COMO CIDADÃO E COMO CRENTE

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«A Lei tenho d’ Aquele a cujo império
Obedece o visíbil e invisíbil,
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente e todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra enfim desceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.

«Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia»
(Os Lusíadas. I, 65-66).

É isso mesmo! Declina já o dia, mas ainda se ouvem ao longe, nas árvores mais distantes, os passarinhos – passarinhos, porque o seu canto tem a timidez dos que, de madrugada, aparecem em busca não sei de que alimentos, entre a relva do parque -, cantam, entoando hinos ao sol que se esconde

Atravessa-me o coração uma certa amargura – quem Sabe se não um enorme remorso – por não ter vencido aquela desmobilização interior, provocada pela extensão, talvez exagerada, do projecto de reunir numa meditação única o que, quanto à fé apostólica – que tem de ser também a nossa -, descubro nos textos dos últimos dias, os que se lêem e aqueles cuja leitura nos é sugerida pelos livros litúrgicos.

Com tais pensamentos, levando debaixo do braço o grande épico português, parto na companhia do fariseu que, consciente das reais exigências do seu amor pela Lei., não se instala em ideias feitas, preconcebidas, demasiado cómodas, indício claro de que não podem conter toda a verdade.

A Lei, que para o Gama, citado por Camões é sinónimo de religião e de fé, não o será menos para Nicodemos, descrito com tão nobres características por João, que tem o cuidado de não identificar os adversários de Jesus com nenhum grupo religioso ou cultural específico.

A diferença, que não é pequena nem despicienda, é que enquanto Nicodemos recebe da religião e da fé um acicate para aprender, tornar-se discípulo, o Gama utiliza uma e outra como emblemas que o distinguem perante os seus interlocutores.

Guardo a última frase posta por Camões na boca do Gama, não como distinção de um povo, mas como decisão de crescimento pessoal:

“Bem posso escusar trazer escrito em papel o que na alma andar devia!”

Reparo nas grandes qualidades de Nicodemos: busca sincera da verdade, sem acotovelar seja quem for, discretamente (não acredito que seja medo), para que ninguém se sinta pressionado pela sua busca.

Introduzo-me no grupo discretamente e, um pouco mais atrás, escuto em silêncio, não pra resolver dúvidas, como o fariseu bem-intencionado, mas para, como crente agradecido, ver se consigo alcançar que penetre mais em mim o que. segundo diz o Gama, ou Camões por ele, deve andar na alma.

Evito distrair-me com os símbolos, tão familiares a Nicodemos, para fixar melhor o que, na sua misericordiosa pedagogia, Jesus faz deles na revelação do Reino.

Fico a meditar especialmente nos versículos seguintes.

“Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna.

Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna.

De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 14-17).

O mundo e quem acreditar n’Ele.

Santo Agostinho escreveu, num dos seus belíssimos comentários aos salmos, estas palavras que nos podem servir de incentivo para percebemos de que modo a salvação é para todos:

“Um só devemos procurar: Aquele que nos resgata e nos torna livres; que entregou o seu sangue para nos adquirir e que dos escravos fez seus irmãos” (Sobre o Sl 35(34), d.1,15).

Para todos, claro!

Mas chega apenas aos que procuram Jesus, à imitação de Nicodemos, ou José de Arimateia, que conhecemos, não pelo que reivindicaram, mas que pelo que fizeram para estar com Ele, precisamente quando O abandonaram todos; todos, ou quase todos, incluindo os que O seguiam talvez nem sempre isentos de ambições terrenas, demasiado ligadas a interpretações humanas da Lei divina.

Segundo Agostinho, o Filho de Deus, com o Seu Sangue, faz dos escravos irmãos livres; mas é evidente que o não pode fazer de quem não se tem como escravo.

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