DOR FELIZ

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Manhã cedo, ainda de madrugada, depois da celebração da Eucaristia, hoje com uma memória especial de São Bonifácio, o grande apóstolo da Europa Central, sobretudo a actual Alemanha, assassinado com alguns companheiros, na região dos actuais Países Baixos; depois da celebração da Eucaristia, como é meu hábito, peguei no terço, para rezar os “mistérios gozosos”, segundo a terminologia tradicional.

De facto, vem-me sempre à ideia a designação de S. João Paulo II, que, na sua Carta apostólica – “Rosaruim Virginis Mariae” – de 16 de Outubro de 2002, lhes chama “Mistérios da Alegria”, e, durante momentos recordei o espanto daquela senhora que, durante uma acção formativa, organizada na paróquia que fora confiada aos meus cuidados pastorais, se ergueu para manifestar o seu espanto pelo facto de o Papa chamar “mistérios da alegria” a cinco episódios da vida de Jesus, segundo ela carregados de momentos tristes e dolorosos.

Já não me recordo da resposta que dei a tal espanto, que, de momento achei natural, talvez demasiado natural, para a vastidão dos problemas que levantava, o tempo e o cabedal teológico de que dispunha na altura.

E fiquei a pensar que o espanto desta senhora, que certamente rezava com muita piedade, partia de um erro de perspectiva que encontramos em muitos dos interlocutores de Jesus e será talvez a fonte do vazio, quem sabe se não mesmo da esterilidade da nossa vida de oração.

No meio destas lembranças, levantei o terço que tinha nas mãos, olhei para ele e perguntei-me com uma certa ansiedade: em que queres pensar agora, ao longo das primeiras cinco dezenas do teu Rosário?

Em ti, nas tuas dores e problemas, em Maria, ou em Deus?

Aquela senhora, que agora te vem à memória, certamente quando rezava, pensava em Maria, mas tirando-a do âmbito do mistério e projectando nela as suas inquietações de dona de casa, esposa e mãe, que ela era, além de mulher, com reacções específicas da sua natureza feminina; tudo bom, segundo os desígnios de Deus.

Trata-se de algo natural; mas o natural não inclui toda a verdade do nosso ser, e, quando se trata de nos pormos em diálogo com Deus, se não mudamos de perspectiva, estamos a cair na tentação de criar um deus à nossa medida.

Será por isso também que deixas tantas vezes a oração: porque achas que te falta disposição, serenidade, paz interior; ou, pior ainda, não te parece que Deus caiba nessa dor que te isola do mundo, te envergonha, te esmaga.

Repara como Jesus responde àqueles saduceus que não acreditavam na ressurreição e fazem lembrar tantos dos nossos humoristas que, para não procurarem o fundo comprometedor da verdade, a põem a ridículo:

“Andais muito enganados. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos”.

Se Ele é Deus de vivos, nada do que te acontece de verdadeiramente humano pode ser excluído da sua presença.

São Paulo vê este Deus presente em Jesus Cristo, que o apaixona pelo espanto da Cruz, onde, como dirá mais tarde o último escritor do Novo testamento, Ele foi com o seu amor até onde só Ele poderia ir: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao último extremo” (Jo 13, 1).

O salmista ensina-nos para onde devemos olhar: “Como os olhos da serva se fixam nas mãos da sua senhora, assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus,

até que tenha piedade de nós”.

Salmo 123(122), de desabafo e confiança, que Jesus terá recitado frequentemente, pelo seu carácter messiânico, e que diz respeito a muitas situações concretas da vida de cada um de nós., das quais não descobrimos o sentido sem olhamos para o Crucificado.

No início da segunda carta a Timóteo, lemos, entre outras belíssimas afirmações: “É por esse motivo que eu suporto os sofrimentos, mas não me envergonho; porque sei em quem pus a minha confiança e estou certo de que Deus tem poder para guardar a missão que me foi confiada até ao último dia”.

Três séculos depois de São Paulo, Agostinho de Hipona, escrevendo a um amigo que terá desabafado, não só pela dor que lhe causava o abandono da fé por alguns seus contemporâneos, mas sobretudo pela perseguição que sofria da parte dos que o censuravam pela sua fidelidade, comenta precisamente este passo da Carta a Timóteo, e, num latim cuja beleza não conseguimos traduzir, fala da felicidade de quem sofre porque ama: ama quem foge de Deus e ama quem persegue os querem ser fiéis:

“É uma tristeza piedosa e, se assim se pode dizer, uma feliz dor afligir-se com os vícios dos outros, sem se corromper; doer-se sem aderir; sentir-se oprimido pela dor, sem deixar-se seduzir pelo amor” (Ep 248.1).

E o santo bispo continua na comparação da felicidade de quem é perseguido por querer ser fiel, com a infelicidade de quem persegue pelo incómodo que lhe causa a fidelidade dos outros.

Esta é, para o santo e sábio bispo do norte da África, uma dor feliz.

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