Avançar todos juntos no caminho da fé

 

Homilia da Missa de Encerramento do Ano da Fé e Ordenação Diaconal

Avançar todos juntos no caminho da fé

 † António Marto

Catedral de Leiria

24 de Novembro de 2013

 

“Vamos com alegria para a casa do Senhor” – o refrão do salmo exprime bem a atitude com que hoje  convergimos na nossa catedral para celebrar a solenidade de Cristo rei do universo, coroamento do ano litúrgico. Este ano, a solenidade é enriquecida pela conclusão do Ano da fé e pela graça de uma ordenação diaconal.

São motivos de particular alegria e júbilo para a nossa Igreja diocesana. A todos vós dirijo a minha saudação cordial, de modo particular, ao caro Fábio, candidato ao diaconado, aos seus pais e familiares, aos superiores dos seminários que frequentou, aos párocos e paróquias de origem e de estágio pastoral.

O termo do ano litúrgico convida toda a Igreja a colocar-se em atitude de adoração diante do seu único Senhor, a fazer um exame geral de consciência diante dele e, por conseguinte, a refletir sobre o ano da fé (como o vivemos) e sobre a ordenação diaconal à luz da singular realeza de Cristo tal como nos é apresentada nas leituras da Palavra. Neste sentido desejaria meditar convosco três aspetos.

 

Chamados a manter vivos a alegria de crer e o entusiasmo de testemunhar

“Se queremos saber quem é Deus, devemos ajoelhar-nos aos pés da cruz”, escreveu um célebre teólogo (J. Moltmann). O Evangelho de hoje põe à nossa contemplação a cena da cruz para entrarmos no mistério da revelação de Deus e no coração da fé. Como nos faz bem contemplar esta cena!

S. Lucas propõe-nos um exemplo admirável de fé no Crucificado: o chamado bom ladrão ou ladrão convertido. Não sabia nada de teologia, mas entreviu e intuiu algo de novo e insuspeitável naquele crucificado que tocou profundamente o seu coração. Certamente ouviu a primeira palavra de Cristo do alto da cruz, palavra de misericórdia e de perdão: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Foi o suficiente para sentir confiança e dirigir uma invocação que é, simultaneamente, um ato, uma confissão e um testemunho de fé viva no amor salvador de Cristo: “ Jesus, recorda-te de mim quando vieres na tua realeza”. Comenta Santo Agostinho: “no seu coração acreditou e com a língua fez a profissão de fé”, que por sua vez é confirmada e enriquecida pela resposta de Jesus: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

Neste momento, o bom ladrão é o nosso catequista, o nosso mistagogo. Através do seu testemunho “reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida”(LF 7). Com ele aprendemos que “acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência”(LF 13). Sim, na hora da cruz “resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude… Neste amor, que não se subtraiu à morte para me dizer quanto me ama, é possível crer; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite confiar-nos plenamente a Cristo”(LF 16).

Eis a beleza da fé cristã vivida como experiência de um Amor recebido e comunicada como experiência de graça, misericórdia, beleza e alegria que transforma os corações, a vida e o mundo.

Caros amigos, termina hoje um ano pastoral completamente dedicado a reavivar a fé: a reencontrar a novidade, a beleza e o “gosto” da fé, do batismo e da vida nova que nos é dada em Cristo; a redescobrir a alegria de crer e a despertar o entusiasmo de testemunhar e comunicar a fé. Não é este o momento de fazer um balanço. Mas não podemos deixar de recordar várias iniciativas: a descoberta e o aprofundamento do Concílio Vaticano II como bússola para viver a fé hoje, catequeses sobre a fé na base do Catecismo da Igreja Católica, celebrações várias para as várias idades, testemunhos de caridade, atividades culturais de diverso género, iniciativas que culminaram e tiveram expressão na Festa da fé que ficará inesquecível. Oxalá se possam prolongar no tempo os efeitos positivos do Ano da Fé, visto que a fé é um caminho que continua toda a vida.

O Ano da Fé termina, mas continua o desejo de manter viva toda a riqueza que recebemos ao longo dos seus dias e meses. Neste sentido, o Papa Francisco encerrou hoje o ano da fé entregando à Igreja a Exortação Apostólica sobre a evangelização com o significativo título “A alegria do Evangelho”, como quem nos diz: “crer significa também tornar os outros participantes da alegria do encontro com Cristo”. Sim, a fé não é um bem privado; “é um bem para todos, um bem comum”, “um serviço ao bem comum”(LF 51), à própria humanização do mundo.

Pergunto a vós e a mim: vivo a fé como uma experiência gozosa do encontro com Cristo e do amor misericordioso de Deus? Confio-lhe a minha vida? Vivo a fé como uma graça, com alegria, com empenho? Ou antes como um fardo, uma fé rotineira e bafienta, sem sentido? Faço alguma coisa para manter aceso o entusiasmo da fé na minha comunidade? Irradio o testemunho duma fé que dá luz e calor no mundo em que vivo? Conseguimos ver nas periferias existenciais a necessidade de fé, de amor e de misericórdia?

 

A família como berço da fé e do amor

A fé no Senhor ressuscitado ilumina toda a realidade criada, a vida social e a história, como diz o hino à realeza universal de Cristo na carta aos colossenses. O primeiro âmbito a ser iluminado é a família como berço da fé e do amor.

“Quem crê, vê”: com uma luz nova que descobre toda a beleza, grandeza, riqueza, dignidade e valor do matrimónio e da família que os cristãos são chamados a viver e testemunhar ao mundo. É este o tema do biénio pastoral agora começado ao qual queremos dedicar todo o entusiasmo.

A luz da fé levou o Papa João Paulo II a apresentar a família como “património da humanidade”, o património mais belo e valioso, acrescento eu; e o Papa Francisco reforça: “A família é feita de rostos, de pessoas que se amam, dialogam, se sacrificam pelos outros e defendem a vida, sobretudo a mais frágil. Poder-se-ia dizer, sem exagerar, que a família é o motor do mundo e da história”. E continua com uma exortação: “Proponhamos pois a todos, com respeito e coragem, a beleza do matrimónio e da família iluminados pelo Evangelho! E por isso façamo-nos próximos, com atenção e afeto, das famílias em dificuldades, das que estão desfeitas, que não têm casa ou trabalho, das que sofrem por vários motivos… De todos queremos estar próximos com o anúncio deste Evangelho da família, desta beleza da família”. O segredo de tudo isto é a presença de Jesus na família. Queridas famílias, vivei e guardai a alegria e a beleza da fé que tornará fecundo e belo o vosso amor familiar! Pergunto-vos: como vai a vossa fé em família? Jesus está verdadeiramente presente e reina no meio da vossa família? Cultivais os laços do amor familiar segundo o evangelho?

 

O diácono, servidor do dom da fé aos irmãos

Por fim, a luz da fé ilumina também a ordenação diaconal. Consideramo-la antes de mais como uma carícia do amor de Deus, neste ano da fé,  pela nossa Igreja diocesana que está a atravessar um momento árido de vocações ao sacerdócio. As vocações são dom de Deus mas precisam de um terreno propício para desabrocharem e florescerem: as famílias e comunidades de  fé viva, alegre, orante e contagiante. A vocação do Fábio germinou no ambiente da fé simples dos seus pais e avós, foi amadurecendo no ambiente dos seminários e das comunidades que frequentou; mas, finalmente, é precisa a coragem e a força da fé para tomar esta opção de entrega total ao Senhor para o serviço do seu povo.

Caro Fábio, a ordenação de diácono imprime em ti o selo, a marca indelével do serviço à comunidade cristã em comunhão com o bispo e o presbitério em determinados âmbitos que a liturgia da ordenação põe em destaque. A coincidência da ordenação com o encerramento do Ano da Fé recorda-te, de modo particular, que o primeiro serviço a prestar é ao dom da fé que atua pela caridade: ser servidor do dom da fé aos irmãos através da Palavra, do testemunho de fé viva, do serviço humilde da caridade que levem ao encontro com o Senhor. Em síntese, “crê o que lês; ensina o que crês e vive o que ensinas”. Este serviço é belo, é um bem para todos! Interroguemo-nos: sentimos o problema da falta de vocações como nosso? Rezamos pelo dom das vocações nas nossas comunidades? Apoiamos e estimulamos os que manifestam os gérmenes da vocação?

Com o apóstolo Paulo, na segunda leitura, também nós damos graças a Deus Pai: pelo dom da fé, do batismo e da vida nova em Cristo e pelo tempo de renovação no Ano da Fé; pelo dom da família como berço da  vida, do amor e da fé; pela graça da ordenação diaconal e das vocações ao sacerdócio. Peçamos ao Senhor, cada um no seu coração, com confiança: “Jesus, recorda-te de mim pecador; recorda-te da nossa Igreja diocesana e da sua renovação pastoral fazendo nossos os desafios do Papa Francisco ”.

A Virgem Santa Maria, Mãe da nossa fé, nos acompanhe e ampare ao longo da peregrinação da nossa vida para, cheios de fé e alegria, construirmos com Jesus o seu Reino de amor, de alegria e de paz.

 

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