Jorge Fernandes: agradecer a Deus por escolher para servir

No próximo domingo, a diocese de Leiria-Fátima contará com mais um membro no seu clero. Às 16h00, na Sé de Leiria, iniciará a celebração em que Jorge Manuel Pombo Fernandes será ordenado no ministério do diaconado. Também na mesma cerimónia, o Micael Ferreira vai ser instituído leitor.

No próximo domingo, a diocese de Leiria-Fátima contará com mais um membro no seu clero. Às 16h00, na Sé de Leiria, iniciará a celebração em que Jorge Manuel Pombo Fernandes será ordenado no ministério do diaconado. Também na mesma cerimónia, o Micael Ferreira vai ser instituído leitor.

Jorge Fernandes (esq.) e Micael Ferreira (dir.) vão ser, respetivamente, diácono e leitor.

Se o Micael Ferreira é natural da Diocese, da paróquia de Monte Redondo, já o Jorge Fernandes, que tem 45 anos, nasceu no seio de uma família humilde, que residia numa pequena aldeia do Alto Alentejo, Vale do Peso, concelho do Crato, distrito de Portalegre. Aí fez a sua escolaridade até ao 12º ano e a sua caminhada cristã teve o seu percurso normal.

Com 19 anos foi cumprir o serviço militar obrigatório para Lisboa e, na perspetiva de um futuro melhor, aderiu ao serviço de voluntariado a contrato, que o levou a servir as Forças Armadas, durante uma década, sempre na mesma unidade, a Academia Militar que é o Estabelecimento de Ensino Superior responsável pela formação dos Oficiais dos quadros permanentes do Exército e Guarda Nacional Republicana.

No tempo em que esteve na tropa, apresentou-se aos capelães que por ali passaram e com os quais colaborou. Fez parte dos Conselhos Pastorais, e, como acólito, participou nas cerimónias religiosas militares e civis, nas missas e sacramentos ministrados a militares ou mesmo a civis que tinham ligação com a família militar.

Durante o tempo em que prestou o serviço militar, licenciou-se em Direito, estudando à noite, na Universidade de Lisboa, tendo trabalhado nessa área já como civil, no Instituto de Ação Social das Forças Armadas.

Mesmo estando fora da Academia Militar, continuou a dar apoio ao capelão que por lá servia. O último com quem se cruzou foi o padre Luís Morouço, da diocese de Leiria-Fátima, que considera ter sido “o instrumento de Deus para que possa estar hoje a fazer este belo caminho na diocese de Leiria–Fátima”.

Os sinais que o levaram a optar pelo sacerdócio tornam-se mais claros quando tem a oportunidade de ir para a linha da frente, durante três meses, ao serviço do grupo missionário Ondjoyetu. Diz que, “pelas terras do Sumbe e Donga (Angola), Deus falou-me de mais perto e chamava-me a uma vida nova”. Ao regressar dessa missão vem a derradeira interpelação pelo padre Luís Morouço: “Tu não andas a descurar a tua vocação?”.

Aí, entra em contacto com o reitor do Seminário diocesano de Leiria e apresenta o pedido, ao cardeal D. António Marto, para que o admita como seminarista da diocese.

Entra para o propedêutico em Setembro de 2013, no Seminário de S. José de Caparide, com 38 anos. Durante o tempo de seminário, os estudos filosóficos e teológicos eram feitos na Universidade Católica e acompanhados pelos ritmos próprios de oração, de vida comunitária e pastoral que iam sendo propostos pela equipa formadora (seminário Olivais e de Leiria).

O que faz um homem mudar-se de uma aldeia do alto alentejo para a diocese de Leiria-Fátima? Porquê a opção pelo Seminário de Leiria?

Leio isto desta maneira: o cristão é um homem do mundo e a Igreja não tem fronteiras. É verdade que sou de uma pequena aldeia do Alto Alentejo. Foi aí que cresci, vivi até à idade de 19 anos e onde se iniciou a história que Deus fez e faz comigo.

Esta mudança deveu-se ao estar em busca daquilo que era a vontade de Deus para a minha vida. 

Durante o tempo em que estive no serviço militar, sempre me disponibilizei aos capelães daquela instituição para colaborar nas atividades da capelania no âmbito das cerimónias religiosas civis ou militares. O último capelão que por ali passou foi o padre Luís Morouço, do qual tenho o privilégio de ter a sua amizade, que é da nossa diocese e é através dele que chego a Leiria e por cá se alarga o grupo de amigos. Fui acolhido por famílias, como se fosse mais um dos seus membros.

A opção pelo seminário de Leiria, apresentou-se natural pois, à data, era a Diocese com a qual tinha mais ligação, pessoal e afetiva. Nessa altura os meus pais já tinham falecido. A família foi dispersando-se para outras terras e outros iam morrendo, pelo que as minhas idas por lá eram cada vez menos. A minha vida ao nível laboral passava-se toda em Lisboa. No entanto, em Leiria iam-se consolidando amizades e passei a visitar estas terras com maior frequência.

Como devoto da Mãe do céu, vejo-me, já aqui, a ser levado a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora. Nada é por acaso, tudo faz parte do projeto que Deus tem para a vida de cada um de nós!

Muitas vezes há referências a “clics” que nos fazem mudar de vida. Qual foi o que fez o Jorge optar pelo sacerdócio?

Os sinais de Deus nem sempre são evidentes quando se manifestam!

Olhando, hoje, para o meu passado, os “clics” de Deus eram muitos e no silencio e em diálogo tímido com Deus, Ele dizia: “Vem e segue-me!”, e eu respondia-lhe que ainda não era a hora. E andei nisto durante muitos anos.

A minha família é de origem simples e eu em cada oportunidade procurava uma vida mais próspera, fazer um curso superior onde ganhasse razoavelmente e pudesse comprar as minhas coisas… casa e por aí adiante.

Deus é muito nosso amigo, deixou-me fazer tudo isto e tudo isto me deu para chegar à conclusão de que a vida não ficava resolvida desse modo! Havia algo em falta. E o que faltava era dar resposta ao Seu chamamento.

O “clic” da viragem foram as palavras do padre Luis Morouço, quando me foi esperar ao aeroporto regressado do Sumbe, onde fiz, durante três meses, uma experiência missionária com o grupo missionário da nossa diocese: “Tu não andas a descurar a tua vocação?”. A partir daí e abrindo o coração aquilo que fosse a vontade de Deus, iniciei o meu caminho de discernimento vocacional. Fui apresentado ao reitor do seminário e acompanhado por ele, para aferir se o caminho efetivamente era por aqui. Ainda tive a graça de ter sido orientado espiritualmente pelo saudoso padre Albino e as portas abrem-se quando o nosso bispo, D. António Marto, me acolheu paternalmente como seminarista da sua diocese. 

Enquanto esteve na tropa é notória a necessidade de alimentar a fé. Como se consegue isso naquele ambiente?

Os militares não são pagãos! (risos) Durante o meu tempo de tropa encontrei gente muito crente, desde comandantes a camaradas na classe e também senhoras e senhores que trabalhavam na instituição! Por outro lado, também nunca me dei mal com os outros que não estavam tão perto de Deus ou diziam não acreditar.

O ir para a tropa não foi deixar Deus de lado. Nesse tempo apresentei-me e dispus-me a colaborar com os capelães que passaram pela Academia Militar. Acolitava nas celebrações religiosas militares e civis, fiz parte de alguns conselhos pastorais e para lá disto tudo, nunca escondi a minha identidade de cristão. E como habitualmente fazia, continuei a fazer: rezar e a meditar a Palavra de Deus, isso para mim era natural, até porque o Senhor não me deixava sossegado e continuava a chamar!

Na Academia Militar havia a particularidade de abrirmos a nossa capela e celebrarmos missa com as pessoas que residiam nos arredores. Era uma comunidade constituída maioritariamente por gente que não era de Lisboa, mas que já lá vivia há muito tempo! Uma comunidade de gente generosa e boa, onde deixei e tenho boas amizades.

Entrar no seminário aos 38 anos não seria normal (ou até bem visto) há uns anos atrás… Pela experiência do Jorge, porque acha que essa opção é feita cada vez mais tarde e em cada vez menor quantidade?

A questão vocacional é uma área sobre a qual tenho alguma sensibilidade e preocupação, até porque estive a acompanhar, durante dois anos, os rapazes que estavam no pré-seminário, agora “seminário em família”.

Da minha pouca experiência, a única certeza é que Deus continua a chamar e há corações onde a semente lançada tem acolhimento. Isso é notório, pois, no seminário, encontrei-me com rapazes jovens, que disseram sim ao Senhor e se dispõem a perguntar o que é que Deus quer para as suas vidas. É verdade que tive colegas meus, mais maduros, não muitos, provenientes do mundo laboral e com cursos superiores. Em idades diferentes, mas num caminho igual: à escuta e no discernimento sobre qual é o projeto de Deus para cada um de nós! Deus chama trabalhadores para a sua messe: os da primeira hora, mas há lugar também para os outros que vão trabalhar já no fim da tarde! 

Fala-se em vocações tardias! Não olho isso dessa maneira, porque a vocação parte do chamamento de Deus e esse acontece muito cedo, agora a nossa resposta… essa é que vem mais tarde!

O termos menos jovens a responder ao chamamento do Senhor está ligado ao facto de vivermos num mundo com muitos ruídos, muito barulho, que ofusca a voz de Deus. Um mundo em que se promete a felicidade e liberdade sem compromisso; tudo é muito imediato e superficial. 

Em face disto, é preciso que sejamos testemunhas alegres desta relação de amor com Deus e anunciadores, com a própria vida, de que vale a pena entregar a vida toda a Deus porque Ele também não nos falta com nada. É preciso deixarmos no coração daqueles que nos escutam o desejo por Deus, não desistir de semear, porque é a isso que somos chamados e o Senhor depois encarrega-se de fazer frutificar. 

Do Direito para a Teologia: como se dá esse salto? Não foi demasiado arriscado?

O salto dá-se quando se percebe que a justiça de Deus está muito para lá da justiça humana. Uma justiça maior que está enraizada no amor misericordioso de Deus que vai além dos pecados ou méritos dos homens.

O estudo da teologia serviu para aprofundar o conhecimento, naquilo que é possível à razão humana, do mistério que é Deus, o homem e o homem em relação com a transcendência e com o mundo. E, nesse sentido vemos, como a teologia é eminentemente prática e relacional e suplanta o campo da teoria e dos conceitos, embora estes tenham a sua importância! Deus é relação, é comunhão de amor entre Pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e o homem criado à imagem e semelhança de Deus reproduz no mundo essa realidade na relação que estabelece com o seu próximo. 

Quanto ao risco, nunca olhei ou vivi a situação nessa perspetiva. O estar em teologia fazia parte desse itinerário formativo e de discernimento sobre aquilo que era a vontade de Deus para a minha vida. 

Sempre guardei estas palavras: “Não temas”, palavras trazidas do céu, pelos mensageiros de Deus, inclusive, são as palavras de Nossa Senhora de Fátima aos pastorinhos, que me pedem confiança, e, foi abandonado nessa confiança que entro para o seminário!

No final da apresentação da dissertação de mestrado, pediste, em jeito de oração, que Deus nos fizesse “instrumentos da misericórdia de Deus junto daqueles que vivem nas periferias da existência”. Isso é sentimento que se cultiva na missão em Angola?

Sim! Fiz a experiência de missão durante 3 meses, de abril a junho de 2012!

O meu tempo de missão no Sumbe e na Donga, Angola, alargou o meu coração, educou-me o coração e o modo de olhar o mundo. 

Ser instrumento da misericórdia é ter o coração com os mais desafortunados da vida, com os míseros. Tomar como próprio o seu sofrimento e necessidades, de tal modo que não nos deixa ficar sossegados, leva-nos à ação, a fazer algo de concreto que devolva àquela pessoa a sua dignidade e a faça sentir-se amada, filha de Deus.

Foi uma experiência muito bela, onde as minhas entranhas se remexeram em face de tanta carência ao nível material, sanitário… 

É uma zona onde parece que falta tanta coisa, mas foi nessa terra que experimentei a importância do essencial e a relativizar tanta coisa supérflua. Foi nessa terra que vi grandes gestos de solidariedade, pois, com o pouco se dava comer a muita gente e ninguém ficava sem abrigo se dele precisasse! Fui muito feliz naquelas terras ao ver no rosto das crianças o sorriso rasgado nas brincadeiras que faziam e a gratidão por aquilo que a missão ia desenvolvendo em favor da comunidade.

Durante aqueles três meses, naqueles mais “pequeninos” pude tocar a presença de Cristo e a pensar e repensar a cada passo, o que é que Deus queria verdadeiramente para a minha vida.

Que diácono esperas vir a ser?

Em primeiro lugar e, faz-me todo o sentido, fazê-lo publicamente, ser agradecido: a Deus por me ter escolhido para o serviço da sua Igreja; ao seminário, nas pessoas do padre José Augusto e padre Manuel Henrique e todos os outros padres que pertenceram ou pertencem às equipas formadoras dos seminários de S. José em Caparide e no de Cristo Rei dos Olivais, pelo acompanhamento e dedicação prestados que favoreceram o meu discernimento e crescimento espiritual, humano, intelectual e eclesial. A minha ordenação é o fruto de toda a dedicação que me prestaram, obrigado!

Sem futurologia e consciente das minhas fragilidades e pequenez em face da missão que o Senhor me dá, confiado e abandonado à Sua graça, que possa ser solicito ao serviço daqueles a quem o Senhor hoje me enviar, e, ao jeito de Maria, seja um servo atento, generoso e discreto que, no seu servir, em tudo procure sempre  a maior glória de Deus.

Deixa-me bastante tranquilo saber que não estou só, mas que a minha ação é desenvolvida em Igreja, juntamente com o presbitério da nossa diocese, esta nova família a que sou chamado a integrar. É desta forma que penso viver o ministério que me vai ser confiado pela Igreja, assim Deus me ajude!

Na ponta da língua

Um livro? “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry

Um filme? “O rapaz do pijama às riscas” de David Heyman .

Uma canção? “O melhor de mim” – Mariza

Um prato? Comida portuguesa (do cozido à transmontana aos choquinhos à algarvia)

Um país? Portugal

Uma viagem? Terra Santa

Um local? O mundo

Umas férias? Na neve

Um clube? Benfica

Um desporto? Atletismo/corrida.

Um passatempo? Só um !? Ler, passear, confraternizar com amigos.

Uma pessoa? A minha mãe.

Um provérbio? “Caminho começado, é meio caminho andado”.

Uma citação? “Deixa o coração de Cristo falar com o teu, faz teus os seus sentimentos para que sejas também um espelho do amor de Cristo Bom Pastor. […] Deixa-te consumir pela sede de almas e pelo desejo de salvar a ovelha perdida que se afastou.”- Cardeal Sean O’Malley in “Procura-se: amigos e lavadores de pés”, 175-176.

Um dia? O hoje.

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