Editorial Rede 27

Chegados ao fim de uma jornada que nos convocou para estarmos e aprendermos mais “sobre dinâmicas de Liderança na Igreja” somos convidados, como bons alunos que queremos ser, a rever a matéria dada. 

À nossa frente rabiscaram-se apontamentos a esmo, numa caligrafia que, dada a densidade e a intensidade dos assuntos tratados, se arrisca a estar perdida na sua própria ilegibilidade e sujeitar-se ao que a memória nos deixar. 

Cada um de nós teve as suas motivações para estar presente. 

Entre o desejo de aprendizagem pessoal para enriquecimento curricular e as insatisfações pela falta de resultados nas paróquias, serviços, comunidades e movimentos a que pertencemos, importa referir que, para além dessas palavras chave que são autênticas âncoras – ou iscos – para nos prender a atenção, como são as palavras “dinâmica” e “liderança”, fomos reunidos aqui neste auditório porque somos cristãos e pertencemos a uma Igreja que é guiada pela vontade, o desejo, o sonho de ser a imagem do seu Mestre.

Em última análise, juntou-nos aqui o próprio Jesus Cristo que, mais do que ninguém, nos convida continuamente a sermos líderes. Estamos aqui, porque a missão foi-nos atribuída por Ele, e a visão é a mesma que ele teve há dois milénios quando começou por juntar doze indivíduos que, de acordo com os parâmetros atuais daquilo que se exige a um líder, seriam rejeitados logo na primeira triagem. Estamos aqui, porque somos cristãos, porque somos Igreja e, no fim de contas, porque queremos ser verdadeiramente cristãos em verdadeira Igreja.

O nosso Bispo, apoiado nas palavras do Papa Francisco, começou por dar o mote: sermos audazes e criativos. Audazes e criativos para repensar tudo: objectivos, estrutura, estilos e métodos. Na prática, partilhou um sonho que exige virar a Igreja do avesso, exige que nos viremos do avesso

Virar do avesso significa despir a camisola que nos assenta tão bem e deixar revelar as costuras que unem cada pedaço de pano, para sabermos do que somos feitos e como somos feitos. Isso é repensar a mudança estrutural da Igreja, isso é repensar a nossa própria mudança para ir ao encontro dos sonhos, dos altos sonhos que somos convidados a ter. Talvez seja necessário voltar a reforçar uma ou outra costura, ou até irmos à retrosaria mais próxima e escolher um pedaço de tecido para repor outro que se gastou com o uso, possivelmente ali, na extremidade do cúbito.

Num contexto de, como afirma o Papa Francisco, mudança de época, o fenómeno da globalização obriga a um acompanhamento permanente, acelerado e exaustivo das mudanças que todos os dias acontecem nas diversas áreas da sociedade. Por isso, e não raras vezes, nos queixamos da falta de tempo, reflexo também de uma exaustão profissional, pessoal e até espiritual. Em boa verdade, essa falta de tempo, mais não é do que ausência de foco, de centrar no que é essencial. Para ser líder é, por isso, necessário saber o que é ser líder, ir ao âmago do seu conceito mais puro e, consequentemente, no caso do líder cristão, mais generoso. Aprendemos que ser um líder cristão é ser muito mais que ser um simples líder, e equipar-se com essa ferramenta extra que é o Amor que nos transforma e que ajuda a transformar. Tudo o resto – ser exemplo, motivador, humilde – vem por acréscimo e não deixará de nos caracterizar tão necessária como naturalmente. Não são os recursos – dons pessoais, recursos humanos, meios técnicos – que definem o líder, mas a capacidade que ele tem para usá-los e, como nos conta a parábola dos talentos, rentabilizá-los e não escondê-los (nota mental: estima-se que, no tempo de Jesus, um talento fossem 60kg de ouro).  

Como aprendemos hoje, liderar é ter a capacidade de conduzir as pessoas a trabalhar com entusiasmo, de forma comprometida e orientadas para o objetivo concreto da promoção do bem comum. Para fazer frente a essa vulgar tentação de nos vitimizarmos, de pôr em situações, objetos e pessoas estranhas a nós, a culpa dos nosso fracassos, temos de ter presente que devemos começar por nos liderarmos a nós mesmos, ordenarmo-nos a nós próprios (nota para esta referência a um ministério), assumirmos a nossa própria mudança, porque somos filhos de um Deus maior que não escolhe os capacitados, mas que capacita os que escolhe. Só assim estaremos em condições de assumir a responsabilidade de, primeiro, conduzir outros, segundo, orquestrar equipas, terceiro, gerar novos líderes e, finalmente, inspirar.

Como vimos, a Igreja já tem exemplos a que nos podemos agarrar, que podem servir de modelo para a nossa missão, que nos inspiram. Muitos exemplos, tantos que não imaginamos. Tantos cristãos como nós que, mais do que apostarem na colheita, saem a semear, conscientes de que nem todas as sementes germinarão, mas que, nem por isso, desistem de continuar a realizar a sua própria missão de cristãos, porque quem planta tâmaras, não colhe tâmaras. Outros o farão.

Agora vamos para as nossas casas inspirados para dar um novo elã às nossas comunidades, às nossas paróquias, mas sobretudo, às nossas vidas. Desta maneira, como dizia o nosso Bispo, a nossa Igreja pode ser:

Uma Igreja mais ministerial, assente nos vários ministérios e serviços que não apenas o sacerdotal; 
Uma Igreja mais sinodal, onde todos sejam capazes de caminhar juntos em comunhão; 
Uma Igreja mais transparente.

E, finalmente, 
Uma Igreja mais proativa, criativa e inovadora. 

(Nota: este texto foi apresentado como síntese conclusiva da Jornada sobre Dinâmicas de Liderança na Igreja, realizadas no dia 29 de junho de 2019)

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