A obediência

A obediência leva à harmonia, à construção, à paz, à alegria.
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Catecismo da Igreja Católica 144: «Obedecer (ob-audire) na fé é submeter-se livremente à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida por Deus, que é a própria verdade. Desta obediência, o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe é Abraão. A sua realização mais perfeita é a da Virgem Maria.»

Detenhamo-nos sobre esta palavra/virtude obediência para percebermos o que ela é, o que ela significa realmente.

Hoje em dia obedecer, obediência, faz imediatamente pensar a maioria das pessoas em fraqueza, submissão à força, humilhação, e, no entanto, não há nada mais errado sobre o que é a obediência e o que é obedecer.

Pensemos, para já, apenas na obediência e do que é obedecer em termos gerais, ou seja, abstraindo-nos da fé cristã.
A obediência leva à harmonia, à construção, à paz, à alegria.

Se ninguém obedecesse o que seria do mundo, o que seria do equilíbrio, da paz na sociedade e nas nações?
Um mundo sem leis nem regras, um mundo em que ninguém precisasse obedecer a leis ou regras, seria um mundo que se auto- destruiria em pouco tempo.
Por exemplo, o que seria do trânsito automóvel sem leis, sem regras?

Mas, como se refere no início citando o Catecismo, a obediência cristã é inerente à fé, porque a fé procura a verdade, a verdade é a Palavra de Deus e, como tal, sendo a verdade, todo o cristão deve obedecer à verdade que é o próprio Deus.
São Paulo na Carta aos Romanos chama-lhe a obediência da fé.

Lembremo-nos, desde logo, que Jesus Cristo obedeceu em tudo à vontade do Pai e, por essa obediência, que foi até «à morte e morte de cruz» Fl 2, 8, chegou a salvação aos homens.
Lembremo-nos como Jesus na Sua agonia no Monte das Oliveiras diz em oração ao Pai: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.» Lc 22, 42

O Catecismo fala-nos também em Abrãao que deixa tudo para obedecer a Deus, como exemplo dessa obediência, e refere-nos também Maria como o exemplo perfeito de obediência na fé.
Maria, perante a “proposta” de Deus, anunciada pelo Anjo, mesmo sem perceber muito bem o que lhe é pedido, acaba essa Anunciação dizendo: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» Lc 1, 38

Essa obediência à Palavra, (Palavra de Deus que é a Verdade), leva à vivência inteira da fé, que, obviamente, leva à paz, à alegria, à felicidade.

Por isso a sua prima Isabel, conduzida pelo Espírito Santo, lhe diz quando se encontram: «Feliz de ti que acreditaste, (que disseste sim), porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.» Lc 1, 45

E o que é nos é dito da parte do Senhor, quando temos fé, quando acreditamos, quando obedecemos à Sua Palavra?

Que seremos salvos.
Que Ele está sempre connosco.
Que não seremos provados além das nossas forças.
Que todos os cabelos das nossas cabeças estão contados.
Que os cegos vêem, os surdos ouvem, os mudos falam, os paralíticos andam.
Que seremos livres.
Que nos amaremos uns aos outros como Ele nos ama.
Que não morreremos, mas sim com Ele ressuscitaremos.
No fundo que seremos felizes, (apesar das contrariedades), e que encontraremos a felicidade plena junto de Deus.

Mas a obediência na fé ou da fé, é suscitada de vários modos, ou seja, não apenas pela Palavra de Deus, mas também pela Igreja, pelo Papa, os Bispos, os Sacerdotes, os Santos e também aqueles que nos rodeiam.

Esta obediência da fé é sempre uma obediência de amor.
Nós não obedecemos à Lei de Deus, à Doutrina da Igreja, pela Lei ou pela Doutrina por si mesmas, mas sim pelo amor que temos a Deus e, por isso mesmo, devemos ter esse mesmo amor à Lei de Deus e à Doutrina da Igreja.

E o amor torna-nos livres na obediência, porque não obedecemos por imposição, mas por amor, porque sabemos que Deus nos ama, que Ele é amor e que tudo o que nos pede é para nos levar à nossa felicidade, à felicidade daqueles que nos rodeiam, e à felicidade daqueles que, ainda não O conhecendo ou vivendo, O podem descobrir pelo nosso testemunho, pelo nosso serviço a Deus servindo os outros.

Ora isto leva-nos à obediência da fé em Igreja.

Mas se apenas obedecemos quando o que nos é pedido está de acordo com aquilo que pensamos, está de acordo com as nossas escolhas, então não estamos a fazer a vontade de Deus, mas a nossa vontade.

Obviamente que a obediência também tem sempre a ver com a nossa consciência, mas nós só devemos seguir a nossa consciência se a mesma está bem formada, ou seja, se fizemos tudo, mas mesmo tudo o que esteja ao nosso alcance, para a formarmos no assunto sobre o qual queremos decidir obedecer.

Nós acreditamos, que o Papa é eleito por graça do Espírito Santo sobre aqueles que o elegem, como os bispos assim serão escolhidos, bem como os sacerdotes, religiosos, consagrados.

Esta obediência em Igreja vai mais longe.

Extrapolemos, legitimamente pensando, que se nos entregamos a Cristo, ao Espírito Santo, no amor do Pai, quando escolhemos aqueles que vão coordenar serviços ou as diversas equipas da pastoral, podemos acreditar também que foi o Espírito Santo que os escolheu, naquele determinado momento, para servirem daquele modo, embora servindo-se de nós.

Quantas vezes é escolhido alguém, por exemplo numa eleição mais ou menos “secreta”, que nós, na nossa humanidade, julgamos que não seria a pessoa ideal para tal missão?
E, no entanto, quantas vezes depois reconhecemos que essa pessoa executa a missão que lhe foi dada muito melhor do que nós julgávamos ser possível?

Porque embora o Espírito Santo saiba quais os dons de cada um, como alguém disse, Ele não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos!

Então isto significa que devemos obedecer cegamente a tudo aquilo que os coordenadores dos serviços ou equipas em que servimos a Igreja, nos pedem para fazer?

Para responder a esta pergunta teremos que pesar também o “mandar”, e o “mandar” é muito importante para que as “ordens” ou “regras” sejam obedecidas.

Ora “mandar”, liderar, coordenar, tem a ver com o amor também, e tem a ver com o obedecer a Deus, que não nos “instituiu” como donos da verdade, mas sim como pessoas de fé, à procura da verdade.

Então, aquele ou aquela que coordena deve reger-se em primeiro lugar pelo amor.
Primeiro pelo amor a Deus, entregando-se em oração, para discernir qual a melhor forma de levar a cabo a missão que lhe foi confiada.

Segundo pelo amor aos outros, chamando-os a colaborar na tomada de decisões e ouvindo as suas ideias, as suas propostas, de modo, a que em equipa, possam encontrar pela graça de Deus o melhor caminho para a cumprir a missão.

Depois também é imprescindível o testemunho daquele ou daquela que coordena, ou seja, a sua liderança tem que ser fruto da oração, que leva à sensatez, e também a executar com os outros, (se possível), as directivas que mandou fazer.

Percebemos então, com certeza, que o serviço ou equipa trabalha, ou deve trabalhar em harmonia, e só se a humildade estiver presente nos seus membros, é que conseguiremos aceitar as “ordens” que nos são dadas, porque percebemos que vêm de quem foi escolhido para tal, e porque no fim foram fruto da análise de todos.

Então e se a minha ideia não foi aceite, ou a minha proposta não teve a concordância dos outros?

Então, em humildade, aceito-o de coração grato e executo o que me é pedido com amor e alegria de servir.
Mas não com alguma espécie de resignação, com murmúrios, ou com a convicção de que eu sei melhor, mas sim com o espírito de obediência da fé, certos de que Deus nunca falha se acreditamos estar a fazer a Sua vontade.

Lembremo-nos que os serviços e equipas de pastoral, são de alguma forma, também, o rosto visível da Igreja, e, como tal, devemos sempre dar testemunho de amor, de harmonia e de paz.

Só assim, fazendo a vontade de Deus em amor, é que um dia poderão dizer da Igreja o que já foi dito das primeiras comunidades cristãs de Jerusalém: Vede como eles se amam.

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