Entrevista ao cónego António Rego: “Este é o meu jornalismo, de procura intensa de sinais de Deus para colocar sobre os telhados”

A propósito deste 48.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o jornal Presente convidou o cónego António Rego a partilhar experiências e opiniões sobre o assunto e a sua vida (a celebrar 50 anos de padre) dedicada à causa da informação religiosa.

É conhecido o seu intenso trabalho na comunicação social na Igreja, nos jornais, na rádio e na televisão, tendo desempenhado, entre muitas outras, funções como coordenador e realizador de programas religiosos na TVI, diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, professor de Comunicação Televisiva na Universidade Católica Portuguesa e consultor do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais.

 

Os jornais, microfones e câmaras foram uma ajuda para a missão pastoral e evangelizadora do padre, ou uma obrigação profissional do jornalista?

Desde o ano em que me ordenei, e sem o haver pensado antes, fui enviado a trabalhar na rádio, numa rádio pequena, no jornal diocesano como chefe de redação, em seguida na televisão e no cinema como crítico do Secretariado do Cinema e da Rádio. Quase de início, fui compreendendo, não que tinha segunda missão como jornalista, mas como padre implicado na missão das comunicações sociais. E vi entrelaçadas as duas atividades numa só, a que chamaria pastoral. Sempre estive ligado a uma paróquia e a uma comunidade sacerdotal. O Concílio tinha sido uma grande luz no caminho da Igreja e no meu caminho. E senti com naturalidade que era um padre, com carteira de jornalista, que desempenhava com naturalidade a missão para que fora enviado e que estaria na continuidade de alguns trabalhos feitos ainda no tempo de formação. E nunca senti a dúvida que muitos me colocavam: ser padre e jornalista? Respondia e respondo com uma pergunta: e porque não? Não é o Evangelho uma notícia, uma Boa Nova.

 

Pode partilhar connosco um dos momentos mais felizes que tenha vivido nessa missão?

Claro que dou muitas graças a Deus pelo que os meus olhos  viram e as câmaras e microfones captaram. Foram  experiências riquíssimas que trouxe para os media, depois de toda a operação de ser tocado pelas comunidades onde passei e revê-las exaustivamente nos programas gravados, editados, comentados e transmitidos. As coisas não me aconteceram uma vez apenas em cada recanto, mas entravam-me na alma. Entranhava, mesmo que no início estranhasse. Passei por Monte Athos, Mosteiros contemplativos, comunidades vivíssimas na África, Ásia e Brasil. Mas guardo no  coração a passagem pelas comunidades de todo o nosso país que, duma forma mais simples ou elaborada, vivem e celebram intensamente os valores das primeiras comunidades. Este é o meu jornalismo, de procura intensa de sinais de Deus para colocar sobre os telhados. Nem tudo é assim tão poético, mas é apaixonante a procura e revelação de sinais humanos e cristãos que andam por aí, por vezes esquecidos dos grandes media.

 

Nunca teve vontade de desistir, mudar de “ramo”?

Cansaço sim. Em muitos lugares passei grandes sacrifícios, por vezes passando vários dias sem me sentar à mesa ou sem tempo para dormir. Isso acontece com todos os jornalistas. Mas dá alegria produzir estes trabalhos, porque vamos redescobrindo o mundo e a Igreja. E às vezes digo a Deus e a mim próprio que tenho de ter cuidado, porque o meu trabalho, não sendo, muito faz muito ruído. Contemplo e respeito o trabalho daqueles que têm pouca visibilidade e porventura pouco retorno daqueles a quem se destinam. Podia contar muitas histórias fascinantes por que passei.

 

Olhando os quase 50 anos dedicados à comunicação social, consegue fazer uma análise rápida do caminho percorrido pela Igreja nesta área?

Começo pelo Concílio, pela nova concepção da Igreja nos media, a proposta de estudos posteriores (Communio et Progressio), mensagens, celebrações de dias mundiais, criação do Conselho Pontifício das Comunicações, dos secretariados nacionais, das presenças na imprensa, rádio e televisão e, na última década, nas plataformas digitais. Lembro o primeiro Dia Mundial das Comunicações Sociais e do entusiasmo que gerou, nomeadamente, no mundo jornalístico, dos debates, estudos, apresentações, programas de rádio e televisão que se apresentaram. É injusto dizer-se que nada se fez. É irreconhecível o que se fazia e o que agora acontece. O espírito de diálogo com a cultura e a sociedade através dos media ganhou outro fôlego e é muito interessante verificar o arco que se estabeleceu entre o Concílio e o tempo que vivemos, nomeadamente, com o estilo e o espírito do Papa Francisco que, de si, são a nova grande encíclica da Igreja sobre comunicação.

 

O que acha que falta fazer, para que se cumpra – ou se cumpra melhor – a “atenção” da Igreja ao universo da comunicação, nomeadamente no mundo digital e das redes sociais, como têm pedido com insistência os últimos três Papas?

Penso que a Igreja entrou neste universo ombreada com outros media que, habituados aos métodos clássicos, tiveram de reconverter formas, conteúdos e indústrias. Acho muito interessantes as mensagens dos últimos Papas terem agarrado a questão do digital como um grande desafio do nosso tempo para a evangelização. Houve uma aprendizagem a fazer de raiz: conhecimento do novo mundo, aproveitamento do “instinto” jovem para lá entrar, o conflito com os media clássicos, a desconfiança na idoneidade das novas tecnologias para anunciar o Evangelho (como já tinha acontecido com as versões anteriores). Mas tudo isso se foi vencendo e disso sou testemunha. As dioceses, paróquias e movimentos foram aos poucos criando os seus “sites” ou portais e, por vezes, faltou o jeito para a notícia eclesial, como já acontecia com os media anteriores. Ou seja: a meu ver falta ir mais longe, trazer mais Evangelho, mais Igreja, mais comunidade, mais vida e novidade para as plataformas. Seria interessante maior uniformização nalguns aspectos, mas a diferença é muito importante, pois essa é uma característica da Internet. Há que fugir do simples institucional para trazer a vida das pequenas comunidades.

Entraria no tema do dia mundial deste ano, num apelo à comunicação de proximidade, ou melhor, nessa nova definição cheia de sabedoria: comunicação é aproximação.

 

De facto, na mensagem para este Dia das Comunicações Sociais, o Papa Francisco define-as como meios de “proximidade” e promotoras da “cultura do encontro”. De que forma os media da Igreja poderão concretizar este desígnio?

Temos, como Igreja, um grande trunfo antecipado. Somos um meio aproximação da comunidade humana e das comunidades cristãs. Temos muita comunicação de proximidade nos jornais diocesanos, semanários, boletins paroquiais, que são vistos e revistos em família e, se passam na Net, fazem proximidade familiar no outro lado do mundo. Penso que necessitamos de intensificar a dimensão “cardiológica” da comunicação, o lado envolvente, afectivo, à maneira de Deus. A Igreja é um corpo de verdade, mas não um mero compêndio de doutrina ou leis morais. Os media da Igreja têm de revelar este brilho do rosto de Deus, em vez de exibirem Deus como um chicote que corrige trajetos e castiga desvios. E o Belo que Ele é e que nos empresta para entremearmos nas nossas palavras, nas nossas imagens. Há pois um espírito a intensificar na nossa originalidade, antes de nos perdermos em questões puramente pragmáticas ou administrativas.

 

O Papa aponta também os riscos atuais do excesso de informação e da rapidez do seu consumo, que podem levar à falta de reflexão, de “pausa e de calma”. Acha que a tentativa da Igreja de acompanhar a “velocidade” de outros comunicadores sociais poderá também prejudicar essa oferta de “reflexão” que a sua mensagem deveria exigir?

Voltando-me para os media da Igreja, acho que estamos favorecidos nesse campo. Não trabalhamos na celeridade dos grandes media. Temos um tempo e um ritmo mediático na nossa comunicação, mas não temos de estontear o público para chegarmos primeiro e narrarmos acontecimentos de esquadra ou acontecimentos exploratórios dos sentimentos ou em resposta ao mero instinto de narrar intriga. Mas o Papa refere-se – e com razão – aos fogos cruzados das notícias, debates e comentários que deixam os referenciais das pessoas espalhados não se sabe por onde. Não  precisamos de colocar as notícias em carrossel para que se tornem interessantes.

 

Disse recentemente, na celebração do 110.º aniversário do jornal “A Guarda”, que aquela diocese deveria manter os três títulos que publica atualmente. Tendo em conta as exigências de profissionalização e qualidade da oferta informativa e a feroz concorrência do mercado, não seria preferível uma opção de concentrar esforços num projeto mais unificador dessa oferta numa diocese?

Apresentei a grande questão que se põe hoje na imprensa escrita contra a imprensa digital. Pertence um pouco a todo o mundo esse braço de ferro que ainda não deixa claro o caminho certo a escolher. Disse, todavia, a opinião que sempre expressei: não deve desaparecer nenhum jornal, nem boletim paroquial. Muita vez, jornal passado a digital é jornal morto. Isso não quer dizer que se não entre numa política corajosa de sinergia, que há muito se vem adiando. Isso provinha do zelo de cada terra, que não aceitava se engolida pelo vizinho. Mas também das dificuldades administrativas e estruturas ilusórias que alguns jornais criaram, estando cheios de grandes máquinas sem trabalho. Com a chamada “crise”, as coisas complicaram-se. Mas continuo a pensar que se deve fazer um grande esforço sem matar. A luta entre o impresso em papel e o digital é diferente da luta de absorção de títulos, mas creio que não se podem procurar soluções nervosas e imediatistas.

 

Em 2011, participou no congresso da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã, em Leiria, onde se debatia, precisamente, o “(re)inventar” dos jornais da Igreja. Foi ali muito consensual a defesa de caminhos de colaboração e cooperação entre os jornais associados. Que formas concretas poderiam ser adoptadas, para além dessa fusão de títulos?

Tive uma intervenção nesse congresso, mas não entrei muito na questão administrativa, que não é a minha especialidade. Sei que os títulos têm algum tom familiar e de quase sacralidade. Exigem, por isso, um grande cuidado e respeito pelo que significam para a comunidade. Também sei que estão muito relacionados com o local e que se não transplantam facilmente com um título novo. Mas importa descobrir novas formas empresariais de alimentar esta espécie de utopia, com profissionais, menos meios, novas mentalidades, utilização eficaz de tecnologias que permitem uma expressiva redução de custos. Digo isto claramente, porque faço um programa de televisão todas as semanas e aprendi a trabalhar com meios simples, muito mais baratos e de maior eficácia. O mais caro é a cabeça, não é a máquina. E importa aprender com os tempos.

 

Para finalizar, o testemunho de quem acompanhou como poucos o caminho da comunicação social da Igreja portuguesa neste último meio século: valeu a pena ter dedicado a vida a esta causa? E como perspectiva o futuro desta missão eclesial?

Não sou o juiz dessa causa. Sei o muito que se fez e os desafios que temos pela frente. Creio que só continuaremos no caminho da fidelidade à missão, se estivermos atentos aos sinais que se vão abrindo e dispondo-nos de coração aberto à surpresa. Estamos em mudança de época, com novas propostas, valores e meios. Precisamos de perder o medo, pois o nosso Deus, condutor da história, continuará a revelar-nos o que já disse ao mundo pelo seu Filho e pela Igreja.

 

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