Dossier: Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

Na edição de hoje (23.01.2014) do semanário diocesano Presente Leiria-Fátima, o destaque vai para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, com o título “Igrejas de Leiria em coexistência pacífica”.

Publicamos aqui esse trabalho, onde se apresentam alguns traços da vivência interconfessional no território da diocese de Leiria-Fátima, com destaque para a “conversa de café” entre o padre católico Jorge Guarda e o pastor baptista António Gonçalves, que acabaram por combinar o agendamento de um encontro interconfessional de oração e reflexão, nos moldes dos que há uma década se realizavam.

 

Igrejas de Leiria em coexistência pacífica 

Estamos a viver, de 18 a 25 de janeiro, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. A iniciativa é promovida pela Comissão “Fé e Constituição” do Conselho Mundial das Igrejas, que junta mais de 340 Igrejas Protestantes e Ortodoxas, bem como algumas Pentecostais e Independentes, e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, da Igreja Católica. Em Portugal, é dinamizada pelo COPIC – Conselho Português de Igrejas Cristãs, que agrega a Igreja Presbiteriana de Portugal, a Igreja Evangélica Metodista Portuguesa e a Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, e pela Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização, da Igreja Católica.

 

Tema deste ano: “Estará Cristo dividido?”

O texto da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios (1, 1-17) serviu de inspiração ao tema deste ano para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Partindo da pergunta “estará Cristo dividido?” (1Cor 1, 1-13), coube a um grupo de canadianos desenvolver o tema e apresentar uma proposta de celebração ecuménica e de reflexões e orações com ele relacionadas. Afirmando o seu “não” à referida pergunta, os autores reconhecem “divisões escandalosas” entre as várias Igrejas e sublinham que é preciso aceitar o apelo de S. Paulo de “recuperar a harmonia, pensando e sentindo o mesmo”.

Tal não significa uniformidade, mas “honrar os dons dos outros (…) no respeito por uma autêntica diversidade de adoração e de vida”, defende o documento, apontando o batismo e a cruz de Cristo como “dois elementos fulcrais do discipulado cristão, nos quais estamos intrinsecamente ligados a Cristo”.

No fundo, esta semana deverá já significar que “respondemos ao chamamento de Deus e ansiamos ser renovados e fortalecer as nossas mútuas relações em Cristo”, como refere a abertura da celebração ecuménica proposta.

 

No território da diocese de Leiria-Fátima

O tema da unidade dos cristãos não está ausente das preocupações dos responsáveis religiosos das várias Igrejas existentes no território da diocese de Leiria-Fátima, sobretudo a Baptista, a Adventista e a Assembleia de Deus, todas de cariz evangélico, para além da Católica. Mas esse tema parece ficar remetido, sobretudo, à oração que cada uma faz para que o Espírito Santo a ilumine em ordem à comunhão que não será fácil de atingir.

A Diocese não tem um serviço específico para a promoção da unidade dos cristãos, tendo sido a pastoral das migrações e alguns padres a título individual a estabelecer contactos e encontros informais com um ou outro pastor evangélico. Dada a presença pouco significativa de cristãos não católicos na Diocese, a formação para o ecumenismo é pouca, mas está presente na formação dos futuros sacerdotes. Por vezes, são questões como os matrimónios mistos ou o batismo de filhos de pais não católicos que levam a um maior contacto ou conhecimento mútuo.

Na verdade, não existem muitos momentos de encontro e de partilha, seja na oração e celebração conjuntas, seja no trabalho social que realizam, por exemplo. Prova disso é a ausência de qualquer iniciativa comum nos anos mais recentes, nem nesta semana específica em que se reza pela unidade.

Constatámos isso também em conversa com alguns padres católicos, em cujas paróquias existem outras Igrejas, como sejam a Vieira de Leiria, a Marinha Grande, a Batalha, a Caranguejeira, a Maceira ou Leiria. Na maioria dos casos, há uma coexistência respeitosa e pacífica, mas sem qualquer contacto.

 

Traços de relação

A zona urbana de Leiria será dos poucos exemplos onde existe alguma relação, mas, ainda assim, esporádica e pouco frequente. O padre Gonçalo Diniz, pároco de Leiria e da Cruz da Areia, recorda o convite feito ao pastor baptista António Gonçalves, aquando da visita pastoral do Bispo, no início de 2013, “que foi bem acolhido e contou com a sua presença no momento do acolhimento a D. António Marto”. Um outro episódio de colaboração aconteceu quando a sede do Centro Social Baptista esteve em obras, em 2006, e a paróquia da Cruz da Areia acolheu esta instituição no seu centro pastoral durante sete meses, para que pudesse continuar a garantir os regulares serviços de assistência que presta.

O padre Jorge Guarda, vigário geral da Diocese, recorda alguns encontros de oração e outras iniciativas realizadas há cerca de uma década (ver “alguns dados” ao fundo). “Tinham como grandes dinamizadores o frei franciscano Adelino Pereira e o leigo António Sá Pessoa, católico que tinha ligações familiares às igrejas evangélicas leirienses, mas deixaram de se realizar sem motivo aparente, talvez apenas pela inércia que o tempo trouxe consigo”.

Curiosamente, é o padre Jorge Guarda e o pastor António Gonçalves que vão mantendo em particular algum diálogo e partilha de ideias, encontrando-se informalmente, de quando em vez.

O jornal PRESENTE quis assinalar esta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos com um desses encontros, convidando ambos para uma breve “conversa de café” sobre o tema (ver abaixo).

 

 

 

Um café com o padre Jorge Guarda e o pastor António Gonçalves

Da conversa nasceu a decisão de retomarem os encontros interconfessionais2014-01-23 unidade cristaos 1912

À chegada ao local onde combinámos a entrevista, os dois convidados dão um abraço caloroso e começam de imediato a pôr a conversa em dia. Dado o tema por que os convocámos, começam por recordar com saudade algumas das ocasiões em que realizaram iniciativas em conjunto, sobretudo nos anos 90. “Devíamos retomar isso”, diz o padre Jorge Guarda, vigário geral da diocese de Leiria-Fátima. “Sim, foi pena não termos deixado logo alguém designado para organizar o encontro do ano seguinte”, concorda António Gonçalves, pastor da Igreja Evangélica Baptista de Leiria.

Reconhecem que foi apenas “porque ninguém tomou a iniciativa” que deixaram de se realizar esses encontros. António Gonçalves não usa a palavra “ecuménico”, que considera demasiado conotada, mas classifica como muito importante o encontro entre diferentes Igrejas “tanto para rezarmos em conjunto, como para partilharmos a fé que nos une e, ainda, para tomarmos posições em comum em relação aos temas e debates que vão surgindo na sociedade, até de ordem ética e moral, em que todos estamos de acordo”. São até “momentos didáticos” para os fiéis que neles participam.

O padre Jorge Guarda avança a sugestão que fique desde já o compromisso de retomar esse contacto: “Vamos agendar isso, talvez um encontro de preparação e debate entre responsáveis religiosos e um outro aberto à participação de todos, talvez pegando num tema social que nos motive à oração e celebração em conjunto, pedindo que a graça de Deus atue em nós”. O pastor concorda e dá como exemplo a Semana Universal de Oração, em que as três Igrejas Evangélicas de Leiria se juntam anualmente, para rezar e debater temas teológicos e éticos que os unem. A última aconteceu na segunda semana deste mês. “Acredito que também os pastores das Igrejas Adventista e Assembleia de Deus estarão abertos a um encontro deste género com a Igreja Católica”, adianta.

Pegamos no tema deste ano e perguntamos a ambos: estará Cristo dividido?

“Não”, afirma o pastor António Gonçalves, defendendo que “na diversidade das várias comunidades cristãs, o amor de Cristo é o elo de união”. E remata: “Deus ama a todos e tem de haver boa vontade de todos para aceitarmos as diferenças e nos respeitarmos mutuamente; embora a unidade orgânica seja impossível, a unidade espiritual é importante”.

“Cristo não está dividido, embora o seu Corpo que é a Igreja sofra com algumas divisões”, completa o padre Jorge Guarda. “Somos todos de Cristo, temos essa mesma herança e há muitos elementos comuns que permitem a unidade; penso que já é muito positivo não estarmos uns contra os outros, falta-nos talvez dar alguns passos no sentido de maior cooperação, de partilha e de aprendermos uns com os outros”.

Após uma hora desta conversa à mesa do café, alargada a outros temas, agradecemos a disponibilidade de ambos e saímos com a alegria de termos ajudado à decisão de voltarem a organizar-se encontros entre as diferentes Igrejas de Leiria.

 

 

Alguns dados…

 

Igrejas na área da Diocese

  • Igreja Evangélica Baptista de Leiria: com algumas centenas de fiéis. Existe em Leiria desde 1916, tem um lar de idosos e um serviço social ao domicílio.
  • Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Está há 30 anos em Leiria e já possui várias comunidades. Tem um lar de idosos na Maceira.
  • Igreja Adventista do 7.º Dia: existe há vários anos e tem outras comunidades além da de Leiria. Tem um serviço social de apoio domiciliário.
  • Igreja Evangélica Reviver: é recente na zona e é de caráter pentecostal, como a Assembleia de Deus.
  • Igreja “Corpo do Messias”, membro da Aliança Evangélica, surgiu recentemente.
  • Com a imigração, vieram para a região de Leiria algumas pessoas cristãs ortodoxas, oriundas dos países do Leste europeu, em quantidade difícil de quantificar e cujas filiações e características distintivas são ainda pouco conhecidas. 

Encontros e atividades

  • Nos anos 1998-2000, houve vários encontros de oração e reflexão bíblica, que envolveram um pequeno grupo formado por dois sacerdotes, um franciscano e outro diocesano, e os pastores de várias das Igrejas acima mencionadas.
  • A 22 de janeiro de 1999, realizou-se no Seminário de Leiria o XV Encontro Ecuménico Nacional e também a celebração ecuménica nacional, no âmbito da semana de oração pela unidade dos cristãos.
  • A 22 de maio de 1999, realizou-se em Leiria o “Fórum Ecuménico Jovem 99”, de âmbito nacional, sob o tema “Ecumenismo – desafios para os jovens cristãos”.
  • A 27 de novembro de 2001, houve um encontro de oração pela paz, no Colégio da Cruz da Areia, com a participação de várias centenas de pessoas de diferentes Igrejas.
  • A 15 de abril de 2003, novo encontro teve lugar na Cruz da Areia, para orar pela paz no Iraque, sob o tema: “Senhor, faz cessar a guerra”. A iniciativa foi da Comissão Diocesana Justiça e Paz e participaram as mesmas Igrejas e a representante da Amnistia Internacional.
  • A 14 de junho de 2003, por iniciativa da Junta de Freguesia de Leiria, realizou-se um encontro de partilha entre as diferentes Igrejas sobre as suas ações no campo social, com a participação de centena e meia de pessoas.
  • A 26 de abril de 2007, houve um colóquio promovido pela Comissão Diocesana Justiça e Paz, sob o tema “Diversidade de culturas: um desafio”, que teve a participação de pastores e fiéis das diferentes Igrejas e a intervenção de um representante das Igrejas evangélicas.
  • Em cada ano, distribui-se pelos padres o guião elaborado a nível internacional para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, aconselhando-se a oração por esta intenção nas comunidades católicas.

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