A riqueza de Camila

Camila é uma lutadora, apaixonada pela vida. Conseguiu tirar um curso superior, casou e é mãe de um rapaz. Passou bem durante a gravidez, mas as dores voltaram logo que o bebé nasceu.

Camila não é rica de dinheiro. A sua riqueza é outra, mas tão grande, que chega para partilhar. Além disso, a sua riqueza oferece felicidade, paz e contentamento. Eis a história da sua grande fortuna.

A mãe morreu quando ela era ainda uma menina. Já na escola, não conseguia correr como as outras crianças e queixava-se de dores. Na terra, e a ser cuidada pela avó, poucos se apercebiam do seu sofrimento. Uma tia que vivia em Lisboa levou-a na esperança de que pudesse ser curada na capital. Camila sofreu muito nos hospitais, pois os médicos tiveram dificuldade em proceder ao diagnóstico correto. Por isso, passava longos períodos nos hospitais em enfermarias com doentes idosos, moribundos, por vezes. Finalmente, soube o que tinha: artrite reumatoide. Os tratamentos aliviaram um pouco as dores, mas as crises eram frequentes. Usava sapatos dois números acima do seu tamanho, para não ter tantas dores nos pés, e saias largas para disfarçar as suas deformidades. 

Mas Camila é uma lutadora, apaixonada pela vida. Conseguiu tirar um curso superior, casou e é mãe de um rapaz. Passou bem durante a gravidez, mas as dores voltaram logo que o bebé nasceu. Mudava-lhe as fraldas com os dentes, pois as dores nas mãos impediam-na de as usar. 

Conhecia-a uma das vezes em que foi operada. Estava a escrever um livro que me ofereceu depois de publicado. Contava ali a sua história que era apreciada por todo o tipo de pessoas, sobretudo pelos doentes como ela. Certo dia, recebeu a carta de uma das suas leitoras. Dizia que Camila lhe tinha salvo a vida. Por duas vezes tinha tentado suicidar-se, incapaz de suportar as dores; depois de ler o livro sentira-se compreendida, e prometera a si mesma não voltar a intentar cometer tal loucura. Esta e outras notícias levaram-na a unir-se a outros doentes num grupo a que deram o nome de “Vasos Comunicantes”. O objetivo era conseguir fazer companhia a pessoas em sofrimento, falando com elas ao telefone. Foi um sucesso. As chamadas chegavam de todo o país, vindas de pessoas ansiosas por ouvir uma voz amiga que as compreendesse e distraísse das dores. A esta iniciativa outras se juntaram e os doentes amigos de Camila sentiam-se felizes por poderem ajudar e ser ajudados quando as dores chegavam, fossem as suas ou dos outros. E novos doentes, novos amigos iam chegando.

– “Isabel” – dizia-me Camila, “O sofrimento é uma riqueza que não pode ser guardada só para nós. Ao fim destes anos todos, a medicina evoluiu, mas os sentidos e os sentimentos não. O corpo continua a sentir cansaço e dores, e o espírito continua a sentir tristeza e solidão, se não se tem um amigo que nos compreenda. A experiência da dor leva à compreensão. A compreensão leva ao amor. O amor leva à salvação. E, para quem tem Fé, o amor leva à redenção. Foi o que fez Jesus na Cruz: amou-nos, salvou-nos, redimiu-nos.” 

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