Entrevista a D. Serafim: “Continuo em missão. Procuro acompanhar a vida…”

Nascido a 16 de junho de 1930, foi bispo nesta diocese entre 1987 e 2006, residindo atualmente no Santuário de Fátima. Poucos dias após completar os 85 anos de idade e  36 de ordenação episcopal, celebrados na mesma data, aceitou o convite para uma conversa com o  PRESENTE sobre algumas memórias da sua vida.

Serafim de Sousa Ferreira e Silva nasceu em Santa Maria de Avioso, Maia, diocese do Porto. Foi ordenado presbítero em 1 de agosto de 1954, na Catedral do Porto, e bispo em 16 de junho de 1979, na Basílica do Sameiro, Braga. Foi nomeado bispo coadjutor de Leiria-Fátima em 1987 e sucedeu a D. Alberto Cosme do Amaral como Bispo diocesano em 1993. Em 2006, foi sucedido por D. António Marto e passou a emérito.

 

Antes da entrevista, à mesa do almoço que fez questão de oferecer, D. Serafim confidencia-nos que isso de “memórias” é coisa que não pretende vir a escrever. No entanto, vários livros publicados, duas centenas de edições da revista Síntese – que fundou e dirigiu durante mais de 40 anos, atualmente sob a chancela da Editora Paulus – e muitos outros artigos e entrevistas são bons contributos para perceber uma vida cheia de experiências e um olhar atento e informado sobre a realidade social, cultural, política e eclesial.

Dedicando-se sobretudo à leitura e a “fazer algumas viagens que foram sendo desejadas e adiadas ao longo dos anos”, nesta fase da sua vida não procura uma intervenção ativa na pastoral, nem sequer no Santuário onde reside, mas confessa-se interessado e “sempre disponível para um conselho, uma opinião, uma sugestão”. É também essa postura de “irmão mais velho” que assume na Conferência Episcopal Portuguesa.

É leitor do PRESENTE e acha que “tem vindo a melhorar” e “é um bom contributo para o conhecimento da Diocese e a formação dos seus fiéis”. Sugere um olhar ainda mais aprofundado e crítico sobre a sociedade e o mundo atuais, “pois a Igreja tem de ter uma voz ativa e revelar a sua posição sobre tudo o que se passa à nossa volta”.

Diz que não gosta de falar de si, mas aceita partilhar algumas recordações com os leitores do jornal desta diocese, que continua a considerar sua.

Gostaria de começar por lhe pedir uma breve memória da sua infância…

Permite-me que comece por saudar os leitores do PRESENTE (onde se encontra também o senhor Bispo) e todos os diocesanos de Leiria-Fátima…

Retomando a tua pergunta, resumirei que sou filho de lavradores da Maia, o penúltimo de dez. Quatro ainda vivemos no aquém… O que mais recordo da primeira infância? São as brincadeiras e uma febre, que obrigou a chamar o médico. Outras pequenas e preciosas “memórias” guardo religiosamente no arquivo do viver, agora como “jubilado”.

Uma delas será, com certeza, a do surgir da sua vocação ao sacerdócio…

Sim. Tinha um tio padre e um irmão que andara no seminário… Certa vez, um cónego mostrou-me um “santinho” com um sacerdote que elevava a hóstia consagrada. Disse: “Se um dia fores padre, poderás fazer este milagre”. A semente ficou a germinar. Bastante mais tarde, debaixo de uma “japoneira”, revelei à mãe o meu propósito. Foi a correr para a “sala grande”. Segui-a. Estava rezando diante de duas imagens do Coração de Jesus e de Maria.

E entrou logo para o seminário?

Entrei no Seminário de Trancoso, em Gaia, já tinha 12 anos. Era tempo de guerra, com os seus múltiplos efeitos, um deles, o facto de sermos cerca de nove dezenas de alunos no 1.º ano, em três turmas. Fomos, já em menor número, para Vilar, em 1944. Bastante “amadurecidos” ou provados, chegámos, em 1951, ao Seminário Maior (Sé), para o curso de Teologia, com notáveis mestres. Éramos mais de duas dezenas e quase todos fomos ordenados; os sete sobreviventes teremos reunião de curso no próximo dia 24 de setembro.

Recorda-se bem desse dia da ordenação sacerdotal e de como viveu esse momento?

A ordenação sacerdotal foi uma chegada e o início de nova etapa. Lembro muitas vezes o que pensei e prometi, quando estava horizontalizado sobre as lajes graníticas da igreja-mãe da diocese. As ladainhas cantadas, em latim, deram tempo para pensar no “sim” que tinha dito e queria ser… Esta ordenação do 2.º grau do mesmo sacramento foi vivida mais na intimidade, pois que a festa da família e da paróquia aconteceu na chamada “Missa Nova”, 15 dias depois.

E como foi o percurso que se seguiu, enquanto padre?

Quando regressei de uma peregrinação a Lourdes, com o meu tio padre, fui chamado pelo Bispo. Mandou-me continuar, em Roma, os estudos de direito canónico e ciências sociais. Tive aí colegas das ditas antigas colónias portuguesas. Sopravam os ventos da revolta…

De novo na minha diocese, três anos depois, fui professor do Seminário e do Instituto de Serviço Social, ao mesmo tempo que exercia diversas ações pastorais…

Porque andei, no meu velho Panhard, a recolher assinaturas contra o facto de o meu bispo estar exilado, mandaram-me para assistente da Acção Católica, em Lisboa. Colaborei com prestigiados dirigentes leigos e exerci outras atividades, nomeadamente, no Tribunal Eclesiástico do Patriarcado.

Depois veio a notícia de que tinha sido escolhido para ser bispo…

A ordenação episcopal foi uma festa. No Sameiro. Fazia 49 anos nesse mesmo dia. Familiares e amigos quiseram participar. A nova cripta foi pequena. Passava a ser bispo auxiliar de Braga…

 Foi o regresso ao Norte…

Isso já tinha acontecido antes. Tinha estado oito anos na capital, mas o bispo do Porto, regressando à sua diocese em 1969, chamou-me. Retomei aulas no Seminário e fui vigário geral. Lembro-me de que, apesar do novo clima político, não deixei de ter problemas com a Pide e a censura, que já tinha sofrido, por exemplo, no programa da TV “Diálogos de sábado”, e então sobretudo no semanário “Voz Portucalense”, que dirigia.

Voltando à ordenação episcopal, começa aí um novo percurso…

Fui bispo auxiliar em Braga de 1979 a 1981 e em Lisboa, onde tive também as trabalhosas funções de secretário da Conferência Episcopal, de 1981 a 1987. Depois, exerci o ministério do 3.º grau do sacramento da Ordem em Leiria-Fátima, de 1987 a 2006…

Em qualquer destas funções, procurei sempre ser dialogal, na amizade sincera e na liberdade responsável. Não esqueci o clero e o laicado, nem as instituições. Bem acolhido no meu jeito de ser, sinto-me grato pela compreensão e estima recíprocas.

Na sua missão como Bispo de Leiria-Fátima, gostaria que recordasse como foi chegar aqui e que expectativas trazia.

Cheguei a Leiria numa tarde de muito sol, no dia 2 de agosto. Na Catedral, assumidos os compromissos canónicos, celebrei por todo o povo a Eucaristia, fonte e centro da vida cristã. Trazia no coração e na mente o propósito de bem servir, especialmente na dimensão profética. Sem pressas ou precipitações. Procurei priorizar a formação permanente. Já tinha vivido os ares ou ventos de mudança resultantes do Vaticano II e do 25 de Abril, pelo que não fechei as portas nem as janelas ao sopro do Espírito.

Como resumiria os anos em que foi Bispo residencial?

Nesta minha diocese de Leiria (desde 1545) e de Leiria-Fátima (a partir de 1984), diligenciei, como respondi na pergunta anterior, para que fosse acontecendo a formação integral. De mim mesmo e dos outros. Reconheço que há limitações e finitudes, porque não somos deuses, nem santos acabados. Das mais diversas iniciativas, ocorre-me salientar o apoio prestado a novas ações ou comunidades, por exemplo, a Canção Nova. Sempre na perspetiva de uma Igreja com periferias e sem fronteiras.

Referiu os dois nomes da diocese, mas quando chegou já era a designação atual que vigorava. Esse binómio sugere-me a pergunta: sentiu-se mais bispo de Leiria ou de Fátima?

Darás licença que lembre um episódio. Quando vim para Leiria-Fátima, apareceu-me um Servita a sublinhar que eu tinha sido o único bispo português a receber no aeroporto da Portela a comitiva que regressava de Roma, em 1984, com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Sinais!

O Santuário de Fátima, integrado nesta diocese, tem dimensão super. Dispõe, como as paróquias em geral, de serviços bem organizados e articulados. Todavia, sempre exige muito do bispo local, não só nas celebrações, mas também no que concerne à difusão da Mensagem, por exemplo, os antigos Cruzados e o antigo “Blue Army”… Também o acompanhamento ocasional da imagem peregrina no estrangeiro, etc.

Não o mencionou no resumo que fez da sua missão episcopal nesta diocese, mas suponho que o Sínodo Diocesano, com a duração de sete anos, tenha um lugar reservado na sua memória. O que o levou a promover essa iniciativa e como a avalia a esta distância temporal?

A sinodalidade é característica essencial da Ecclesia [Igreja]. Ninguém sabe tudo. Ninguém pode tudo. E muitos não são demais. Um sínodo diocesano é convocado pelo bispo e procura “o bem de toda a comunidade diocesana”, como refere o cânone 460 do Código de Direito Canónico. Ainda que só tenha voto consultivo, “uma assembleia de sacerdotes e de outros fiéis escolhidos no seio da Igreja particular” poderá ver com mais clareza plural e agir com mais solidariedade.

Um sínodo diocesano será boa “caminhada”, mesmo que não se veja bem o fim e os meios. O empenho coletivo e a influência osmótica produzirá oportunos e saborosos frutos.

No Livro do Sínodo, editado após a sua conclusão, refere-se que um desses frutos foi um conhecimento mais objetivo da Diocese. Peço-lhe que indique duas características positivas que lhe tenha identificado.

As dimensões desta diocese não coincidem com o distrito. É mais harmoniosa. Permite ao Bispo acompanhar de mais perto todas as reais situações e ações…

O santuário de Fátima é uma riqueza e um desafio; o clero é prestigiado e unido; conta com leigos qualificados e instituições complementares…

Todos estes predicados poderei, como solicitas, resumir a dois: a diocese de Leiria-Fátima é verdadeira comunidade e tem sentido de missão.

Já agora, duas negativas…

Como não tenho à mão candeia nem lanterna, desisto de procurar eventuais “características negativas”.

Entretanto, chegou o momento de se aposentar. Porquê a decisão de ficar por Fátima e não regressar à terra natal?

Querias ver-me mais longe? (risos) Poderei responder que me pareceu mais lógico e normal. Sinto-me bem numa casa do Santuário, que é encruzilhada (carrefour) de tantos peregrinos e alto farol da Esperança.

Continuo em missão. Procuro acompanhar a vida, nas suas vertentes eclesial e social. Sofro com os problemas de ordem moral, por exemplo, o culto da indiferença. Lamento os dramas sócio-económicos, como o desemprego e o custo de vida. Rezo para que a instituição da família recupere todos os seus valores, etc.

Mais concretamente, como é a vida do Bispo Emérito?

Um bispo emérito – e são mais de mil em todo o mundo – não é um reformado, sem mérito. A exortação apostólica “Pastores gregis” diz que os bispos eméritos são “membros importantes do colégio episcopal”. Podem e devem continuar ativos no que puderem…

Eu próprio, na situação de emérito, continuei a ser, durante alguns anos, membro de comissões episcopais e do conselho pontifício para a pastoral da saúde, o que me obrigava a ir a Roma uma ou duas vezes por ano.

Ocasionalmente, aceito algumas tarefas, quer na diocese, quer fora, e mesmo fora do País.

Beneficio também de mais tempo para a leitura e a oração, caminhadas contemplativas e viagens culturais.

No final do percurso terreno, que esperamos dure ainda muitos anos, como gostaria de ser lembrado pela História?

Desculpa que diga: sinto-me sinceramente mentalizado para ser esquecido. O ritmo de vida hoje é mais acelerado e a memória mais curta. Mas rezo para que ninguém se esqueça de Jesus Cristo.

Resta-me agradecer-lhe o prazer desta conversa e sugerir que deixe uma mensagem aos diocesanos…

Agradeço a oportunidade que me dás para saudar o senhor Bispo, todo o clero e institutos religiosos, os residentes nesta querida diocese de Leiria-Fátima, e quantos tiveram ou optaram por partir para outras regiões…

Que a Senhora de Fátima os proteja!

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