A Invasão da Rússia no Século XIX

A moral e a disciplina do exército eram mantidas, em parte, pela fé ortodoxa. Os serviços religiosos ajudaram a aliviar os soldados russos sobre o terror da vida militar.

POR PEDRO COTRIM

Há dois séculos a Rússia sofreu a sua primeira invasão por outro estado. O exército era tradicional, mas algumas características tornavam-no especialmente tenaz na defesa do território.

O recrutamento ocorria uma vez por ano, cabendo a rifa da guerra a um em cada quinhentos camponeses. Quase todos os soldados eram portanto pessoas do campo, e o momento do alistamento determinava o termo dos contactos com a sociedade conforme a conheciam. O serviço militar durava 25 anos. Quando um novo recruta saía de casa, os seus amigos e familiares não esperavam voltar a vê-lo, fazendo-lhe uma espécie de funeral civil. De forma habitual, evitava-se o envio de homens casados para o serviço militar, mas em 1812-14 a necessidade de recrutas era tão grande que muitas vezes não restava uma opção. Muitas famílias perderam seu pater familias e para as mulheres era uma catástrofe: provavelmente nunca mais veriam o marido e não poderiam casar-se novamente. O seu estatuto na aldeia tornava-se praticamente invisível.

A moral e a disciplina do exército eram mantidas, em parte, pela fé ortodoxa, que ajudou a aliviar os soldados russos sobre o terror da morte na guerra e reforçou a sua identificação com a sua unidade e com o seu país. Relatou-se, após a Batalha de Zurique em 1799, que «poucos russos mortalmente feridos não se tinham agarrado à imagem do santo que usavam ao pescoço e que muitos ainda a tinham sobre os lábios, mostrando que a beijavam enquanto expiravam». Havia igualmente muitas imagens da Nossa Senhora de Smolensk nas fardas e no peito dos infelizes caídos.

O povo tinha igualmente fé no czar Alexandre. Quando, pouco depois da invasão francesa, o imperador tornou a Moscovo, a noite ia alta, mas o caminho para a cidade estava repleto de populares. Na manhã seguinte, enquanto se dirigia para a Catedral da Ascensão, situada dentro do Kremlin, foi recebido pelo rebate dos sinos e por uma enorme multidão. As pessoas amontoavam-se para o ver e para lhe tentar tocar. O czar consubstanciara-se no símbolo da esperança de salvação em relação ao exército francês, e os soldados representavam igualmente uma visão salvífica para o povo da grande pátria cristã ortodoxa.

A pecha mais evidente do exército russo era a qualidade deficiente dos seus oficiais. Muitas acções militarmente promissoras nunca chegaram a ter lugar devido à rivalidade e ao ciúme pela posição do outro. Um exemplo infame foi a tentativa abortada de cortar a retirada de Napoleão pelo rio Berezina, na altura situado na parte oeste do país e que hoje em dia faz parte da Bielorrússia. As falhas na comunicação entre oficias e a sua falta de obediência entre si, combinadas com o egoísmo dos comandantes superiores, frustraram um conjunto de manobras que haviam começado de forma sagaz. Se Napoleão tivesse sido detido na ocasião, ou tivessem as suas tropas exauridas expostas a pelejas mais ferozes, os enormes sacrifícios dos dois países conflituantes nos dois anos seguintes podiam ter sido evitados.

Não faltam descrições sobre a guerra da Rússia contra Napoleão. Foi a primeira grande guerra patriótica da Rússia e os historiadores russos, sejam pré-revolucionários, soviéticos ou pós-soviéticos, não perderam a oportunidade de exaltar o heroísmo e o patriotismo de soldados e camponeses. As crónicas ocidentais são mais contidas estão em conformidade com a perspectiva francesa graças ao enorme acervo documental. Enfatizam-se os erros de Napoleão, os efeitos do Inverno e as dificuldades dos soldados franceses na longa retirada através dos campos nevados.

No lado francês quando os homens chegavam à idade tida como própria, eram convocados para as forças armadas – um decreto nascido na Revolução. Em resultado deste recrutamento maciço, o exército francês tornou-se rapidamente muito maior do que qualquer outro jamais visto na Europa. Noutros países, os monarcas ainda ficavam nervosos perante a ideia de armar os seus súbditos e treiná-los para lutar. Com uma força descomunal e motivada ao seu dispor, Napoleão podia cabimentar grandes formações muito dinâmicas, nomeadamente divisões no lugar de regimentos. Em contraponto, a maioria dos exércitos europeus consistia em regimentos comandados por aristocratas que, de forma geral tentavam evitar o combate total, caro e arriscado, e alcançar os seus objectivos através de manobras cautelosas.

Napoleão, pelo contrário, tinha reservas abundantes e podia arriscar pesadas baixas. A convocação militar simultânea de milhares de jovens por um período relativamente curto permitiu à França colocar exércitos muito maiores no terreno, e também ter uma reserva de homens treinados e capazes que poderiam ser mobilizados novamente se fosse necessário. Por esta razão, estava Napoleão em posição de confrontar, e não de evitar, o principal exército de qualquer oponente, na expectativa de o trucidar pela força dos números e pela forma mais elaborada de liderança. O modelo do exército francês mostrou ser vencedor, tendo inclusivamente derrotado as forças da Áustria e da Prússia.

Os soldados da infantaria russa eram disciplinados, corajosos e tenazes. O exército russo não era bem uma nação armada, mas uma grande sociedade camponesa. Tal sistema, contudo, pressupunha um conceito de cidadania armada incompatível com o trabalho de um camponês: nenhum proprietário de terras aceitaria receber homens jovens, enérgicos, treinados para lutar e bem informados sobre o mundo exterior, enviados novamente para as suas propriedades com o poder perturbar os companheiros aldeões com histórias emocionantes de batalhas longínquas. De igual modo, não se podia conceder a um exército de cidadãos a autoridade de fogo para suprimir qualquer tipo de agitação interna. Por estas razões, o exército e a sociedade camponesa foram mantidos estritamente separados.

A guerra contra Napoleão ilustra as características positivas e negativas do grande império. Por um lado, o seu tamanho significava que o exército podia recuar de forma quase indefinida e recompor-se de reveses qua fariam soçobrar um estado mais pequeno. Tinha excelentes reservas de alimentos e matérias-primas; por outro lado, as longas retiradas implicavam grande sofrimento, destruição de aldeias e de campos de lavoura, assim como perda de animais e demais pertenças. Era fácil instalar-se a desmoralização e as enormes distâncias também significavam que a mobilização de recursos era lenta e complicada.

A Rússia sempre precisou de longos períodos de antecedência para o planeamento de qualquer campanha militar. Os oficiais enfatizavam o trabalho de espionagem para obtenção de informações fiáveis sobre o inimigo. Uma das vantagens da Rússia nesta guerra foi a circunstância de os seus comandantes saberem muito mais sobre as intenções e preparativos de Napoleão do que sobre as deles próprios. Os espiões cultivaram os seus contactos entre a elite parisiense, sendo que alguns eram franceses indiscretos e com maus fígados em relação a Napoleão; já outros eram bem pagos pelos seus serviços. Como resultado, Alexandre soube com bastante antecedência que Napoleão planeava atacar a Rússia e a forma como o pretendia fazer.

O czar sabia que o exército russo não estava pronto para enfrentar Napoleão. O exército francês era muito maior e mais bem preparado para a batalha. A melhor estratégia seria, como se percebeu dois parágrafos acima, recuar indefinidamente, evitando grandes batalhas e fazendo uso do território e do seu clima rigoroso para desgastar os franceses. No entanto, nenhuma autoridade tinha coragem de o afirmar abertamente, uma vez que os sacrifícios implicados por esta política seriam sempre tremendos. A ideia essencial era fazer retiradas curtas até linhas fortificadas, onde se esperava poder tomar uma posição de resistência. No entanto, sempre que o exército francês alcançava as linhas de defesa, percebia-se que as tropas de Napoleão eram muito fortes, e após algumas pelejas, a retirada era novamente efectuada para linhas ainda mais recuadas.

Os fantasmas sem rosto de Alexandre eram quase tão assustadores como os de Napoleão. O czar sabia que o pareceu ser uma política assustadiça indignava a oposição e originava acusações de falta de patriotismo por parte dos aristocratas de São Petersburgo; a sua irmã Catarina lembrava-o constantemente dos perigos em cartas desesperadas. O czar bem sabia que o seu próprio pai tinha sido assassinado por um grupo de aristocratas, mas também sabia que devia evitar a todo o custo o descoroçoamento do seu exército, uma vez que o sistema de recrutamento da Rússia significava que haveria sempre uma escassez de reservas.

As elites do império russo eram extraordinariamente diversas, incluindo ucranianos, cidadãos das cidades bálticas, alemães, georgianos e muitos outros estrangeiros. Um em cada cinco oficiais na Batalha de Borodino não era russo, o que significava que os atritos habituais entre os líderes militares eram exacerbados por ciúmes étnicos. A invasão de Napoleão intensificou o sentimento nacional e as retiradas sucessivas foram um duríssimo teste a todas capacidades.

Foram necessários milagres logísticos para mobilizar as tropas russas e todos os seus equipamentos para a Europa Central e de seguida para França. Contudo, mesmo os campos férteis da Caríntia, da Galícia e da Silésia não podiam alimentar um corpo tão maciço de homens e cavalos, de modo que tiveram de ser criadas e mantidas linhas de abastecimento ao longo de milhares de quilómetros. O Ministério das Finanças ficou sem fundos, recorrendo à emissão de dinheiro e desvalorizando-o continuamente, prejudicando fatalmente a credibilidade da Rússia e colocando o exército sob a ameaça da fome. Sem um subsídio britânico considerável entretanto congregado, a Rússia provavelmente não poderia ter levado a campanha até à sua conclusão vitoriosa.

Os diplomatas russos dedicaram-se habilmente a persuadir a Prússia e Áustria a participar na campanha militar combinada que bateu as tropas de Napoleão na Batalha de Leipzig em 1813 e seguidamente nos campos de batalha da própria França. O czar tem nesta altura uma tremenda aparição: determinado, sem rodeios sobre o seu objectivo, com coragem de seleccionar os melhores subordinados e de lhes conceder os poderes necessários. Nem tudo correu bem: as relações entre os oficiais superiores e continuaram a ser complexas e muitas vezes tumultuadas, mas Alexandre depositou total confiança em Deus: acreditava ter sido convocado para livrar a Europa de um grande praga e a sua fé tremenda ajudou-o em inúmeros obstáculos.

Esta grande vitória fez da Rússia a potência não-marítima dominante na Europa. No entanto, e de certa forma, o triunfo foi agridoce. O sucesso militar impediu o avanço da modernização no Estado e na sociedade. Alexandre não teve forças nem engenho para transformar a Rússia numa monarquia constitucional; Nicolau, o seu irmão mais novo que o sucedeu em 1825, resistiu a todos os argumentos para a reforma e governou o país de forma autoritária, em grande parte com a ajuda de oficiais e funcionários que haviam participado na campanha napoleónica.

A tarefa foi deixada para gerações posteriores. Depois de Nicolau vieram os czares Alexandre II e Alexandre III. Sucedeu aos dois Alexandres o malogrado Nicolau II, executado com a restante família Romanov em Ekaterimburgo, assim designada em homenagem à czarina Catarina dos começos do século XVIII. As revoluções mudam toponímias e durante a URSS passou esta cidade dos fins da Rússia europeia a designar-se Sverdlovsk (Свердло́вск – é fácil a conversão e também fácil perceber o que vale cada caracter cirílico). Hoje em dia, na nova Rússia, o nome voltou ao original.

Temos agora a Rússia como o grande inimigo. A história muda e em tempos idos foi a Rússia a libertar a Europa. A URSS também nos protegeu do nazismo e as estafadas comparações entre Hitler e Estaline já incomodam a paciência. Certo é a Rússia ser um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Os restantes, como bem sabemos, são os EUA, o Reino Unido, a França e a China.

Os russos não têm culpa dos actos de Putin. Cabe-lhes a resistência e a coragem de resistir a um ditador, recordando ainda que viveram amordaçados pelo totalitarismo entre 1917 e 1991.

«Recorde-se então que o aspecto primacial da nossa liberdade é o livre arbítrio, que tantos trazem na boca e tão poucos na inteligência». Palavras de Dante em Monarquia. O poeta elaborou um tremendo tratado político e filosófico no final do século XIII e vale a pena reler o que afirmou então sobre monarquia, império e república.

Contudo, e se quisermos entender melhor o raciocínio deste pensador, leiamos igualmente a Divina Comédia, ou pelo menos o Inferno e os seus círculos. A tradução de Graça Moura é irrepreensível. Quando chegamos ao nono círculo sentimos o frio de Dante, o frio que os russos enfrentam no tremendos meses de Inverno e o que também emana de Putin.

Termine-se com um viva a este povo heróico. Estão no inferno ao lado dos irmãos ucranianos e importa resgatar todos.

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