Inflação, consumidores e a “ansiedade das facturas”

Quase seis em cada 10 dos auscultados (58%) afirmam que o aumento generalizado nas suas contas está a ter um impacto negativo no seu bem-estar, comparativamente a 45% que afirmaram o mesmo em 2021.

Por  Helena Oliveira

“A deterioração contínua do ambiente económico está a afectar os consumidores, tanto a nível material como a nível da saúde mental. O nosso inquérito mostra um agravamento significativo das finanças dos consumidores, com um número crescente a lutar para pagar as suas contas e a ser forçado a tomar decisões em relação às quais não poderá cumprir. Iremos, sem dúvida, assistir a mudanças acentuadas nos gastos e no comportamento dos consumidores como resultado destas pressões. Os preços da energia continuam a ser uma grande preocupação uma vez que o conflito geopolítico na Europa Oriental continua a perturbar o abastecimento durante os meses mais frios”. (Anna Zabrodzka-Averianov, economista Sénior na Intrum)

De acordo com o mais recente estudo ECPR – European Consumer Payment Report 2022, publicado pela Intrum a semana passada, inflação, ansiedade e atraso no pagamento das facturas, tanto para as famílias, como para os indivíduos e empresas dominam as inquietações neste quase final de ano. O aumento dos preços dos bens essenciais e da energia – que se agravará no Inverno – surgem entre as principais preocupações. 

E não é caso para menos. Se o período pós-Covid conferiu algum optimismo aos consumidores europeus, com a inflação crescente que domina o Velho Continente, a par da incerteza contínua que se vive a nível geopolítico e a crise energética, os tempos vindouros afiguram-se complexos e repletos de enormes sacrifícios. Vejamos algumas das principais conclusões do estudo que conta com a participação de cerca de 24 mil inquiridos em 24 países europeus. 

Queda na confiança dos consumidores atinge níveis recordistas provocando uma “ansiedade das facturas”

Depois de longos anos de baixa inflação e de políticas monetárias laxistas, o aumento dos preços e a subida das taxas de juro estão a criar um pessimismo generalizado no que respeita ao futuro, fazendo esquecer até os tempos conturbados que se viveram durante a Covid. Mais de seis em cada 10 europeus afirmam que estão preocupados com a capacidade de se reformarem de uma forma confortável, com uma quota semelhante dos inquiridos a apontar igualmente para uma nome inquietude face às poupanças para tempos vindouros. Em termos comparativos com o período da pandemia, estes números saltaram de 48% e 52% respectivamente para valores que rondam os 60% na actualidade. Por outro lado, a Intrum alerta para o facto de os inquéritos realizados terem terminado no início do Outono, sendo expectável que, e particularmente com a crise energética, este será um Inverno “gelado” e que os dados recolhidos seriam, decerto, ainda mais pessimistas caso o estudo abrangesse o período mais recente. A incerteza económica e geopolítica que se vive na Europa são os factores que mais contribuem para esta ansiedade face ao futuro, o que não é de todo surpreendente. 

A verdade é que os consumidores com níveis de rendimento baixos (não sendo, contudo, os únicos) estão a ter enormes dificuldades para cobrir os custos dos bens essenciais e as suas contas mensais, com a particularidade dos que conseguiram uma almofada de poupança durante os anos da pandemia estarem igualmente a ver a mesma a chegar ao fim. É que os ordenados não esticam – três em cada 10 inquiridos estão a “exigir” aumento de salários – daí a chamada “ansiedade das facturas” estar a crescer significativamente, na medida em que aumentem as dificuldades para honrar os compromissos financeiros e a capacidade de equilibrar os orçamentos familiares. Desta forma, e em qualquer agregado, quase seis em cada 10 dos auscultados (58%) afirmam que o aumento generalizado nas suas contas está a ter um impacto negativo no seu bem-estar, comparativamente a 45% que afirmaram o mesmo em 2021.

Todavia e uma vez mais, a Intrum alerta para a altura em que o estudo foi efectuado, prevendo que o pior ainda está para vir. Um em cada três consumidores teme não ter dinheiro para pagar as suas contas de serviços de utilidade pública nos próximos 12 meses e mais de oito em cada 10 afirmam estar preocupados com o impacto no preço dos alimentos nos seus orçamentos, bem como em poupar no mesmo período de tempo. 

Em termos de “hierarquia”, o preço dos bens alimentares destaca-se como a principal preocupação para 82% dos entrevistados, seguido de perto pelo aumento nos custos dos combustíveis e no preço da energia (80%), das taxas de juro elevadas (58%), do medo de perderem o emprego ou a sua principal fonte de rendimento (46%), de novas restrições derivadas de possíveis confinamentos (sim, a Covid ainda não desapareceu) e de uma queda no valor das (suas) casas ou outro activos, como por exemplo acções. 

Consumidores não têm fé nos governos e acreditam que a inflação poderá continuar elevada nos próximos anos ou “até para sempre”

Este “até para sempre” parece constituir um pessimismo deveras exagerado. Mesmo com a continuação da guerra na Ucrânia e do seu enorme impacto nos preços da energia e nas cadeias de abastecimento, estimativas do Banco Central Europeu indicam que a inflação poderá começar a descer no início de 2023, baixando cerca de três por cento no final do ano. Mas a verdade é que este pessimismo aparentemente desproporcionado por parte dos consumidores – 46% acredita que qualquer política monetária será limitada para fazer parar a subida dos preços – revela uma enorme descrença na eficácia das medidas governamentais. 

E como alerta o estudo da Intrum, se as expectativas os consumidores no que respeita à inflação estão a ficar desancoradas da realidade, uma explicação poderá residir na sua falta de compreensão relativamente aos factores subjacentes à subida dos preços. Esta “convicção” não só será negativa para a sua saúde mental, como poderá deixar os consumidores menos preparados para choques futuros. Por outro lado, há que sublinhar que os consumidores com fraca literacia financeira são aqueles que mais acreditam que a subida da inflação não “vai parar” comparativamente aos que são mais informados financeiramente (23% versus 14%), sendo igualmente aqueles que mais se preocupam com as taxas de juro elevadas mesmo sem compreenderem de que forma é que serão mais afectados por estas (59% vs 47%). 

Crise da inflação está a atingir uma parte substancial dos europeus criando novos desafios para sectores que estão ainda a recuperar dos danos provocados pela epidemia

Apesar de a esmagadora maioria dos consumidores europeus estar a sentir o impacto da inflação nas suas vidas, são os países bálticos e de leste aqueles que são mais afectados pelas disrupções sentidas nas cadeias de abastecimento devido à guerra na Ucrânia.

E uma das tendências identificadas pelo estudo da Intrum é que embora ainda não tenhamos chegado a um ciclo espiral de aumento de salários na Europa [algo que decerto não acontecerá em todos os países] o facto de os consumidores estarem a exigir aumentos remuneratórios para compensar o aumento dos preços, levará a novos aumentos dos preços e a uma renovada e maior pressão nos salários – três em cada 10 respondentes afirmaram que estão a pensar pedir brevemente um aumento dos seus vencimentos, valor que sobe para 41% para aqueles que têm filhos pequenos. 

Já os executivos com rendimentos mais elevados são, comparativamente aos demais entrevistados, os que maior propensão manifestaram em pedir aumentos salariais (36%), o que sugere igualmente que esta crise está a ter um maior impacto transversal em toda a sociedade face ao que a pandemia provocou.

Na verdade e como mostram os resultados do estudo da Intrum, é expectável que surjam novas exigências de aumento de salários à medida que os preços da energia subirem durante o Inverno e à medida que os consumidores que conseguiram adquirir alguma poupança durante a epidemia, a vejam esfumar-se. 

De qualquer das formas, os consumidores parecem estar preparados para uma nova adaptação às condições actuais do panorama, o que terá consequências significativamente negativas para alguns sectores, apesar de poder beneficiar outros. 

Os consumidores afirmam que a inflação em alta está a obrigar a um ajuste na forma como gastam o seu dinheiro e que estão cada vez mais conscientes face a custos desnecessários (62%). Os dados da Intrum sugerem igualmente que aqueles que estão a adaptar-se à situação vigente irão cortar nas actividades sociais e nas refeições fora de casa. O que constitui uma má notícia para o sector do turismo e da restauração, entre outro, de que é exemplo também o do retalho, os quais estavam finalmente a recuperar das perdas sentidas ao longo do período pandémico.

Por outro lado e num caminho distinto encontram-se os consumidores mais jovens, os quais são dos que mais se queixam de que este ambiente recessivo está a perturbar as suas vidas sociais, mas que são também os que mostram maior disponibilidade para adoptar as soluções “compre agora/pague mais tarde” [BNPL, a sigla em inglês para Buy-Now/PayLater] para cobrirem o aumento dos custos, com 31% da geração Z (os que estão no final do anos da juventude e início da idade adulta) a afirmarem que irão considerar esta solução de forma crescente. Esta vontade expressa pelos mais jovens constitui uma boa notícia para os operadores BNPL, que sofreram uma quebra significativa nos resultados de 2021, mas que voltam a emergir como um mercado chave para quem os considera como uma boa solução para um aperto financeiro de curto prazo.

Como seria igualmente de esperar, as organizações sem fins lucrativos e as de caridade serão especialmente afectadas por este padrão de alteração nas despesas dos consumidores e empresas. Um em cada cinco admite fazer menos donativos, numa altura em que os mais vulneráveis da sociedade estão crescentemente dependentes dos bancos alimentares e da boa vontade alheia, o que constitui igualmente um alerta para os decisores políticos na medida em que não podem deixar nas mãos deste sector a rede que poderá ajudar a proteger os consumidores mais afectados pela subida generalizada dos preços. 

Credores enfrentarão níveis crescentes de incumprimento nos pagamentos

Nos últimos 12 meses, 29% dos consumidores europeus dizem já ter faltado ao pagamento de pelo menos uma factura, valor que sobe para 53% na Grécia, 43% na Roménia, e cerca de 40% na Suíça, Finlândia e Noruega. Em Portugal, a percentagem é de 22 por cento de incumprimento. Com três em cada 10 consumidores a alertar que poderão não conseguir cumprir pelo menos um pagamento nos meses vindouros – e um terço a manifestar a probabilidade de pedirem um alargamento dos prazos de liquidação – a Intrum perspectiva o aumento destes números, em particular nas empresas que não explicitam a forma como irão dar seguimento ao incumprimento das facturas não pagas. No que respeita às contas que mais “facilmente” os consumidores poderão não pagar, encontram-se os custos com a Internet,  contas telefónicas, consultas médicas, despesas de educação, contas de cartão de crédito, gás, água, electricidade, pagamento de rendas ou hipotecas.

De acordo com os dados da Intrum e suportados pelo Painel da Autoridade Bancária Europeia (EBA), embora o número de empréstimos não produtivos (NPL) tenha diminuído até agora, o rácio de empréstimos da fase 2 (stage 2 – os que têm um desempenho inferior ao esperado) tem vindo a aumentar, o que indica que um maior número de incumprimentos poderá seguir-se nos próximos meses.

Um outro dado reportado pelo estudo da Intrum assenta no facto de os consumidores estarem a gastar menos em produtos sustentáveis, sem contudo deixarem de castigar as marcas devido a razões éticas, ou seja as que não se preocupam com estas questões. A crise financeira obrigou os consumidores a diminuir os seus comportamentos sustentáveis num momento crucial para o combate às alterações climáticas. Dois em cada três inquiridos (67%) afirmam que gostariam de adquirir um maior número de bens e serviços sustentáveis – Portugal está acima da média europeia com 64% – mas que o aumento do custo de vida os está a impedir de o fazer, com 61% a referir que a inflação e o aumento do custo de vida não lhes permite pagarem neste momento os “extras” geralmente correspondentes a este tipo de bens e serviços. Gregos (84%), portugueses (82%), húngaros (77%), polacos (76%) e espanhóis são os que se encontram no pódio desta incapacidade. 

Assim e mais uma vez, os decisores políticos e as empresas devem ter em particular atenção que estas dificuldades têm impactos nas tendências cruciais de sustentabilidade no interior dos seus países. Como já enunciado anteriormente, os resultados do estudo comprovam que a maioria dos consumidores continuará a “punir” as empresas que consideram prejudiciais ou não éticas, o que serve de alerta para estas últimas de que não existem dúvidas de que as suas acções continuam sob escrutínio contínuo. 

Nota: A avaliação dos resultados para Portugal será brevemente anunciada.

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