A realizar sonhos: seniores do Centro Social Paroquial dos Pousos peregrinam a Santiago de Compostela

Os peregrinos que se aventuram nessa jornada têm idades entre 80 e 90 anos. A destemida dona Céu, de 91 anos, é uma das figuras centrais desse grupo notável.
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O dia de hoje foi marcado pelo início de uma jornada que quer desafiar as convenções e redefine o significado da peregrinação. Sete seniores residentes no Centro Social Paroquial dos Pousos e nove dedicados cuidadores estão a começar a aventura de se tornarem os primeiros peregrinos naquelas condições, enfrentando os desafios da estrada com coragem e determinação. Terão a certeza de um cenário magnífico à medida que os peregrinos, alguns a pé e outros em cadeiras de rodas, seguem rumo ao conhecido túmulo de Santiago de Compostela. Nesta emocionante manhã da partida, o Bispo D. José Ornelas quis estar com os aventureiros para desejar-lhes “bom caminho”.

Os peregrinos que se aventuram nessa jornada têm idades entre 80 e 90 anos. A destemida dona Céu, de 91 anos, é uma das figuras centrais desse grupo notável. A idade não é uma barreira para a peregrina aventureira, que já tinha viajado para Santiago de Compostela há mais de 50 anos. Com ela segue nas mãos a sua bengala e, no coração, um espírito resiliente. “Eu quero ver até onde chego; quando voltar, depois digo se gostei ou não gostei”, afirma, convicta. O que interessa para a nonagenária é que “o bom Jesus olhe por todos nós e por todos os outros que não podem ir”. Aproveitou para lembrar a marcante viagem a Roma: “éramos 12 todos e todos nós apertámos as mãos do Papa e ele apertou as nossas; naquele momento senti a presença de Jesus, que estava ali connosco através da pessoa do Papa”. Agora, diz que está muito feliz por ter esta oportunidade. “Sei que temos que passar uma ponte, não sei onde, e que ainda vamos a França”, afirma numa tentativa algo confusa de explicar o plano de viagem, que não passa por França, mas que terá uma etapa no caminho francês.

Quatro etapas e muitas experiências

Esta peregrinação única desdobra-se ao longo de quatro dias, com quatro etapas meticulosamente planeadas para acomodar as idades e circunstâncias dos participantes. A jornada, que combina percursos a pé e trilhos em cadeira de rodas, promete ser uma experiência enriquecedora que permanecerá nas memórias dos peregrinos. Cada etapa diária cobrirá uma distância de cerca de 5 a 6 km, e proporciona a oportunidade de explorar espiritual e culturalmente as localidades ao longo do caminho. Para acomodar os diferentes desafios da jornada, as carrinhas estarão prontas para transportar os peregrinos em momentos específicos, como encontros com outros peregrinos, sessões de oração, visitas culturais e degustações gastronómicas.

À medida que o dia se transforma em noite, os peregrinos terão a possibilidade de se refugiar em albergues. Dessa forma, vão partilhar uma experiência autêntica com outros viajantes nos Caminhos de Santiago. Cada peregrino recebeu, ainda, uma credencial de peregrino, que será carimbada ao longo de cada jornada. Chegados ao destino, essas credenciais garantirão o almejado certificado de peregrino: a Compostela. Uma novidade recente é que as credenciais já apresentam o símbolo de acessibilidade – uma cadeira de rodas – para significar a inclusão e o papel transformador dessa peregrinação.

Alexandra Neves à conversa com a dona Céu, a peregrina mais idosa.

Os indispensáveis cuidadores

O grupo de cuidadores desempenha um papel essencial nesta peregrinação, cuidando do bem-estar físico, emocional e espiritual dos peregrinos. Composto por voluntários dos órgãos sociais da instituição, o pároco, padre Luís Morouço, e colaboradoras, esse grupo garante que cada passo seja dado com confiança, mantendo a saúde e o ânimo dos participantes.

Para o pároco, esta iniciativa é vista com muita naturalidade. “Trata-se de mais uma ‘quotidianidade’, eventualmente a requerer algumas atenções especiais”, afirma, acrescentando a sua surpresa porque “a reação acolhedora das pessoas também continua a ser imediata, surpreendentemente acolhedora, entusiasta e contagiante”. A terminar, deixa um desabafo de felicidade: “É tão bom ter tantos dias na nossa vida em que tudo é possível, facilmente.”

Alexandra Neves, por ser a coordenadora do projeto, é a pessoa mais visível da Academia dos Sonhos. No meio da lufa-lufa dos preparativos de última hora, lá arranja um espaço para falar daqueles sonhos que também são seus. “Cada sonho realizado para uma pessoa ou para um grupo de pessoas, é um sonho realizado para mim”, partilha connosco. Depois, explica o que realmente fazem: “Independentemente da idade e/ou doença e incapacidade, adaptamos e realizamos as aspirações das pessoas, com base em critérios definidos no regulamento, sob a gestão dos Gestores de Sonhos — de momento quatro elementos — e com base no orçamento, sob a colaboração de benfeitores individuais, empresas públicas e privadas.”

Tempo para a brincadeira: idosos cuidam de cuidadores e empurram cadeiras de rodas

O ponto de partida é o sonho

O ponto de partida dessa jornada emocionante é Viana do Castelo, onde os peregrinos se lançam em três etapas do Caminho Português do Litoral e uma do Caminho Francês. A meta final é a icónica Praça de Obradoiro, onde vão participar na missa do peregrino na majestosa Catedral de Santiago. Essa celebração é marcada pela tradicional exibição do Botafumeiro, seguida da entrega da tão esperada Compostela.

Este empreendimento é o fruto da visão e dedicação da “Academia dos Sonhos”, uma iniciativa pioneira do Centro Social Paroquial dos Pousos. A Academia dos Sonhos propõe-se, como diz o nome, a realizar sonhos e desejos, e esta peregrinação é mais um passo na direção dessa missão inspiradora. Este é o nono sonho realizado desde que o projeto foi oficializado há cerca de um ano, celebrado em grande estilo com uma viagem emotiva ao Vaticano, onde os beneficiários tiveram a honra de cumprimentar o próprio Papa Francisco.

Cada sonho realizado é uma história única, um testemunho da determinação da Academia dos Sonhos em tornar os desejos em realidade. Entre os nove sonhos já realizados, dois foram com pessoas sob cuidados paliativos, três com colaboradores da instituição e os restantes com idosos residentes, tanto de forma individual como em grupo. Essas histórias são muito mais do que realizações pessoais. Ao longo dos últimos cinco anos, a Academia dos Sonhos também tem vindo a concretizar sonhos de maneira mais informal.

ÁLBUM DO GRUPO
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Filomena Almeida, que também integra o grupo dos quatro gestores de sonhos, diz que “à medida que se vão realizando sonhos, percebo que não existem limites para os realizar. Basta mesmo sonhar!”. Já António Agostinho, outro desses gestores, faz a ligação do sonho à peregrinação “A vida é o mote da nossa peregrinação; o sonho é o comando que, regado de alegria e altruísmo, dá vida ao nosso peregrinar”.

A “Academia dos Sonhos” transcende as limitações físicas e mentais, ao desafiar o estigma associado à idade para inspirar uma abordagem mais inclusiva da vida. Através da realização de sonhos, a Academia redefine a narrativa do envelhecimento e mostra que a busca por realizações pessoais é atemporal. Com esta jornada extraordinária, a Academia dos Sonhos torna-se num farol de inspiração e inclusão nos Caminhos de Santiago, e lembra que o caminho, pegando nas palavras do Papa Francisco, é verdadeiramente para “todos, todos, todos!”

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