43 – Júlia das Dores da Silva Crespo, a benemérita

A época em que viveu Júlia das Dores da Silva Crespo foge um pouco ao período que se pretende evocar, isto é, os últimos 100 anos da Diocese de Leiria. Contudo, o que fez ou promoveu teve, e ainda tem, reflexos no período considerado.

Senhora um pouco esquecida ou quase desconhecida, nasceu em 21 de Novembro de 1827, na freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, filha de pais incógnitos, ao que reza o assento de baptismo. O assento de óbitos regista que faleceu em Regueira de Pontes, a 7 de Janeiro de 1910, com 82 anos. A ela se deve boa parte da igreja de Regueira de Pontes e, em grande parte, o convento e igreja dos Franciscanos, à Portela, em Leiria.

Aquele assento de óbito acrescenta uma nota singular: «filha natural, consta, do doutor médico João Francisco da Silva Crespo, natural deste lugar e freguesia [de Regueira de Pontes] e de mãe incógnita». O Dr. Luís Lourenço, no seu livro “Regueira de Pontes e as suas gentes” (Leiria: ed. do autor, 2007, p. 374B), escreve sobre João Francisco da Silva Crespo: «Foi este que trouxe de Caldas da Rainha D. Júlia das Dores da Silva Crespo, baptizada na Igreja de Nossa Senhora do Pópulo.» E acrescenta: «O Dr. João Francisco da Silva Crespo nasceu em 1795, pelo que teria, em 1810, apenas 15 anos, e faleceu em Agosto de 1836, com a idade de 41 anos, como aliás sempre ouvimos dizer, deixando a filha adoptiva, com a idade de 7 ou 8 anos, entregue às suas duas tias (…).» Fica, pois, em dúvida: se era “filha de pais incógnitos”, como indica o assento de baptismo; se era “filha natural, consta, do doutor médico João Francisco da Silva Crespo”, como se lê no assento de óbito (o mais verosímil); ou se era apenas “filha adoptiva”.

Seja como for, acrescenta o Dr. Luís Lourenço, «em Regueira de Pontes viveu com as duas tias, irmãs de seu pai, as quais lhe deixaram uma incalculável fortuna, que soube repartir pelos pobres e pela Igreja».

Possuindo casa na cidade de Leiria, onde vivia esporadicamente, foi em Regueira de Pontes que passou a maior parte da sua vida, sempre solteira, e onde construiu uma grande mansão e cómodos agrícolas e pecuários de dimensão equivalente.

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Teve um papel crucial no acabamento e decoração da igreja de Regueira de Pontes. Na 2.ª edição do Couseiro, de 1898 (transcrição Textiverso, 2011, p. 190), pode ler-se o seguinte: «No dia 24 de Dezembro último, tinha falecido o membro da irmandade Crespos, e nele mesmo toda a colossal fortuna dessa opulenta família veio ter, por herança, às mãos e domínio da sr.ª D. Júlia das Dores da Silva Crespo, vizinha dessa igreja (…). Essa sr.ª D. Júlia manifesta a sua piedade, prontificando o seu dinheiro [para as obras da igreja] (…).» E lê-se mais: «Ora, agora a torre do sul já existia, bem como o frontispício, e a outra já estava edificada até ao beirado (tendo porém agora, nos dizem, recebido por dentro paredes de reforço), sendo só agora acabada. Porém, tudo mais que a igreja oferece à vista por dentro, ou seja, de madeira, como altares (5), gradinhas, portas, soalhos, lajeamentos (que não são de madeira), seja de gesso, como o tecto e suas colunas fingidas, sejam pinturas a óleo, ou objectos dourados, como esse altar-mor, etc., são obras de agora, bem como dois sinos e relógio, a que acrescentamos algumas alfaias de prata e esses paramentos; tudo pago à custa dessa Senhora e sem contar as madeiras vindas dos seus pinhais.» Estamos na década de 80 do século XIX, e quando se perguntou a D. Júlia qual a quantia de dinheiro que então gastou com a igreja, «passados dias respondeu que, se não chegou a 11 contos de réis, pouco lhe faltou!! É que essa senhora, propondo-se a revestir a sua igreja, não o fez com esse grosseiro e escasso fim com que se socorre a donzela pobre; revestiu-a de sobejas sedas e carregou-a de galas e jóias, e por isso com magnificência, como se fosse uma rainha pronta a aparecer ao público».

Na parede exterior da igreja está uma lápide com um texto em latim que significa o seguinte, segundo o Couseiro: «Tendo a sr.ª D. Júlia das Dores da Silva Crespo sido tão benéfica para com este templo, que, achando-se ele já mal seguro em razão da sua muita idade (67), reparou-o, e com vantagem para ele, à sua custa, depois o embelezou e com esplendor, dotou-o de três imagens e várias alfaias (68); das suas duas torres, uma edificou-a desde os alicerces, e outra, acabou (69), dotando-as de dois sinos novos e um relógio; o povo desta freguesia, em agradecimento à mesma sr.ª por tudo isto, colocou aqui este monumento aos 7 de Julho de 1880 (70).» Nas notas pode ler-se o seguinte: (67)- A igreja estava muito segura ainda. (68)- Faltam os ricos paramentos. (69)- Não edificou nenhuma mas, uma, só a acabou e lhe fez o que já disse. (70)- Nesse dia 7, as imagens, depois de benzidas na capela dessa senhora, vieram em procissão para a igreja, e também se benzeram os sinos. Seguiu-se a missa cantada a música e Te Deum e em tudo oficiou a mesma autoridade eclesiástica, Dr. António Ferreira Miranda, que tanto tinha de sábio como de ilustrado; depois do que ela (a senhora) ofereceu lauto jantar às pessoas das suas relações e a todo o clérigo que tinha concorrido à igreja, para a qual tinha mandado convidar a todos das freguesias circunvizinhas. À noite houve variadíssimo fogo preso e música.»

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Mas D. Júlia Crespo teve ainda um papel importante noutra construção de carácter religioso – a igreja e convento da Portela, em Leiria. Lê-se também, transcrito, no livro de Luís Lourenço: «Com desvelada consideração pelos Franciscanos, presentes em Leiria desde as primeiras décadas do século XIII, vendo as precárias condições em que viviam na cidade e se achava, já então, a Igreja e respectivo antigo Convento, adquiriu o terreno, onde, à Portela, os invasores franceses haviam causado horrível mortandade entre os rapazes e homens da cidade que os enfrentaram no ano de 1808. // D. Júlia das Dores da Silva Crespo adquiriu-o e, sobre ele, fez erguer o actual convento e Igreja, numa colaboração valiosíssima, iniciando-se os caboucos em 17 de Novembro de 1902 e lançando-se a primeira pedra no dia 26 de Fevereiro do ano seguinte. // Não se concluiu, então toda a obra, porque os Franciscanos foram expulsos de Portugal em 1910, com a implantação da República. A morte desta benfeitora impediu, temos ouvido dizer, a construção da torre frontal, mas o lindo e artístico tecto, em madeira de riga, único no nosso país, assinala ainda a sua generosidade entre nós, sem a qual os Franciscanos talvez não tivessem podido regressar ao meio leiriense para continuarem a sua prestimosa actividade (…)»

2018-09-18 100 43c2Note-se que, no portão de ferro forjado que dá acesso à igreja da Portela, se encontra o monograma JC, que nem toda a gente identifica, julgando talvez que se trata de uma alusão a Jesus Cristo. Na verdade, ele significa “Júlia Crespo” e regista a acção beneficente de uma senhora que, não tendo chegado à República nem à restauração do Bispado, deixou para os vindouros pelo menos duas obras de vulto, em Regueira de Pontes e em Leiria, que deixaram o Bispado e os seus fregueses mais ricos em termos patrimoniais.

Elementos recolhidos por Carlos Fernandes

 


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