Entre o prazer estético e a alegria da Fé

Sobre a mesa tenho vários papéis – coisa que agora não se usa muito, mas que me faz grande falta, apesar de usar, ainda que mal, outros meios de escrita – tenho sobre a mesa vários papéis...

Manhã fria, com desgosto para os veraneantes da última hora e algum conforto para a natureza, que morre à míngua de água e dos cuidados de quem a recebeu como um dom que devia desenvolver e embelezar. A natureza, que parece tirar algum alívio das limitações impostas a quem devia cuidar dela.

Enquanto pensava nesta contradição, veio-me à memória aquela linda tarde de Setembro, sexta-feira como hoje, mas com mais sol, quando, na subida da Cova para casa, alguém me diz: não te esqueças que fazes hoje seis anos!

Como é a memória das crianças! Daquele dia ficou-me apenas , além da lembrança do local e do brilho do sol, já em declínio no horizonte – por isso digo que foi à tarde – ficou-me apenas a lembrança do meu sexto aniversário; e deve-me ter impressionado tanto, que, apesar de em casa, mesmo sem qualquer festa, se falar dos nossos anos, foi a partir daqui que vim contando os meus… por mais setenta e oito, se entretanto não me enganei nas contas.

Sobre a mesa tenho vários papéis – coisa que agora não se usa muito, mas que me faz grande falta, apesar de usar, ainda que mal, outros meios de escrita – tenho sobre a mesa vários papéis: ponho de lado os que trazem a data do meu nascimento, porque não falam verdade, e pego no mais envelhecido de todos, que li pela primeira vez, ainda muito jovem, que me encantou, como ainda hoje me encanta, pela sua beleza formal, mas cujo conteúdo sempre me pareceu demasiado redutor.

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

É verdade que me encanta o poema! Já não me encanta de igual forma a visão que transmite da vida: até porque, quando prestes a atingir as oito décadas e meia, olho para trás, só lamento não ter o génio poético de João de Deus, para dizer o quanto o meu coração transborda de alegria e gratidão por tudo aquilo me aconteceu ao longo deste tempo. Houve alguns espinhos, não posso negá-lo; mas quem será capaz de me apresentar rosas autênticas, naturais, sem espinhos?

Por isso me consola mais ficar contemplando a visão crente do artista bíblico, cuja narração resumo aqui:

“Disse Deus:

«Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre os animais selvagens e sobre todos os répteis que rastejam pela terra». Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus.

Ele o criou macho e fêmea: e Deus abençoou-os, dizendo: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra». E assim sucedeu.

Deus viu tudo o que tinha feito: era tudo muito bom.”

A vida humana! Que maravilha, meu Deus! Obrigado por esse Amor infinitamente gratuito! Tão gratuito que não hesitastes em tornar-Vos criatura para que a fome de nos apoderamos do que nos quereis dar gratuitamente, nos não arruinasse irremediavelmente!

“Deus viu tudo o que tinha feito: era tudo muito bom”!

A vida é isso: uma explosão do Amor infinito de Deus, que não quer senão que O deixemos amar-nos como só Ele pode e quer.

Retirado da página Facebook do autor

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