AFINAL, QUAL A NOVIDADE?

Vem tudo isto a propósito da gritaria que se ouviu entre nós, procurando fazer-nos crer que o Papa tinha defendido o direito dos homossexuais ao casamento, a constituir família, tiveram alguns meios de comunicação social o desplante de afirmar.

Chamava-se Papa, o padre Papa, aquele professor de História da Igreja que tive a sorte de encontrar na Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG), em Roma, no início da década de sessenta do século passado. Tinha um ar juvenil, e chamava a atenção o sentido de humor que revelava quando se referia a assuntos mais polémicos, principalmente daqueles que uma certa historiografia já então fazia questão de desenvolver como tema de ataque à Igreja.

Assim, vivendo num país como o nosso, onde os compêndios escolares, no que se refere à história, parecem ignorar séculos de investigação séria e isenta, não admira que me venham frequentemente à memória as palavras e o ensino desse mestre.

Há meia dúzia de anos fiz aqui referência a uma sua teoria sobre os concílios, que na altura me pareceu extremamente original, mas cuja perspicácia vim a verificar no modo como se confirmava, no caso do Vaticano II, convocado precisamente nos anos em que tive o privilégio de escutar este mestre.

Dizia ele, com segurança, mas sorrindo, como que a convencer-nos de que nada é absoluto no devir histórico das pessoas e das instituições: meus amigos, há que ter em conta que, quando a Igreja decide realizar uma assembleia ecuménica, há sempre três concílios: O concílio do diabo, o concílio dos Padres e o concílio do Espírito Santo.

Destes três concílios, dizia ele que o mais ruidoso e demorado era o do diabo. E explicava porquê: porque começa antes da convocatória, acompanha a realização e tenta condicionar a recepção. Depois vinham os factos concretos, que, naturalmente não se referiam senão ao antes, durante e depois do Concílio de Trento.

O meu espanto e a minha admiração por este professor cresceram enormemente, a partir do momento em que fui verificando como a sua perspicácia tinha descoberto antecipadamente o que viria a acontecer com o Concilio Vaticano II.

Deixo as outras análises e fixo-me no que ele dizia sobre o “concilio do diabo”: o mais ruidoso e o mais duradouro dos três.

Importante sobretudo o que diz sobre o ruído, porque actualmente, qualquer evento relacionado com a vida da Igreja, às vezes mesmo só imaginado, suposto ou preconizado,  provoca um barulho de tal modo ensurdecedor, que quase se perde a capacidade de discernir a verdade, quando há alguma, o que raramente acontece, porque o silêncio é condição e critério de verdade.

Vem tudo isto a propósito da gritaria que se ouviu entre nós, procurando fazer-nos crer que o Papa tinha defendido o direito dos homossexuais ao casamento, a constituir família, tiveram alguns meios de comunicação social o desplante de afirmar.

Guardei silêncio, não porque alguma vez me tivesse passado pela cabeça tal declaração do Papa, porque isso implicaria, quer se queira quer não, a negação de toda antropologia criacionista do judeo-cristianismo, para não falarmos também do islamismo.

Guardei silêncio, porque não queria falar de um tema tão delicado sem ter à mão as palavras do Papa.

Chegou-me há pouco a versão espanhola da entrevista onde o Santo Padre mostra até uma certa irritação pelo modo como foram manipuladas as suas palavras. Dessa entrevista copio o seguinte parágrafo, que não foi evidentemente inspirado por mim, mas que me deu uma enorme consolação, porque vem na linha do que sempre pautou o meu proceder como responsável pastoral:

“Las personas homosexuales tienem derecho a estar en la familia. Son hijos de Dios, tienen derecho a una família. No se puede echar de la famila a nadie.

Tradução livre: “os homossexuais têm direito a estar na família. São filhos de Deus, têm direito a uma família. Não se pode expulsar ninguém da família”.

Como sacerdote, quando me aparecia alguém, pai ou mãe, por este ou outro motivo, decidido a recusar a um filho a sua condição de filho, sempre lhe dizia que não podia fazer isso: um pai nunca pode deixar de ser pai, como um filho não pode deixar de ser filho.

Assim, onde está a novidade das palavras do Papa?

Acontece que pessoalmente até fui sempre de acordo que a sociedade civil criasse uma estrutura jurídica que protegesse as uniões de homossexuais: só não posso aceitar que se lhe chame casamento ou matrimónio.

Para terminar, um trecho de um livro publicado em 2015, cujo autor não pode ser considerado como conservador, pelo menos no sentido em que os nossos progressistas usam essa palavra:

Depois de rejeitar o slogan, “le mariage pour tous” e procurar integrar o mistério da homossexualidade no quadro do real e mais amplo mistério da sexualidade humana, escreve:

“La mise dans le domaine public de ce qui était trop souvent caché dans le secret des consciences est irréversible. Cet événement peut et doit avoir des conséquences positives pour la considération respectueuse et bienveillante des personnes et pour le retrait de certaines attitudes de discrimination sociale. Les homosexuels ont droit comme tous d’être reconnus dans leur humanité. La vie d’un homosexuel a un sens au regard de Dieu, même s’il lui est plus difficil de le trouver. En tout cas ce dernier a droit au bonheur de vivre.” (Bernard Seboüé, “L’homme merveille de Dieu”).

Tento uma tradução livre: “O lançamento no domínio público do que se manteve demasiado tempo no segredo das consciências é irreversível. Este acontecimento pode e deve ter consequências positivas para a consideração respeitosa e benevolente das pessoas e a eliminação de certas atitudes de discriminação social. Os homossexuais têm como todos o direito de serem reconhecidos na sua humanidade. A vida de um homossexual tem sentido perante Deus, ainda que lhe seja mais difícil de o encontrar. Em todo o caso, ele tem direito à felicidade.”

Retirado da página do autor.

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