A CONTINUIDADE DE UMA FÉ

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Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo; O céu e a terra proclamam a vossa glória. Hossana nas alturas.

Bendito O que vem em nome do Senhor. Hossana nas alturas!

Mais uma vez, inicio a minha oração da tarde revisitando os textos da missa deste domingo, actualmente designado por Terceiro Domingo da Páscoa.

O sol, que iluminou e aqueceu generosamente as paisagens e as pessoas, ao longo de todo o dia, e terá visto escandalizo a loucurasque encheu as nossa estradas de gente em fuga estouvada para o mar, este sol declina já no horizonte, percorrendo o qual, tento abrir caminho entre a avalanche de misérias que os homens vão nele semeando, fui renovando a minha acção de graças, para continuar a Eucaristia que celebrara de madrugada. Muito de madrugada, pelas exigências das debilidades físicas com que me mimoseia a Bondade de Deus.

Este Deus, que a liturgia latina louva quotidianamente, milhões de vezes, com palavras importadas da língua e do culto hebraico:

Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo. O céu e a terra proclamam a vossa glória. Hossana nas alturas.

Bendito O que vem em nome do Senhor. Hossana nas alturas.

Deste Senhor Deus do Universo (“Dominus Deus Sabaoth”), diz São Pedro aos judeus que escutam a sua palavra em Jerusalém:

“O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes e negastes na presença de Pilatos, quando ele estava resolvido a soltá-l’O”.

O Deus de nossos pais!

Não me espanta esta linguagem do Príncipe dos Apóstolos; e talvez, em teoria, não espante a maioria dos que se dizem cristãos, católicos ou não. Como, em meu entender, não devia espantar hebreus nem muçulmanos, que todos, em conjunto somam mais de dois terços da humanidade e invocam o Deus de Abraão, Isaak e Jacob, como o Deus dos seus pais.

Não posso esconder um doloroso estremecimento, quando penso nisto e reparo no espectáculo que damos ao mundo, com tanto sangue derramado entre irmãos; e, pior ainda do que esse derramamento de sangue, a sacrílega hipocrisia com que se procura justificá-lo.

Em nome do mesmo Deus de Abraão, de Isaak e de Jacob; o Deus dos nossos pais.

Torna-se assim mais claro o gestos dos santos que choram – literalmente, choram lágrimas de dor – ajoelhados junto à imagem do Crucificado: porque vêm n’Ele esse mar imenso de pessoas, de todas as idades e condições, esmagadas pelo ódio dos irmãos, alguns invocando até, não se sabem que direitos concedidos pelo mesmo Pai de todos.

Ninguém ignora que a fé, mesmo que nos mantenhamos no contexto puramente teológico, é muito difícil de definir; tão difícil que alguns tratados desistem dessa definição, limitando-se a descrever o que será um acto de fé.

A nível dos conceitos, não se evita uma enorme confusão, com mentiras, erros e injustiças, enquanto se continuarem a usar as palavras “fé” e “religião” como sinónimos. A religião, que já os clássicos da antiguidade não tiveram dificuldade em descrever como algo comum todos os povos, numa conceptualização impossível de aplicar-se ao modelo bíblico de Abraão, que é, para os crentes judeus, cristãos e muçulmanos, como lhe chamou São Paulo, nosso Pai na fé.

A fé, sem a qual é impossível agradar a Deus, como afirma a epístola aos Hebreus (Cfr 11, 5 sgs), não pode confundir-se com nenhum povo, cultura ou nação. Por isso Jeroboão oi condenado pelos enviados de deus, quando cometeu o sacrilégio de dar o nome de Israel ao Reino do Norte, formado pela tribo das tribos que o seguiram na sua política secessionista em relação a Jerusalém, que passará a capital do Reino do Sul: o Reino de Judá, do nome de uma das tribos fiéis.

De certo modo, poderemos dizer que a morte de Cristo, no Calvário, em Jerusalém, precisamente, assume, sublimando-a, a morte de todos os que, ao longo dos séculos, se recusaram a aceitar um Deus que, de qualquer modo se identificasse com um a povo determinado, uma cultura ou uma nação.

É por isso que a multidão dos mártires e dos santos – os que viveram e os que vivem ainda hoje, o heroísmo dessa recusa -, são o meu maior conforto, numa hora tão confusa como aquela em que vivemos… exactamente como Ele prometeu aos que O seguiam.

Estamos sempre a esquecer-nos de que a nossa Páscoa, a única verdadeira, consiste no morrer continuamente, para que da morte do pecado surja a vida da graça. No centro da velha cidade de Jerusalém, Calvário e sepulcro vaziam, estão a dois passos um do outro.

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