Homilia da Missa do Corpo de Deus

Na Eucaristia celebramos sempre, antes de mais, a presença viva de Jesus entre nós. Durante a sua vida, Ele mostrou-se sempre como a mão estendida do Pai do céu, para ir ao encontro dos que se sentem em necessidade.
http://lefa.pt/?p=48923

Nota: esta versão da homilia sofreu algumas alterações após a alteração de última hora do programa da celebração do Corpo de Deus que, em virtude das condições atmosféricas, foi transferida para a Sé de Leiria, tendo sido cancelada a tradicional procissão do Santíssimo pelas ruas da cidade.

INTRODUÇÃO

É com grande alegria que presido, pela primeira vez à solenidade do Corpo e Sangue do Senhor, nesta nossa Diocese de Leiria Fátima. Saúdo, por isso a todos vós, com muita satisfação, por podermos celebrar juntos esta grande festa da presença do Senhor no meio do seu Povo.

A satisfação é maior pela presença entre nós dos dois bispos que me precederam no serviço desta célula do Povo de Deus, D. António Marto e D. Serafim Ferreira e Silva. Obrigado, caros irmãos pela vossa presença que testemunha o percurso da Igreja que peregrina que ilumina e torna presente o Senhor, que conduz o seu Povo através da história.

Saúdo todos/as os que convergiram para Leiria nesta solenidade, a fim de participar nesta celebração. Saúdo particularmente as crianças, especialmente aquelas que fizeram a sua primeira comunhão este ano, recebendo, pela primeira vez, a visita do grande amigo, Jesus.

Vamos celebrar com alegria esta vinda de Jesus para o meio de nós, mas igualmente para o meio desta cidade, e de todas as nossas cidade e aldeias onde vivemos.

Em seguida, vamos peregrinar através da cidade, a caminho da Sé, a Igreja-Mãe da Diocese e, de lá, vamos receber a bênção do Senhor na Eucaristia, para levar àqueles que não estiveram cá presentes, para as nossas famílias e para todas as nossas cidades e aldeias.

Preparemo-nos, pois para celebrar a presença do Senhor, reconhecendo as nossas limitações, desvios e erros, pedindo que o Senhor nos perdoe, nos fortaleça, nos una e nos guie.

HOMILIA

Partilhar o pão: início da revolução do Evangelho

Na Eucaristia celebramos sempre, antes de mais, a presença viva de Jesus entre nós. Durante a sua vida, Ele mostrou-se sempre como a mão estendida do Pai do céu, para ir ao encontro dos que se sentem em necessidade: foi assim com os pobres, com os doentes, com os desiludidos, com os pecadores, com os que tinham perdido a esperança. O Evangelho que acabámos de escutar conta como Jesus se encheu de compaixão para com a multidão daqueles que o procuravam: falou-lhes do Reino de Deus, isto é, da presença amiga e salvadora de Deus e curou os doentes que precisavam da sua atenção.

Entretanto, nesse dia, tinha-se feito tarde e os discípulos (os Doze) pediram-lhe que mandasse embora a multidão, pois no lugar onde estavam, não havia maneira de encontrar alimento e modo de pernoitar para a multidão que se juntara. O pedido dos discípulos mostra que, para eles, estar com Jesus era uma coisa espiritual, não tinha a ver com as dificuldades concretas que as pessoas encontram. Jesus não pensava assim: nos seus gestos, Ele mostra o coração atento e compassivo do Pai do Céu que, como os papás, acorrem cada vez que o seu filho ou filha se encontra em dificuldade. A compaixão, a atenção e a misericórdia, são as manifestações mais “espirituais” da presença de Deus no mundo.

Por isso, Jesus disse aos Discípulos: “Dai-lhes vós de comer!”. Dando-lhes esta ordem, Ele desafiava seus discípulos – os de então e nós hoje – a mudarem de mentalidade: Não mandem embora a multidão sem atender às suas dores, à sua fome, à sua necessidade. Os discípulos de Jesus são, antes de mais, gente que se compadece, que não volta a cara aos problemas. O Evangelho quer provocar uma revolução no modo de pensar as coisas e a compaixão é o primeiro passo dessa revolução.

Os discípulos aceitam a proposta de Jesus, mas colocam a dificuldade mais elementar: Não temos meios; “não temos senão 5 pães e dois peixes”. Na verdade era insignificante para a enorme multidão. Mas era tudo o que tinham, pois o número 7, na Bíblia, significa “a totalidade”, “tudo”.

Jesus não se deixa intimidar pela pequenez dos recursos dos discípulos. O importante é que tenham um coração grande, que deem tudo o que têm. Eles começaram a sentir que não eram só eles que tinham fome, mas também a multidão que estava à volta deles. Por isso, não podiam guardar o pão só para eles próprios, porque Deus criou o pão para matar a fome a todos.

Jesus, então, tomou esse “pouco-tudo” dos discípulos,“os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu-os e deu-os aos discípulos para distribuírem à multidão”. A importância está no gesto de Jesus: “ergueu os olhos ao céu e pronunciou a bênção”. Esse é o gesto que se faz quando se começa uma refeição. Levantar os olhos ao céu e dar graças a Deus significa reconhecer que é Deus que está na origem do pão e que o criou para todos os homens e mulheres que estão na terra. Quando se reconhece que Deus é o Senhor do pão, já não se pode pensar que o pão é só para mim ou para os da minha casa, mas para todos os que têm fome. Essa é a chave do milagre da revolução do Evangelho: quando se compreende que o pão é para partilhar. Por isso rezamos todos os dias na oração que Jesus nos ensinou: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Não o “meu pão”, mas o “nosso pão”. A questão do pão é para conjugar sempre no plural, porque o pão tem de chegar para todos e isso é tarefa dos discípulos de Jesus: criar uma cultura em que a ninguém falte o pão necessário para viver.

Levantar os olhos ao Céu e dar graças, significa também outro princípio fundamental: o pão de que necessitamos não é só aquele que sacia a fome do estómago, como diz Jesus: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,4). O pão significa tudo o que satisfaz igualmente a fome de vida, de coragem, de confiança, de esperança, de felicidade; o pão que afasta a solidão e cria novas relações de fraternidade e solidariedade. Esse é o pão que podemos e devemos partilhar sempre, em cada uma das nossas comunidades, recolhendo o que sobra a uns, para que não falte a quem não tem: “recolheram doze cestos com os pedaços que sobraram” (12 é o  número de Israel. Isto significa que o que sobra a uns é para alimentar o povo todo.

Partilhar a vida – a vida de Deus Imortal e Santo

Mas, além disso, colocar o pouco pão nas mãos de Jesus e levantar os olhos ao Céu significa algo ainda mais importante: tudo aquilo que podemos apresentar e partilhar, mesmo que fosse todo o pão do mundo, será sempre pouco, porque nunca pode dar senão uma vida que nasce, cresce, mas perde forças e morre. Só de Deus (do Céu) pode vir um pão que dá a vida que não acaba e esse pão é Jesus mesmo. Ele não deu simplesmente coisas: deu-se a si mesmo: tempo, capacidades, afetos, até dar toda a vida em nosso favor.

Foi isso que escutámos na primeira carta de São Paulo aos Coríntios sobre a Eucaristia. Na última ceia com os discípulos, Jesus começou por fazer o mesmo gesto da multiplicação do pão: “Tomou o pão e, erguendo os olhos ao céu, deu graças, partiu-o” e deu-o aos discípulos. Mas acrescentou algo que é o mais importante de tudo o que até agora tinha sido dito. O entregar o pão aos discípulos, disse: “Isto é o meu Corpo entregue por vós”. E com o cálice fez o mesmo dizendo: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue”.

As palavras de Jesus significam, antes de mais, que Ele não dá apenas coisas, mas se dá a si mesmo, como pessoa humana e como Filho de Deus. E dá-se em pão para ser comido e vinho (vida) para ser bebido. Assim como o pão e o vinho alimentam o nosso ser biológico e mortal, assim o Pão/Jesus alimenta a nossa vida de filhos e filhas de Deus imortal e Santo. Esse Pão, apenas Jesus pode dar, porque só Ele pode oferecer a vida que não tem fim, porque está unida à vida de Deus no Seu Espírito. Por isso Jesus pode dizer: “Quem come deste pão viverá para sempre” (Jo 6,58).

Mas não é um pão que transforma para a vida depois da nossa morte. Ele une-nos a Jesus para gerar, desde agora uma vida como a sua, partilhada no serviço de quem precisa, a partir das nossas famílias. Quando nos reunimos em Eucaristia é isso que realizamos: fundamentamos a nossa união com Jesus ressuscitado, mas também a união entre nós, pois a Eucaristia reconcilia-nos uns com os outros, faz de nós Igreja. É assim que a Eucaristia é o centro da vida de cada um de nós e da Igreja, apesar das nossas diferenças: sendo muitos, formamos um só corpo em Cristo.

Peregrinar pela cidade

Por isso a Eucaristia faz de nós uma Igreja missionária. Cristo ressuscitado, tornando-se presente na Eucaristia, reúne e dá novas energias aos seus discípulos, mas também os envia, para levarem o pão que Ele continua a multiplicar e a colocar nas mãos deles para saciarem a multidão. A multiplicação do pão tem de continuar através de cada um dos que recebem o pão partido e multiplicado por Jesus. Cada um é chamado a partilhar e multiplicar aquilo que recebeu: a alegria, a coragem, o entendimento da fé, o carinho para quem está sozinho, a solicitude para que sofre, o perdão para quem erra.

Por isso, depois da nossa celebração, vamos Peregrinar pela cidade de Leiria, o centro da nossa Igreja diocesana. Isso significa que assumimos a alegria e o compromisso de criar uma cultura de partilha do pão na cidade e em todo o mundo, para que a ninguém falte o necessário para a vida, a dignidade, a alegria, a esperança e a paz. Através dos nossos gestos e das nossos palavras, tornamos Jesus presente no mundo onde Ele quer continuar a multiplicar o pão que sacia os famintos, sara as feridas de todos os conflitos e injustiça e  conduz por caminhos de fraternidade, de amizade e de paz, até que um dia possamos celebrar todos junto o banquete da vida na Casa do Pai, com Ele e com todos os santos que nos precederam.  

Leiria, 16 de junho de 2022
♰ D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima

HOMILIA
https://drive.google.com/file/d/1hyGc6kG4Ce3nHYE_tkV7bprpkTaoWFux

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