Ainda sobre a Eutanásia

Como muitos o dizem, não tenho respostas apenas perguntas. Não estaremos (só) a facilitar o que não é supostamente fácil?

A dona Marques (nome fictício) – que de “dona” tem pouco – talvez nem da sua própria vida o seja agora, pois a Deus a entrega, talvez, sem o saber – estava deitada. Deitada assim como em todas as semanas a revejo. De olhar profundo, olhava-me como se apenas o meu vulto conseguisse decifrar por entre a neblina de olhar que já mal vê, mas que tudo contém. E o que contêm os olhos seus? Que histórias por deslindar e quantas não ficarão por partilhar? Não fala. Ou pouco fala. Mas aquele olhar diz tudo. Fala de sofrimento. Fala de dor. As únicas dores que lhe oiço são as físicas quando, ao mobilizá-la, lá vou um pouco mais além da sua amplitude disponível (que é pouca). Lá solta um “Ai”. As outras dores não as conta, não as reza em palavras. Talvez as reze em pensamentos.

Já lá vão uns meses desde que entro nesta casa a que chamam de “Lar”. Pergunto-me se cada um destes jovens com idade o assume como o seu lar. Um lar onde muitos habitam e poucos se conhecem entre si. Poucos sabem o nome do vizinho que se senta no cadeirão ao lado. No olhar de alguns estampa-se sempre a vontade de falar com quem passa, nem que seja para dizer a mesma coisa que já disseram no dia anterior.
“Então Sr. António (nome fictício). Como vai?”, pergunto. “Olhe… Cá estou. À espera.”, responde com o seu sorriso carinhoso muito próprio. “À espera? De quem?”, pergunto, quase adivinhando o motivo da espera. “Olhe… Que Deus me leve.”, responde ele com muita aceitação. “Oh Sr. António, não o diga isso!”. “Ai digo, digo! E você quando chegar à minha idade irá dizer o mesmo.”. Calei-me. Uma espera feliz, assim o vejo, ainda que sofrida. Nestas esperas vejo histórias que tanto ensinam. 

Na verdade, penso que estamos a descuidar esta história que existe, encarnando a via fácil como a única possível. Por fim à história. Talvez muitos destes jovens com idade nem o saibam e nem o sintam, mas são fonte de vida e inspiração. “Quando for velhinha gostava de ser como a Dona Luísa (nome fictício)”. Muito ensinam. Talvez não estejamos a dar ouvidos ao bem maior e a ficar apenas o sofrimento que passam e vivem.

E isto, voltando ainda a falar sobre a Eutanásia (que nos entretantos, foi perdendo protagonismo mediático, sem o merecer). Como muitos o dizem, não tenho respostas apenas perguntas. Não estaremos (só) a facilitar o que não é supostamente fácil?

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