A essência do voluntariado

Quando falamos de voluntariado nos dias de hoje, já precisamos de saber do que estamos a falar porque as águas, neste campo, se foram turvando e agora é urgente saber separar as águas.
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Realizou-se no passado fim de semana, pela primeira vez em Portugal, a feira nacional do voluntariado com cerca de 200 Associações que trabalham todos os dias para fazer um mundo melhor. Foi interessante de ver e perceber que o voluntariado é, nos dias de hoje, um dos atractivos transversais aos jovens e menos jovens. Muita gente procura aderir ao voluntariado procurando dar um pouco de si e do seu tempo abraçando causas de diversas índoles.

Hoje há voluntariados e voluntariados. Infelizmente há tipos de voluntariados que se vêm desvirtuando da sua essência original e do mais puro sentido do mesmo. Quando falamos de voluntariado nos dias de hoje, já precisamos de saber do que estamos a falar porque as águas, neste campo, se foram turvando e agora é urgente saber separar as águas.

Para mim quando se fala de voluntariado, estamos a falar de pessoas que dispõem do seu tempo e das suas coisas duma forma desinteressada e gratuita. Que estão dispostas a servir e a dar sem esperarem nada em troca. Como dizia o Evangelho do domingo passado “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 9, 36-10,8). Aqui reside a essência do verdadeiro amor e podemos dizer também do voluntariado.

E aqui, honra seja feita, ainda temos muitas Associações que tem e procuram manter este espírito originário do verdadeiro voluntariado. Muitas pessoas que abraçam causas nobres fazem-no de alma e coração e duma forma completamente gratuita e de coração.

Com o andar dos tempos modernos e com o grande argumento da eficácia e eficiência do tempo, que é desculpa para tudo, há, infelizmente, hoje, muitas Associações e ONGDs que passaram a ter um voluntariado dito a “full time” e consequentemente remunerado, não só com um chorudo ordenado e com um conjunto de mordomias e regalias tais como subsídio de deslocação, subsídio alimentar, direito a ter casa e carro… Por favor, não chamem a isto voluntariado nem a estas pessoas de voluntários! Nem queiram sujar o nome da verdadeira essência do voluntariado. Chamem a isto outra coisa. Ser remunerado e ser assalariado não é voluntariado.

Cada vez mais temos Associações e ONGDs que recebem pessoas e que as enviam em missão, mas com um salário e com um conjunto de mordomias. Chamem a isto colaboradores ou funcionários. Sou testemunha por este mundo fora que cada vez mais existe este tipo de procedimento. E quando oiço dizer a estas Associações e ONGDs que isto é voluntariado, revolta-me e choca-me porque, de todo, isto tem outro nome.

E mais gritante e injusto se torna quando estas Associações e ONGDs recebem dinheiros de pessoas de boa vontade para apoiar o voluntariado e estes meios servem para pagar salários e mordomias. Nada mais trapaceiro e desviante.

Nesta feira do voluntariado havia muitas Associações e ONGDs que promovem e recrutam o voluntariado, mas que depois assalariam essas pessoas como trabalhadores ou funcionários dessa Instituição. Contaram-me histórias e casos que me chocaram profundamente. Como é possível haver até Instituições ligadas à Igreja a terem este tipo de procedimento?

Na verdade, muito se vai desvirtuando da essência das coisas. Até na nossa Igreja, a gratuidade, a generosidade e o serviço desinteressado vão passando a serviços remunerados e pagos. Deixo aqui alguns exemplos que comprovam este desvirtuamento. Temos paróquias e santuários onde os grupos corais, salmistas e organistas são todos pagos. Para ter um sacristão temos de lhe pagar. Até nas Congregações Religiosas são mais os assalariados do que os trabalham por amor

à causa. E também infelizmente alguns padres caíram nesta grande tentação de trabalhar quase só pelo dinheiro. São os funcionários de Deus! Aonde fica o espaço para o comprometimento e compromisso de baptizados de servir os irmãos e a comunidade?

Jesus tinha toda a razão quando dizia “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos”. É evidente que não se estava a referir aos assalariados, mas aos que trabalham desinteressadamente por amor ao Reino e à humanidade. Aos verdadeiros voluntários. Estes serão sempre poucos, pois muitos serão aqueles que, à pala do voluntariado, terão interesse em ter um chorudo salário associado a muitas mordomias.

Recebestes de Graça, dai de Graça

Parabéns aos verdadeiros voluntários da humanidade.

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