Homilia na primeira celebração no Santuário de Fátima (3º Domingo da Quaresma)

Como provavelmente sabeis, eu iniciei no domingo passado, na Sé de Leiria, o serviço de Bispo nesta Diocese de Leiria-Fátima, por mandato do Papa Francisco. Hoje quis vir celebrar a Eucaristia no Santuário de Fátima, que é parte desta Diocese, mas que tem um papel muito importante para toda a Igreja, para além dos limites diocesanos.
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Introdução

Irmãs e Irmãos,

Como provavelmente sabeis, eu iniciei no domingo passado, na Sé de Leiria, o serviço de Bispo nesta Diocese de Leiria-Fátima, por mandato do Papa Francisco. Hoje quis vir celebrar a Eucaristia no Santuário de Fátima, que é parte desta Diocese, mas que tem um papel muito importante para toda a Igreja, para além dos limites diocesanos.

É, por isso, com muita alegria que quero, como Bispo de Leiria-Fátima, saudar e dar as boas-vindas a todos vós que participais na Eucaristia dominical, nesta solene basílica da Santíssima Trindade, no Santuário de Fátima bem como a todas as pessoas que pelo mundo fora, seguem esta transmissão pelos meios de comunicação. 

É-me particularmente grato concelebrar, nesta circunstância, com os dois bispos que me precederam na sede desta Diocese, o Cardeal D. António dos Santos Marto e D. Serafim Ferreira e Silva. Esses sentimentos estendem-se aos outros bispos aqui presentes, bem como ao Pe. José João Aires Lobato, eleito Administrador da Diocese de Setúbal, após a minha vinda para esta Diocese de Leiria-Fátima. Saudando-o e agradeço a ele, bem como a todas as pessoas que, de Setúbal, quiseram acompanhar-me nesta celebração, bem como os diocesanos desta Diocese de Leiria-Fátima, que me acompanham nesta peregrinação inicial ao santuário da Virgem de Fátima. Saúdo, de modo especial, o Senhor Reitor, Pe. Carlos Cabecinhas e todos e todas as que nele trabalham, velando pela fidelidade ao carisma que lhe é próprio, na Igreja e no mundo, através do cuidado pastoral e missionário 

A mensagem da Palavra de Deus de hoje entra bem em sintonia com o momento que vivemos nestas duas dioceses e no mundo. Ela chama-nos a uma verdadeira conversão de mente, coração e atitudes para entender e aderir ao projeto libertador e salvador de Deus. Tendo em conta também a dramática situação que se vive na Ucrânia, acolhamos este convite à conversão, que nos vem do Evangelho e que ecoa em toda a mensagem de Fátima, reconhecendo as nossa culpas e a violência que atinge a humanidade e peçamos ao Senhor que converta o nosso coração e nos dê o seu Espírito de libertação e de paz.

Homilia

Irmãs e irmãos:

No percurso de Quaresma que estamos a fazer, a liturgia de hoje guia o nosso caminho em direção à Páscoa com um vigoroso apelo a deixar-nos encontrar pelo rosto paterno e libertador de Deus, como ponto de partida para uma opção de vida que nos liberta e torna libertadores. Duas imagens ajudam-nos a entender o que significa a conversão, que carateriza particularmente este tempo de Quarema e a mensagem de Fátima: O chamamento de Moisés para líder e libertador do povo de Israel e o ensinamento de Jesus sobre o confronto de Deus com a fragilidade humana.

Moisés realiza a libertação de Deus (Ex 3,1-8a.13-15) 

A primeira imagem é a do encontro de Moisés com Deus no deserto, onde apascenta o rebanho do seu sogro, Labão. Filho de israelitas escravos no Egito, Moisés tinha escapado à morte decretada pelo Faraó para todos os bebés dos israelitas, graças ao amor e à astúcia da mãe e da família. Uma vez crescido, inconformado com a opressão, escravidão e indignidade do seu povo, ele tentara revoltar-se contra a tirania, mas a repressão tinha-o obrigado a fugir. Agora, parecia viver resignado à sua vida privada, deixando para trás os sonhos de liberdade e dignidade dos seus irmãos.

Deus entra na vida deste homem desiludido e resignado e escolhe-o, não apenas para liderar a libertação, mas para marcar indelevelmente o futuro do seu povo, revelando-se a ele na sarça ardente, no meio do deserto. 

Deus revela-se como o Deus dos pais, dos antepassados do povo: “Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob”. E isso significa que que a situação de escravidão e aflição não o deixam indiferente. “Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel.” Deus revela-se atento e fiel ao seu povo e às Suas promessas. Ele nunca abandona aqueles que escolheu e é fiel à sua Palavra. Além disso, na tradição de Israel fica claro que Deus não tolera a escravidão, a violência e tirania. Ele é o Deus da liberdade, da dignidade, da vida.

Do encontro com Deus resulta que a libertação será de Deus, mas Moisés será aquele que a torna realidade. Este é o modo de agir de Deus. Ele revela-se e transforma o coração e vida daqueles que chama e, corações transformados transformam o mundo. Moisés será libertador por iniciativa de Deus e ao jeito de Deus. Não alcançará simplesmente uma vitória sobre os opressores, mas dará origem a um povo que deverá ser expressão de liberdade, de justiça, de misericórdia e de paz. 

Àquele que envia, Deus revela-se com um misterioso nome, que será sempre motivo de busca e gerador de confiança: “Eu sou Aquele que Sou”. Ele garante que estará presente – “Sou” /” Serei” – mas que não se esgota nos nomes e nos conceitos que vamos apreendendo em cada uma das suas revelações libertadoras. Como para Abraão, Ele será bênção e salvação; escutará sempre o grito de socorro do seu povo, garantindo a sua salvação.

É isto que Moisés vai entender e comunicar como libertador, em nome de Deus. Durante o caminho pelo deserto, ele estará constantemente a subir à montanha para escutar a voz de Deus e a descer para mostrar o verdadeiro caminho da libertação, da justiça e paz para o povo. Por isso, libertação não será simplesmente a vingança dos oprimidos contra os opressores, mas expressão do projeto de Deus de banir toda a injustiça e criar um mundo em fraternidade, na dignidade e na paz para todos.

Esta é também a primeira indicação para o caminho da nossa conversão quaresmal. À luz do chamamento de Moisés, somos convidados a descobrir o rosto de Deus no deserto da autenticidade do nosso ser; a deixar que seja Ele a criar a verdadeira sensibilidade para o mal, a injustiça, a opressão e a violência; atentos sobretudo ao grito dos que são vítimas de todas essas situações, de modo a criar um mundo realmente digno e em paz.

Jesus e a verdadeira conversão (Lc 13,1-9)

A segunda imagem da libertação e da conversão provém do Evangelho que acabámos de proclamar. Confrontado com as vítimas de um desastre acidental ou da deliberada violência humana, Jesus apela, antes de mais, a uma clareza de juízo em relação às vítimas dessas situações. Avisa sobretudo para não falar de tais acontecimentos como “castigo de Deus”: “…Julgais que [esses que morreram] eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante.” 

A conversão começa na mudança de mentalidade (metanoia) e tem a ver com a forma como se olha Deus e o seu relacionamento connosco, bem como a resposta que lhe damos. Jesus começou o seu ministério clamando que era preciso mudar de mente (converter-se). E o remédio para isso é começar por aderir (acreditar) ao “Evangelho”, que significa “Boa notícia” da sua proximidade, amor e cuidado. Esse foi o comportamento que Jesus mesmo adotou, dando, assim a conhecer quanto Deus nos ama.

Os desastres naturais, a violência e a injustiças que nos afetam não são castigos de Deus. Ele não tem inimigos, nem mesmo os que mataram Jesus. Pensar que Deus é como uma balança de pesar bem e mal, para dar bênçãos aos bons e castigar os maus é alimentar os mecanismos da divisão, da vingança, que levam à violência e à guerra. Deus é paciente e dá sempre outra oportunidade para recuperar, levantar-se e descobrir o Seu rosto misericordioso. Ele não dá castigos; o verdadeiro castigo é ausência de Deus. Sem Ele, ficamos limitados à nossa fragilidade e incapacidade de vida em plenitude.

A guerra a que assistimos no leste Europeu é bem o exemplo desse jogo infernal do recurso à violência para submeter, escravizar, destruir, baseado numa visão de estratégia pessoal, de grupo ou de nação, que se arroga o direito de anular a liberdade dos outros e de os levar à sujeição. A primeira leitura mostra claramente que Deus não tolera nenhum destes comportamentos. Não podemos deixar de condenar estes modos de pensar e de agir. Por outro lado, também não podemos entrar na lógica da resposta igual, mesmo quando se trata do dever de deter a mão dos tiranos. 

Os povos da Ucrânia e da Rússia são filhos/as de Deus e o mundo tem necessidade deles dois. É urgente a conversão de mentes e, mais urgente ainda, cuidar das vítimas da maior loucura humana que é a guerra. Nunca haverá vitória nestes conflitos. As vitórias militares contam-se em mortes, ódio e sofrimento, sobretudo dos mais fracos. A única vitória é a paz.

Fátima e mensagem da paz para a Igreja e para o mundo

Termino com a memória de Fátima como manifestação e desafio de paz. Os eventos de Fátima em 1917 tiveram lugar durante a sangrenta primeira guerra mundial, a revolução russa e uma pandemia com efeitos mais devastadores do que aquela que ainda condiciona as nossas vidas. Maria, a Senhora de rosto resplandecente, traz a misericórdia de Deus a um mundo com muitas semelhanças àquele em que vivemos. Ela não é estratega militar e dirige-se a três crianças que sofrem as consequências, não apenas da situação geral do planeta, mas igualmente do pobre estado do país, que nem lhes permitia acesso ao ensino. Perante a loucura dramática da guerra, a Mãe Maria, dedica a sua atenção e carinho a estas crianças simples e iletradas. Não lhes esconde o horror da guerra, mas infunde-lhes uma coragem superior à sua idade, para vencerem o medo, com a confiança na força e no carinho de Deus, cujo Coração se encontra ferido pelo horror e a perversão da humanidade.

Maria, Mãe e modelo da Igreja, pode ser vista nos milhares de mães que estão a sair da Ucrânia com as suas crianças e os seus idosos. Ela sabe o que é fugir da fúria dos tiranos, ser refugiada, depender da boa-vontade de gente desconhecida, para proteger o seu Menino, o seu tesouro, a esperança de um futuro melhor. Estas mães são dignas de toda a nossa estima, de todo o nosso apoio e acolhimento, até que seja necessário. É bom ver que o mundo e a Europa – também o nosso país – se mobilizaram perante esta tragédia humana, no acolhimento e na ajuda. São sementes positivas de bem que, paradoxalmente, vão caindo nos escombros de milhões de vidas causados pela violência e a morte. Que os nossos braços e a nossa vontade não cansem e que a nossa generosidade se una e organize, para que possamos focar a nossa atenção e a nossa ajuda naqueles/as que passam por provações tão grandes.

É esta Igreja, que tem Maria como Mãe e Modelo que, no início do meu ministério nesta Diocese, peço ao Senhor que nos ajude a construir: uma Igreja disponível para escutar a voz de Deus; unida pelo Espírito de comunhão e partilha entre os irmãos e irmãs; aberta e sensível aos apelos e desafios do mundo em que vivemos; generosa no acolhimento e apoio fraterno a quem precisa e a quem se vê privado da justiça e dos meios para uma vida livre e digna aos olhos de Deus, neste mundo que Ele criou para toda a humanidade e aberta ao mundo que definitivo que Ele no oferece.

Fátima, 20 de março de 2022

† José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima

HOMILIA
https://drive.google.com/file/d/1K5nf8mCSYfFvtvwcBLvOFP9JegiGBYVX

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