Corpo de Deus regressa com multidão em procissão nas ruas da cidade

Este ano, finalmente, voltámos ao bulício que caracterizou sempre este dia.
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Já vai distante o ano ano de 2019 em que, ainda longe de imaginarmos que teríamos à porta os confinamentos provocados pela pandemia, as celebrações da Solenidade do Corpo de Deus se fizeram, pela última vez, no jadim de Santo Agostinho, em Leiria. Cinco anos, portanto, em que quase já não nos lembrávamos da romaria que se fazia ao local, e da extensa procissão que calcorreava a cidade do Lis.

Dois anos de confinamentos adiaram o regresso à tradição. Depois, dois anos marcados pelas intempéries, obrigaram os fiéis a confinarem-se na Sé. Mas este ano, finalmente, voltámos ao bulício que caracterizou sempre este dia.

O dia de quinta-feira, 30 de maio, começou cedo para as crianças do terceiro volume da catequese. A tradicional actividade também regressou nos moldes anteriores. Em grupos — os grupos originários das paróquias —, munidos de um “passaporte” onde se liam as orientações para a “Festa da Eucaristia”, os cerca de 200 participantes percorreram diversos postos em pontos espalhados pela cidade. A cor e animação bem visíveis, eram apenas o prelúdio para a tarde, que tinha o seu ponto alto na celebração eucarística com início marcado para as 16h00, junto às margens do Lis, ao lado da igreja de Santo Agostinho.

A diferença que mais saltou à vista, foi a disposição do altar-palco. Desta vez, a organização optou por colocá-lo do lado oposto, junto ao Centro de Interpretação Ambiental. Assim, justificou, a assembleia dispunha de mais sombra e haveria mais espaço junto ao próprio altar. Em boa hora o fizeram, que o sol não foi meigo, e o calor intenso ainda deu para fazer das suas, com uma ou outra pessoa a quase perder os sentidos.

A Igreja em caminho

Neste contexto, seria a primeira vez que D. José Ornelas presidia à celebração naquele local, o que também era novidade.

Na sua homilia, o bispo da diocese de Leiria-Fátima, a partir das leituras da celebração, escolheu como pano de fundo o tema da Igreja em caminhada, com referências ao Antigo Testamento e à jornada do Povo de Israel, ao cortejo processional que se seguiria em direção à Sé e ao tema que está presente na actualidade eclesial, como é o Sínodo e a organização das unidades pastorais.

Para o prelado, esta “é uma Igreja que nunca está simplesmente sentadinha e cómoda, mas que se encontra ativa, atenta e, sobretudo, atenta àqueles que mais precisam”. Neste sentido, e referindo-se à solenidade do dia, é “uma Igreja que multiplica este Pão que aqui nós vamos partilhar, multiplica o pão que se põe na mesa para aqueles que não têm nada para comer, mas também o pão da Eucaristia, o pão que dá vida, que nos alimenta e nos torna parecidos com Cristo”.  

O tema da centralidade da Eucaristia na vida do cristão e das comunidades também foi uma tónica constante, pois “celebrar a Eucaristia significa que nós queremos ser o povo de Deus, que tem uma missão que é acolher a aliança de Deus, comprometendo-nos com essa aliança que transforma”.  

Para D. José Ornelas, estar em caminho é identidade essencial do cristianismo. Por isso, faz várias referências à Igreja sinodal, “uma Igreja que vive e que caminha junta, não porque somos da mesma família, não porque somos do mesmo partido, não porque temos as mesmas ideias, mas, sobretudo, porque temos o único Senhor”. E desenvolve a ideia, explicando que “Jesus vai connosco e quer percorrer a cidade nos pés de cada um de nós, na expressão que fazemos uns para os outros; Ele quer caminhar no meio de nós, Ele quer ir connosco pelo caminho das nossas vidas”.

Depois da Eucaristia, realizou-se a tradicional procissão do Santíssimo Sacramento em direção ao adro da Sé, com a presença de milhares de fiéis acompanhados por quatro filarmónicas da região. Foi aí que se finalizaram as celebrações com uma breve adoração ao Santíssimo.

Homilia integral (transcrição)

E Deus diz: “Eu ouvi os gritos do meu povo e vou vir libertá-lo para levá-lo a uma terra onde possam viver felizes e unidos uns com os outros, porque agora andam dispersos e são outros que são os mestres deles”. E é isso que encontramos na primeira leitura, que nos diz que Moisés leu o texto dessa oferta de aliança que Deus faz, e o povo respondeu: “Nós faremos tudo aquilo que o Senhor diz”. E Deus diz: “Eu também vou ficar sempre unido a vocês e vou ser aquele que vos conduz a caminho dessa terra prometida, mas também nessa terra, para que vocês sejam um país justo, uma nação que vive bem uns com os outros, unida e que proclame que Deus é o vosso Senhor”. 

HOMILIA
https://youtu.be/qdQ4Jo6CbKU

Essa é também a mensagem que hoje chega para nós de modo simbólico: a Igreja que somos também se põe a caminho, como este povo, e diz: “nós vamos seguir o caminho que Ele nos indica”. É uma Igreja que se levanta, como Maria, para levar Jesus à sua prima Isabel e a todo o mundo. É uma Igreja que nunca está simplesmente sentada e cómoda, mas que está ativa, atenta e, sobretudo, atenta àqueles que mais precisam. Porque é isso que acontece quando Deus vem: Ele vai à procura daqueles que estão tristes, que estão sós, que estão discriminados, que estão longe da felicidade e da vida. Ele vem. 

É uma Igreja que multiplica este pão que aqui nós vamos partilhar, multiplica o pão que se põe na mesa para aqueles que não têm nada para comer, mas também o pão da Eucaristia, o pão que dá vida, que nos alimenta e nos torna parecidos com Cristo, para que os que têm fome de paz, de liberdade, de solidariedade, de sentido da vida e de esperança possam viver melhor e encontrar em Jesus um caminho de vida. 

É isso, antes de mais, que nós celebramos: a palavra que nós ouvimos representa o compromisso de Deus para com o povo e do povo para com Deus. Deus assegura que acompanhará e tornará possível o caminho para a liberdade, para a dignidade, para a saúde, para a vida numa aliança constante e fiel. Deus vai estar sempre a nosso lado e caminhar connosco. É isso que Jesus diz: “este é o sangue da Nova Aliança que o Senhor formou, que o Senhor vos dá hoje para a vossa vida”. Também o povo, como nós, assume este compromisso. Hoje, celebrar a Eucaristia significa que queremos ser o povo de Deus, um povo que tem uma missão neste mundo. Nós acolhemos a aliança de Deus e comprometemo-nos com essa aliança que transforma a nossa vida e nos coloca ao serviço da transformação do mundo.

No momento mais importante desta celebração, vamos ouvir o sacerdote dizer: “este é o cálice do meu sangue”, as palavras de Jesus: “este é o sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados”. Isto é libertar dos pecados, significa libertar-nos do ódio, libertar-nos da vingança, libertar-nos da violência e da guerra. Ele vem tirar os pecados do mundo. Se nos considerarmos como povo de Deus e nos deixarmos guiar por Ele, Jesus renova constantemente a sua presença e oferece-se a si mesmo como aquele que alimenta a nossa fome de felicidade e de vida. 

Ele vem também fazer aquilo que fizeram os nossos pequenos hoje, preparar connosco esta festa. Ele vem exatamente ser o nosso guia, a nossa confiança, a presença de Deus entre nós. Os nossos pequenos, como dizia, vieram, estiveram a pensar naquilo que lemos no evangelho hoje. Ouvimos no evangelho que Jesus manda alguns dos seus discípulos e diz: “Vão à cidade, vão à procura de uma sala e preparem”. Aqueles que conhecem este jardim, sabem que isto não estava assim preparado; é porque alguém o preparou. E isto não é só preparar um lugar, é preparar o coração, é preparar espaço para que toda a gente tenha a possibilidade de fazer esta festa.

É por isso que dizemos que pertencemos a uma Igreja missionária. Viemos para aqui, no meio da cidade, celebrar hoje a Eucaristia publicamente para todos, para dizer que esta festa que Deus quer fazer não é só para um pequeno número, mas é para chegar a todas as cidades, a todas as nossas aldeias, a cada uma das nossas comunidades paroquiais, a cada família, a cada uma das nossas famílias. E, sobretudo, é uma festa que nos congrega. Chegamos aqui, conhecemos algumas pessoas mais próximas de nós, mas não nos conhecemos todos. Mas aqui, quem está ao nosso lado hoje é alguém que é meu irmão, minha irmã, porque é filho do mesmo Deus pelo batismo que recebemos. É isso que chamamos uma Igreja sinodal, uma Igreja que vive e que caminha junta. Não é porque somos da mesma família, não é porque somos do mesmo partido, não é porque temos as mesmas ideias, sobretudo não. Mas temos um único Senhor, temos um único Pai, o do céu, e é por isso que formamos juntos esta Igreja que caminha sempre.

Como vamos fazer a seguir? Vamos até à nossa Sé, que é a igreja primeira, a igreja mãe de todas as igrejas que temos nas nossas paróquias e nas nossas comunidades. Vamos peregrinar para essa Igreja, percorrendo a cidade, porque Jesus vai connosco e quer percorrer a cidade pelos nossos pés. Eu vou levar a custódia com o pão consagrado, que é Jesus no meio de nós, mas nos pés de cada um de nós, na cara que fazemos uns para os outros. Ele quer sempre caminhar no meio de nós. Ele quer ir connosco pelo caminho das nossas vidas. Ele é o Senhor e Mestre que se torna presente, que reúne todos os seus discípulos e discípulas e anima cada um e cada uma, que dá coragem, que partilha o pão, que dá força e transforma a inteligência e o coração.

Isto acontece sempre que celebramos a Eucaristia, sempre que nos reunimos num grupo de catequese pela voz do catequista. É Jesus que nos fala, pela voz do padre que diz: “Isto é o meu corpo”. Jesus torna-se presente no meio de nós. Ele está constantemente presente no meio de nós. Hoje, Ele alimenta como filhos e filhas de Deus, reúne como irmãos e irmãs para formarmos uma comunidade, uma comunidade que vem de todos os cantos do mundo. Como dizia no início, em todos os milhares e milhares de comunidades pelo mundo inteiro, estão celebrando como nós hoje esta Eucaristia. É isto que faz a Eucaristia: é o resumo de tudo aquilo que acreditamos, que partilhamos, que anunciamos. É essa ceia de irmãos e irmãs que Jesus manda os discípulos prepararem constantemente: preparem o pão de Deus para todos, para aqueles que têm fome de pão nas nossas aldeias, nas nossas escolas, nas nossas fábricas. Vão pelas cidades e aldeias e levem e convidem todos para a festa do Senhor, que ninguém seja deixado fora, que não haja distinção de nacionalidades ou de culturas na minha casa, diz o Senhor, porque na minha casa todos são irmãos e irmãs.

É para essa casa, a Igreja, que vamos peregrinar daqui a pouco, porque esta é a casa do Pai do céu, filhos e filhas de todas as cores da humanidade, que falam todas as línguas da terra e criam um mundo de paz, de fraternidade e de esperança, em que todos cuidam de todos, para que ninguém fique excluído, para que ninguém fique abandonado sem alegria, mas que tenha futuro e que tenha esperança. Façam, diz Jesus, façam festa na minha casa e convidem todos, todos, todos. Como dizia o Papa Francisco, este é o desafio que Jesus hoje também nos lança, é o convite que nos dirige: preparem o meu banquete a partir da minha casa, a partir da minha Igreja. A Igreja sinodal é isto: é uma Igreja que caminha unida, conduzida por Jesus, para anunciar o nascimento de um mundo novo.

É por isso que, depois desta celebração, vamos em procissão, passando pelas nossas cidades, para que a todos chegue a Boa Nova, a alegria e a vida do nosso Deus. Este é o caminho sinodal que estamos a celebrar com toda a Igreja, no qual estamos empenhados e estamos realizando também a transformação da nossa Igreja diocesana. Não só para cada um viver na sua paróquia e na sua comunidade pequena, mas para todos nos ligarmos uns aos outros para ver como é que construímos melhor esta casa de Deus, como é que respondemos ao desafio que Jesus nos dá. Não vamos sozinhos, isto não é uma ideia que passou simplesmente pela cabeça do bispo e dos padres, é uma ideia que o Espírito vem suscitando na Igreja inteira, porque hoje os tempos mudaram e nós precisamos de viver mais unidos para entendermos esta Igreja, vivermos nela com alegria e que nos dê alegria ao coração e que nos leve também a partilhar esta alegria com os outros.

Nós não somos perfeitos, mas, em resumo, tudo aquilo que somos, fazemos, esperamos e acreditamos, podemos partilhar. Podemos ser todos juntos uma Igreja melhor para um mundo melhor. Jesus, apesar de não sermos perfeitos, acolhe-nos como acolheu os discípulos, para que juntos, reconciliando-nos sempre uns com os outros, possamos superar as nossas dificuldades, possamos também superar as nossas diferenças, porque Ele está connosco e caminha connosco na Eucaristia que se faz vida para cada um e cada uma de nós, para cada uma das nossas comunidades.

Vamos, pois, celebrar esta Eucaristia em que o Senhor vem para o meio de nós e caminhar com Ele através da nossa vida, da vida do nosso povo. Amém.

ÁLBUM FOTOGRÁFICO

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