Como se destrói uma nação

Vemos assim que a cultura de um povo tem muito mais a ver com os valores de vida que as diferentes gerações se transmitem do que com o que se aprende nos livros: é por isso que há muitos cientistas que não têm cultura, e muitos analfabetos de extraordinária cultura.

I

Para encurtar razões, explico desde já que tomo aqui a palavra “nação” no sentido latino original de “povo, ou comunidade de povos, unidos pela mesma língua e a mesma cultura”.
À palavra “cultura”, dou o sentido mais vasto que também lhe davam os Romanos: Cícero, por exemplo, definia cultura como “Illud quod ad humanitatem pertinet” (aquilo que nos diz respeito como seres humanos).
Vemos assim que a cultura de um povo tem muito mais a ver com os valores de vida que as diferentes gerações se transmitem do que com o que se aprende nos livros: é por isso que há muitos cientistas que não têm cultura, e muitos analfabetos de extraordinária cultura.
Isto é tão verdade que, como nos ensina a História, ao longo dos séculos, quando se quis destruir um povo, nunca foram suficientes as armas: de tal maneira que houve povos conquistados pelas armas que acabaram por impor a sua cultura aos conquistadores.
Isso hoje torna-se um pouco mais difícil, primeiro porque os povos são menos cultos, depois porque a globalização torna mais fácil o abastardamento das culturas.
E também há a negligência dos poderes públicos, que abandonaram por completo, pelo menos entre nós, por exemplo as exigências relativas à preparação dos técnicos e funcionários dos meios de comunicação social, que são a arma mais poderosa das ideologias para destruírem uma cultura que lhes seja adversa.
Ainda sou do tempo em que um locutor da rádio ou da televisão só era admitido depois de vários testes de dicção e utilização da língua, com o maior respeito pelas regras gramaticais e de escolha dos termos adequados. Podiam realmente, apresentar-se como modelos, nesse campo.
Tanto quanto sei, isso acabou por completo.
Nem quanto à dicção, nem quanto a outros pormenores relativos ao uso da língua falada, sobretudo na forma oral, os nossos técnicos da informação podem ser tomados como exemplo.
Acontece pior ainda, se procuramos algum político, dirigente partidário, deputado ou ministro, que possamos tomar como modelo de comunicação através da fala.
São uma excepção confrangedoramente rara, e o número de bons exemplos é indirectamente proporcional ao tempo que gastam a querer comunicar com o cidadão comum.
Sinto bem que, com esta reflexão, estou a fugir aos temas habituais dos textos que publico no Facebook. Peço desculpa aos meus leitores, mas nos últimos dias têm-me batido à porta algumas questões que, apesar de todas as aparências, não são menos importantes que os temas relacionados com a fé e a teologia.
Já se disse e com muita razão, que o colonialismo cultural é o mais desumano de todos os colonialismos.
Tanto que os missionários continuam a ser admoestados no sentido de evitarem confundir evangelização com aculturação; o que nem sempre aconteceu através dos séculos, com graves consequências, para um lado e para o outro, consequências com as quais ainda hoje sofrem muitos povos.
Daí as recomendações da Exortação Apostólica pós-sinodal “Querida Amazónia”, do Papa Francisco, onde se diz que uma cultura ameaçada corresponde sempre a um povo em risco.
Claro, como é evidente, distingue-se aculturação de inculturação; esta será o resultado inevitável de uma evangelização que, para penetrar no coração dos povos, assume com o máximo respeito tudo o que, no seu modo de ser e estar no mundo, não se opõe às correctas visões da fé. E assim, a própria fé tem necessariamente de gerar cultura.
Também se segue daqui que a distracção – afinal muito mais europeia do que parece – relativamente ao que se está a fazer contra a nossa identidade cultural, é já um inquietante sintoma de decadência, de morte lenta, acentuada, do que nos dizem sermos, mas que já não somos, de facto.
Bom.
Comecei estas reflexões a pensar em alguns casos concretos, elementos corrosivos da nossa identidade, pela sujeição ao colonialismo cultural.
Ficou muito longa esta exposição.
Não tenho tempo nem espaço para mais.
Se me continuar a via aberta, voltarei ao tema, que me parece vital, então com alguns casos concretos.

II

Um dia de sol aparentemente decidido a alumiar os nosso caminhos e a aquecer os corações atemorizados, mas com muita dificuldade em tranquilizar quem mergulha excessivamente neste medo colectivo, que me parece ainda mais desumano do que a tragédia com que nos ameaçam.
Resisto à tentação de me encostar à janela, contemplando o fim do dia, que se aproxima, e ignorar o resto, incluindo este meio de quebrar um pouco a quarentena, que, real ou psicológica, já chegou a todos nós.
Ouço os apelos dos que me pediram exemplos concretos sobre a progressiva destruição da nossa identidade, produzida pelo colonialismo cultural que nos esmaga, quase sem um protesto de quem devia vigiar a sobrevivência deste povo, que conta mais de mil anos de história.
Tenho de fazer alguma coisa.
Alguma coisa; muito pouco:
Não falo de sotaques nem de pronúncia, nem tão pouco de ortografia: ainda que quanto a esta, se passem coisas verdadeiramente graves, com palavras a perderem o seu significado real, enchendo as nossas frases escritas de equívocos insanáveis.
Omito os solecismos (erros de gramática), que campeiam por aí, com direito de cidadania concedido pelos próprios membros do governo: a transformação dos verbos transitivos em intransitivos, pela preguiça do uso do pronome pessoal indefinido (tipo: “hoje inaugurou a nova ponte de X); o emprego do verbo “haver”, que, quando significa existir é impessoal, como pessoal (tipo: haviam lá muitas pessoas à espera; ou há 20 anos atrás). E não quero falar de traduções, como as daquele livro litúrgico que, despudoradamente diz, por exemplo, que São Boaventura morreu durante o Concílio do Lião II, ou que hoje, 12 de Março, se celebra o sepultamento dos Papas Inocêncio I (417), e São Gregório Magno (604).
Também não quero comentar, por hoje, o que aconteceu com o esforço feito pela Igreja, em si mesmo meritório, para que os dias de descanso coincidentes com determinadas solenidades litúrgicas, deixassem os cristãos livres para celebrarem dignamente ao menos algumas dessas solenidades.
Por exemplo, quando eu era jovem, toda a gente, na minha aldeia, sabia distinguir, em termos religiosos e de descanso (“dos trabalhos servis”, como dizia o catecismo): o domingo, um dia santo de guarda e um dia santo dispensado:
Fora do âmbito religioso, havia os feriados, que podiam ou não coincidir com o domingo ou um dia santo de guarda.
Hoje, relacionado com essas solenidades, só se ouve falar de feriados religiosos.
Isso que será, afinal? Não será um sintoma de total secularização?
Mas aquilo que mais me dói, neste momento, é o fim dos conceitos relacionados com a semana de sete dias, património cultural e religioso de muitos milhões de crentes.
Alguns dirão que também isso era inevitável, e desses milhões poucos pensam ou se sentem injustiçados.
Será. O que significa um estádio de destruição ainda maior, quase irreparável.
Trataremos do assunto mais demoradamente, noutra ocasião.
Já citei, no texto anterior, a afirmação do Papa Francisco, na Exortação Apostólica “Querida Amazónia”, segundo a qual, quando se ameaça uma cultura, põe-se um povo em risco.
Hoje permito-me transcrever dois números dessa Exortação, que, embora referindo-se directamente à Amazónia, se podem aplicar a qualquer região ou povo do mundo.
“A economia globalizada danifica despudoradamente a riqueza humana, social e cultural. A desintegração das famílias, que resulta das migrações forçadas, afecta a transmissão dos valores, porque «a família é, e sempre foi, a instituição social que mais contribuiu para manter vivas as nossas culturas» Além disso, «diante duma invasão colonizadora maciça dos meios de comunicação», é necessário promover para os povos nativos «comunicações alternativas, a partir das suas próprias línguas e culturas», e que «os próprios indígenas se façam protagonistas presentes nos meios de comunicação já existentes».
“Em qualquer projecto para a Amazónia, «é preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social (…) requer constantemente o protagonismo dos actores sociais locais a partir da sua própria cultura. Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano». E se as culturas ancestrais dos povos nativos nasceram e se desenvolveram em estreito contacto com o ambiente natural circundante, dificilmente podem ficar ilesas quando se deteriora este ambiente” (Papa Francisco, Exortação Apostólica “Querida Amazónia”, 39-40).

III

O Vaticano II, acrescenta à Constituição “Sacrossanctum Concilium”, sobre a sagrada liturgia, como um apêndice, a Nota seguinte:

“O sagrado Concílio Ecuménico Vaticano II, tendo na devida conta o desejo expresso por muitos para dar à festa da Páscoa um domingo certo e adoptar um calendário fixo, depois de ter ponderado maduramente as consequências que poderão resultar da introdução do novo calendário, declara o seguinte:

1. O sagrado Concílio não tem nada a opor à fixação da festa da Páscoa num domingo certo do calendário gregoriano, se obtiver o assentimento daqueles a quem interessa, especialmente dos irmãos separados da comunhão com a Sé Apostólica.
2. Igualmente declara não se opor às iniciativas para introduzir um calendário perpétuo na sociedade civil.
Contudo, entre os vários sistemas em estudo para fixar um calendário perpétuo e introduzi-lo na sociedade civil, a Igreja só não se opõe àqueles que conservem a semana de sete dias e com o respectivo domingo. A Igreja deseja também manter intacta a sucessão hebdomadária, sem inserção de dias fora da semana, a não ser que surjam razões gravíssimas sobre as quais deverá pronunciar-se a Sé Apostólica.
Roma, 4 de Dezembro de 1963.

Tem quase 57 anos, esta declaração do Concilio, que assim encerra uma das constituições dogmáticas que mais impacto tiveram na vida das nossas comunidades.
Não é aqui o lugar adequado, nem este é o momento oportuno, para discutir as boas e más leituras que de tal documento se fizeram.
Podemos, porém, lamentar, pelo menos duas coisas: primeiro que não se tenhas feito nada em relação à tal fixação da data da Páscoa, para a qual surgem ciclicamente ocasiões oportunas, sobretudo no que diz respeito a possíveis dificuldades com “os irmãos separados da comunhão com a sé Apostólica”, como se lhes referem os Padres conciliares.
Em segundo lugar, lamentar que se não tenha feito uma catequese sistemática sobre a importância da “sucessão hebdomadária”, com o domingo como centro, à qual o Concílio afirma solenemente não renunciar.
Porque entretanto, os promotores da secularização da sociedade, sobretudo na Europa, utilizando armas, como as exigências da economia global e do consumismo galopante, com a conivência do chamado “politicamente correcto”, acabaram por reduzir a pouco, ou quase nada, as estruturas cristãs que se apoiavam na referida “sucessão hebdomadária”.
E tudo vai acontecendo, com a ajuda dos meios de comunicação social – ou os “media”, como também se diz agora – sem que as pessoas se dêem conta de como se está a minar a sua identidade de povo culturalmente adulto.
Foi assim que os países de língua inglesa, viram o seu “week end” a campear por toda a parte, ou a ser traduzido, quando é, por “fim de semana”, não como indicativo do último dia da semana, mas substituindo a designação dos dois dias da nossa cultura com mais referências bíblicas: sábado e domingo.
É dentro desta lógica que desaparece a designação de Dia Santo (ou Dia de Preceito), para ser substituída pela simples referência de “feriado religioso”.
Já aqui se explicou a origem especificamente cristã, litúrgica, dos dias da semana, de segunda a sexta, em português.
Peço perdão de insistir, como português e cristão:
O primeiro dia da semana é o domingo – dominica dies, em latim.
Depois vêm os outros: segunda-feira (feria secunda), terça feira (feria tertia), etc, até ao sétimo dia, que guardou o nome bíblico de sábado (sabat, dos hebreus).
Ter presente que a designação litúrgica latina tradicional dos dias da semana, ainda presente em muitas edições do respectivo calendário, os divide em “Dominica”(1) , “Feriae”(5) e “sabatum”(1).
E com o sábado coincide o fim da semana, que só tem sete dias, não seis nem oito.

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