Editorial Rede 17

Na Vigília Pascal celebrada na Catedral da nossa Diocese, houve um momento, um gesto, que passou despercebido a muitos dos que marcaram presença durante cerca de duas horas e meia na noite do último sábado. Por inerência da responsabilidade, incumbi-me de captar as imagens da celebração, e essa ocasião guardei-a na memória das gratas recordações que, de tão simples, mas tão ricas de conteúdo, valem por mil discursos.

Logo a seguir às promessa batismais, é o momento da aspersão da assembleia com a água acabada de abençoar na mesma cerimónia. Tudo normal, faz parte da riqueza que encerra a Grande Noite para os cristãos. Todavia, há formas que enriquecem ainda mais o seu conteúdo. Esta foi uma delas. O nosso Bispo, apesar do avançar da noite e, imagino, a tolher-se pelo cansaço de, não apenas um, mas vários dias de intensa atividade física e espiritual que tinha implicado a participação em todos os momentos do Tríduo, não deixou o momento ao acaso. E foi vê-lo a empunhar o hissope com o rosto marcado de felicidade pelo calor da festa que celebrava, a avançar pelo corredor da nave central. O passo era acelerado; não de quem tem pressa para acabar, mas com o propósito de chegar a cada um dos presentes. Aqui e acolá ainda teria tempo para fazer uma breve pausa, tal como ele gosta, para dar a benção a um ou outro petiz que, àquelas horas, dormitava no colo de um dos seus progenitores.

Ao fundo da Sé, longe do magote da assembleia, estavam duas mulheres encostadas a uma das portas do nártex. Uma cena curiosa numa noite em que dois protagonistas do evangelho são também duas mulheres. A cena também faria lembrar aquele episódio do publicano que não se achava digno de se aproximar da zona principal do templo. Independentemente da distância, o Bispo, arrastando consigo o acólito — também ele do sexo feminino — que segurava a caldeirinha, abeirou-se do espanto das duas mulheres e fez questão de que, também elas, sentissem na pele a água que poderia ser do seu próprio Batismo. A alegria delas não foi tão efusiva como a das duas Marias que visitaram a propriedade do José de Arimateia, mas, sem dúvida, devolveram o sorriso de pasmo e agradecimento com que o Prelado as tinha surpreendido.

Este episódio poderá ler-se como uma metáfora da boa nova que a madrugada de Sábado Santo para o Domingo de Páscoa nos traz. Uma notícia que não deixa ninguém indiferente e que, de há dois mil anos para cá, vai tocando as pessoas e deixando uma luz de esperança que Deus quis oferecer através do Seu Filho.

E gosto de imaginar o diálogo que as duas mulheres tiveram logo a seguir, uma espécie de paráfrase dos discípulos de Emaús:

— Não sentiste um arrepio quando aquelas gotas de água caíam sobre nós?

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