Jesus também se dá na comunhão espiritual

Neste tempo de confinamento em casa, missas canceladas, igrejas fechadas e participação nas celebrações litúrgicas somente pela rádio, televisão ou internet, muitas pessoas sentem falta da comunhão sacramental com Jesus na Eucaristia. Como sobreviver em condições tão angustiantes e de medo, sem a força que nos vem da fé celebrada e alimentada nas ações comunitárias? Vejamos o testemunho de cristãos que nos precederam, por vezes também em situações muito difíceis, e souberam encontrar os modos possíveis de viver a comunhão com Jesus, crescendo e irradiando a sua fé pelo testemunho.

A irresistível força do amor de Jesus

O cardeal vietnamita Van Thuan (1928-2002), preso durante 13 anos, conta que, quando foi levado para a cadeia, em 1975, acompanhava-o a dúvida angustiante se poderia ali celebrar a Eucaristia. O mesmo lhe perguntaram outros presos católicos. “No momento em que tudo nos faltava, – confessa – a Eucaristia estava no cume dos nossos pensamentos: o Pão da vida. «Se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar é a minha carne, pela vida do mundo» (Jo 6,51)”. E continua: “Em todo os tempos e de modo especial em tempos de perseguição, a Eucaristia foi o segredo da vida dos cristãos: o alimento das testemunhas, o pão da esperança”.

Depois revela a criatividade de que usaram ele e os outros católicos presos para celebrar a Eucaristia, comungar e adorar Jesus às escondidas: “A Eucaristia tornou-se para mim e para os outros cristãos uma presença escondida e encorajante no meio de todas as dificuldades. (…) Jesus eucarístico ajudava-nos de modo inimaginável com a sua presença silenciosa: muitos cristãos regressavam ao fervor da fé. O seu testemunho de serviço e de amor tinha um impacto sempre mais forte sobre os outros prisioneiros. Mesmo budistas e outros não cristãos chegavam à fé. A força do amor de Jesus era irresistível. Assim, a escuridão do cárcere tornou-se luz pascal, e a semente germinou sob a terra, durante a tempestade. A prisão transformou-se em escola de catecismo. Os católicos batizaram os seus companheiros e tornaram-se seus padrinhos” (cf. Testemunhas da Esperança, p. 141-149).

Na sua prisão, Van Thuan e os católicos descobriram o modo de estar com o Senhor, às escondidas. Na nossa “prisão” e privações atuais, também nós precisamos de redescobrir novas formas de estar em comunhão com Jesus e com os irmãos na fé: a leitura, meditação e vivência do Evangelho, o amor mútuo, o amor e ajuda aos pobres e doentes, a unidade espiritual com os sacerdotes como membros do único Corpo de Cristo, a participação na Missa através dos meios de comunicação social e a comunhão espiritual. Jesus tem vários meios de entrar em comunhão connosco para além da Eucaristia. Ele não falha a sua promessa de se deixar encontrar e se dar a quem O procura com fé e amor. Ele próprio disse: “Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós” (Jo 15,4). 

Redescobrir o dom da comunhão espiritual

Um modo importante em ligação com a Eucaristia é a redescoberta e a recuperação do dom da comunhão espiritual e a sua prática. É uma tradição muito antiga e foi ensinada e recomendada pelos santos e pelos pastores da Igreja. São João Bosco (1815-1888) recomendava-a assim: «Se não podes comungar sacramentalmente, faz pelo menos a comunhão espiritual, que consiste em um desejo ardente de receber Jesus em teu coração». Ainda antes dele, Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787) dizia que esse desejo de Jesus Sacramentado é como «dar-lhe um amoroso abraço, como se já o tivéssemos recebido», e deixou-nos esta oração para fazer a comunhão espiritual, sempre que não podemos receber o Senhor na hóstia consagrada:

“Ó Jesus, vinde e vivei em mim.
Ó meu Jesus, eu creio que Vós estais no Santíssimo Sacramento. 
Amo-vos sobre todas as coisas e desejo que venhais à minha alma. 
Já que agora não Vos posso receber no Santíssimo Sacramento, 
vinde, ao menos espiritualmente, ao meu coração.
Como se já tivésseis vindo, eu Vos abraço e me uno a Vós.
Não permitais que eu jamais me separe de Vós.”

No dia 19 de março, no final da Missa, o Papa Francisco, convidou quem estava longe e tinham acompanhado a celebração pela televisão a fazer a comunhão espiritual com esta oração:

“Aos teus pés, ó meu Jesus, me prostro 
e te ofereço o arrependimento do meu coração contrito
que mergulha no seu nada e na Tua santa presença. 
Eu Te adoro no Sacramento do Teu amor, 
desejo receber-Te na pobre morada que Te oferece o meu coração. 
À espera da felicidade da comunhão sacramental, 
quero possuir-te em espírito. 
Vem a mim, ó meu Jesus, que eu venha a Ti. 
Que o Teu amor possa inflamar todo o meu ser, para a vida e para a morte. 
Creio em Ti, espero em Ti, amo-Te. Assim seja.”

Se alguém tiver dúvidas sobre o valor da comunhão espiritual, pode servir-lhe de conforto a afirmação do Concílio de Trento de que quem recebe Jesus desta forma, com um desejo e amor sinceros, reta fé e coração arrependido, obtém frutos espirituais semelhantes aos da comunhão sacramental: a união com Jesus e a graça espiritual que concede a quem n’Ele crê e O ama para crescer na santidade de vida e dar testemunho de Deus.

Já Santa Catarina de Sena (1347-1380) praticava quer a comunhão sacramental quer a espiritual. Temia, no entanto, que esta não tivesse valor em comparação com a primeira. Numa visão, apareceu-lhe Jesus com dois cálices na mão e disse-lhe: «Neste cálice de ouro, coloquei as tuas comunhões sacramentais; neste cálice de prata, coloco as tuas comunhões espirituais. Esses dois cálices são muito bem-vindos para mim.»

Jesus presente em toda a nossa vida

Neste doloroso tempo de jejum da Eucaristia, a comunhão espiritual permite-nos não apenas receber Jesus no nosso coração como unir-nos à Igreja e aos sacerdotes que celebram sozinhos o Santo Sacramento e o oferecem pela Igreja e por todos os homens e mulheres, para que participem da vida de Deus, sejam confortados pela Sua misericórdia e não percam a confiança e a esperança de que esta tribulação vai passar.

A comunhão espiritual pode fazer-se sempre que, a partir das nossas casas, participamos fervorosamente na Missa pelos meios de comunicação social. E também quando, passando diante de uma igreja, mesmo sem poder entrar nela, o nosso pensamento vai até ao sacrário, onde cremos que Jesus está ali presente no Santíssimo Sacramento, e do nosso coração brota o desejo e o pedido de que Ele venha a nós. Outra possibilidade é quando participamos na Eucaristia, mas estamos impedidos, por algum motivo, de fazer a comunhão sacramental. Igualmente os doentes podem com o seu desejo, pensamento e oração fazer a comunhão espiritual suplicando a Jesus que venha com a sua presença dar conforto, alívio e fortaleza para a suportar e dar sentido ao sofrimento.

Seja pela comunhão sacramental, pela espiritual ou pelos outros modos de Se dar a nós, Jesus torna-se presente em toda a nossa vida, gera comunidade entre os que partilham do seu amor e do mesmo “Pão da vida” e envia-nos a partilhar com os irmãos em humanidade os dons e os bens que comungamos. “Se Eucaristia e comunhão são duas faces inseparáveis da mesma realidade, esta comunhão não pode ser unicamente espiritual. Somos chamados a dar ao mundo o espetáculo de comunidade onde se tenha em comum não somente a fé, mas se partilhem verdadeiramente alegrias e dores, bens e necessidades espirituais” – escreve o Cardeal Van Thuan. Pela união e comunhão com Jesus tornamo-nos testemunhas e servidores da paz, da justiça, da confiança e da esperança na sociedade. Ele veio para todos e quer continuar a dar-se continuamente “para a vida do mundo”.

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