumo sentir-me o único bom naquilo que faço? 

Oração final e gesto

Rezemos um trecho do salmo 50:

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.

Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.

Repositório LECTIO DIVINA
https://bit.ly/2W4uDI6

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