Augusto Ascenso Pascoal: padre, professor, educador, estudioso e intelectual salutar

Hoje, completa 84 anos. Um caminho longo, sem dúvida, mas profícuo. Ao serviço da Diocese, além do trabalho como prefeito e reitor do Seminário, teve papel ativo na criação do Polo da Universidade Católica de Leiria, onde viria a desempenhar funções de direção e de professor. Seria depois pároco dos Pousos e, mais tarde, entre outras tarefas, foi vigário paroquial de Leiria.

Há dias, decidi revisitar o meu passado e prestar singelo tributo ao homem que mais me marcou ao longo da minha vida de aprendiz. Conheci o padre Pascoal quando tinha 13 anos e frequentava o Seminário em Leiria. Aí, ele exercia funções de prefeito e de professor.

Era uma figura que se impunha pela sua aparência: homem de estatura apreciável, ar sisudo, de poucas falas e de óculos quase sempre escuros. Este seu aspeto e a postura faziam com que a rapaziada nutrisse por ele um apreciável respeito que gerava um certo distanciamento. A mim pessoalmente, quase me feria a insistência com que ele repetia a necessidade de “levar a vida a sério”. Eu queria era brincadeira! O “doutor Pascoal” lecionava a disciplina de português. No meu primeiro teste obtive um resultado pouco animador.  Porém, com algum esforço e com a ajuda dedicada e paciente do mestre, ao longo dos quatro anos seguintes melhorei significativamente. Aos poucos, o superior e professor exigente e inibidor foi-se tornando em amigo e conselheiro, quase um parceiro atento e compreensivo. Dele recebi princípios e valores orientadores, apoio prestimoso e colaboração na estruturação da minha personalidade. Devo-lhe muito do que sou. Homem de cultura ímpar e estudioso obstinado, conseguia ter o discernimento de alcançar e compreender as limitações dos rapazes por quem era responsável. De ideias claras e precisas, marcava os objetivos com rigor, mas sem se tornar inflexível ou severo perante o insucesso dos alunos. Exigente, em primeiro lugar consigo próprio. Eloquente no discurso fluente e acessível. A sapiência não o envaidecia. Suficientemente elástico para poder explicar de novo, para se tornar mais preciso e entendível. Aquela aparência de temível não passava disso mesmo. Transmitia repugnância pela preguiça, pela mentira, pela hipocrisia e pela cobardia, realçando sempre o propósito de promover a formação de jovens com vontade esclarecida, ação determinada e responsabilidade assumida. E insistia na sua aspiração de que, se alguns de nós não viéssemos a ser padres, fôssemos, ao menos, Homens. A tolerância vinha-lhe da sua vivência espiritual, como padre. Homem de oração profunda, provavelmente mística, era aí que baseava a sua serenidade interior. Uma faceta menos conhecida do doutor Pascoal era o seu espírito democrático. Em pleno Estado Novo ditatorial, não tinha qualquer rebuço em transmitir aos seus alunos os valores e as práticas da Europa democrática que ele conhecia por viagens que fizera e que o levaram a estadias em outros países (a sua licenciatura em teologia, por exemplo, teve lugar em Itália).  O que fica escrito, e o mais que possa dizer, nunca será excessivo para reverenciar a pessoa que me deu a mão enquanto jovem e me apontou os caminhos do futuro. A ele me unem outras circunstâncias da vida que não dependeram da vontade de nenhum de nós dois: participou nas exéquias fúnebres de meu pai, a minha filha mais velha nasceu no dia do seu aniversário e foi ele quem batizou o meu neto. Este homem que merece toda a minha admiração foi, sem dúvida, o expoente máximo do conhecimento e da erudição entre os padres da Diocese, nas últimas décadas. Três licenciaturas e um doutoramento não deixam dúvidas. Na opinião de muitos, nunca lhe foi reconhecido o devido mérito. Continuando a incarnar a mesma humildade de sempre, vive agora “o repouso do guerreiro”, confinando a sua modéstia à Casa Diocesana do Clero, em Fátima. O seu espírito dinâmico leva-o a continuar ativo, inclusive nas redes sociais, onde partilha os seus escritos mais pessoais e que têm sido replicados nos canais informativos da Diocese de Leiria-Fátima. Não posso terminar esta minha modesta e simbólica homenagem, que tem algo de atrevimento, sem agradecer ao Doutor Pascoal a prontidão com que aceitou a minha ousadia de falar da sua vida e me facultou alguns elementos. Foi com emoção que recebi da sua parte o tratamento de “amigo especial”. São suas as palavras: “Ficas a saber que a amizade, quando é real, pode muito: porque vou fazer uma coisa que… não faço senão em casos muito extraordinários, para amigos especiais”. Obrigado, Padre Pascoal.

Hoje, completa 84 anos. Um caminho longo, sem dúvida, mas profícuo. Ao serviço da Diocese, além do trabalho como prefeito e reitor do Seminário, teve papel ativo na criação do Polo da Universidade Católica de Leiria, onde viria a desempenhar funções de direção e de professor. Seria depois pároco dos Pousos e, mais tarde, entre outras tarefas, foi vigário paroquial de Leiria. Enquanto homem de Deus ao serviço da comunidade nunca descuidou o seu crescimento enquanto pessoa interessada pela cultura, até porque, como dizia, “por debaixo de um padre está um homem”. Após a licenciatura em Teologia, completou o mesmo grau académico em Filologia Clássica e Filologia Românica. Mais tarde, em 2002, alcançou o Doutoramento em Latim Humanístico. Uma vida cheia, de trabalho árduo e muita dedicação. Muita experiência acumulada, exemplos prontos a ser partilhados; um modelo a seguir. 

Em jeito de balanço, aqui ficam algumas das convicções e perceções que me confidenciou: “Olhando para trás, tenho a sensação de ter percorrido um longo caminho: tão longo e tão marcado pela bondade divina, que às vezes duvido se fui eu que o percorri. Também é verdade que há muitos anos me habituei a não olhar para o passado, senão em busca de lições para viver melhor o presente como um dom de Deus. Será talvez por isso que as sombras me entristecem cada vez menos”. Agora, “esforço-me por envelhecer sem ficar velho…sem perder tempo a pensar no que não posso. … Isto torna-me verdadeiramente feliz, apesar de todos os pesares”.  “Ser padre foi, para mim, um sonho que cultivei desde a infância, nunca pensei no que me teria acontecido se o não fosse”. “Nunca encarei o sacerdócio como uma forma de realização pessoal” … “Penso que ficou muito para fazer: tive objetivos que não alcancei e houve muitos sonhos que não passaram disso. Mas consola-me a certeza de que é o que acontece a quem procura nunca perder de vista o objetivo central da sua existência: fazer a vontade de Deus” … “Sem querer dar conselhos, diria apenas: toda a gente sabe que a felicidade não se compra, nem se conquista, e quem a procura não a encontra”… “Seria altura de homenagear tantas pessoas, sacerdotes e leigos, eles e elas, que de uma maneira ou de outra, me ajudaram a ser fiel. Mas não digo nomes, para não ser demasiado longo e correr o risco de praticar omissões injustas” … “Quanto a trabalhos publicados, nunca me sobrou tempo nem dinheiro para a investigação que exigiria qualquer publicação séria. Por isso, além de “Por Maria a Jesus” (1995), um guia para a celebração dos Primeiros Sábados, na preparação do Jubileu do ano 2000, não passei da colaboração na imprensa periódica, com muitos artigos e algumas frustrações à mistura”.

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