23.º Dia Mundial do Doente: Sabedoria do coração é servir o irmão

A Igreja celebra o Dia Mundial do Doente, desde 1992, a 11 de Fevereiro, festa de Nossa Senhora de Lurdes. A esse propósito, apresentamos a mensagem do Papa Francisco e recolhemos alguns testemunhos de quem tenta praticar a “sabedoria do coração” de que nos fala.

 

 

 

“Sapientia cordis”

Em cada ano, o Santo Padre publica uma mensagem com o tema comum e algumas pistas de reflexão sobre esta temática e as suas implicações na pastoral da Igreja e na vida concreta dos cristãos. Para 2015, essa mensagem centra-se na expressão “Sapientia cordis” (sabedoria do coração), partindo da citação bíblica de Job 29, 15: “Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo”.

“Esta sabedoria não é um conhecimento teórico, abstrato, fruto de raciocínios”, começa por referir o Papa Francisco, “mas uma disposição infundida pelo Espírito Santo na mente e no coração de quem sabe abrir-se ao sofrimento dos irmãos e neles reconhece a imagem de Deus”. Neste contexto de acompanhamento dos doentes, “sabedoria do coração é servir o irmão”, resume.

Continuando com o exemplo de Job, que colocava todo o seu ser ao serviço dos mais necessitados, “também hoje quantos cristãos dão testemunho – não com as palavras mas com a sua vida radicada numa fé genuína – de ser «os olhos do cego» e «os pés para o coxo»”, escreve o Papa. E aponta concretamente as “pessoas que permanecem junto dos doentes que precisam de assistência contínua, de ajuda para se lavarem, vestirem e alimentarem”, um serviço que “pode tornar-se cansativo e pesado”, sobretudo quando se prolonga por meses ou anos.

Esse é, de facto, um “caminho de santificação” e “um tempo santo”. Por isso, devemos pedir “ao Espírito Santo que nos conceda a graça de compreender o valor do acompanhamento, muitas vezes silencioso, que nos leva a dedicar tempo a estas irmãs e a estes irmãos que, graças à nossa proximidade e ao nosso afeto, se sentem mais amados e confortados”.

A “mentira” da «qualidade de vida»

O Papa alerta também para a “grande mentira que se esconde por trás de certas expressões que insistem muito sobre a «qualidade da vida» para fazer crer que as vidas gravemente afetadas pela doença não mereceriam ser vividas”. Criticando uma sociedade em que vivemos “obcecados pela rapidez, pelo frenesim do fazer e do produzir” e “esquecemos a dimensão da gratuitidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro”, considera que também os cristãos podem padecer dessa mentalidade, se tiverem “uma fé morna, que esqueceu a palavra do Senhor que diz: «a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40)”. E lembra a «absoluta prioridade da “saída de si próprio para o irmão”, como um dos dois mandamentos principais que fundamentam toda a norma moral e como o sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta à doação absolutamente gratuita de Deus», como escrevia na exortação apostólica “A alegria do Evangelho”.

Sem julgamentos

Uma das condições para este serviço é o tempo, ter “tempo para cuidar dos doentes e tempo para os visitar”, para “estar junto deles”. Isso tinham feito também os amigos de Job (2, 13), durante sete dias e sete noites, mas cometeram o erro de esconder “um juízo negativo acerca dele: pensavam que a sua infelicidade fosse o castigo de Deus por alguma culpa sua”. Ora, “a verdadeira caridade é partilha que não julga, que não tem a pretensão de converter o outro; está livre daquela falsa humildade que, fundamentalmente, busca aprovação e se compraz com o bem realizado”, alerta o Santo Padre.

O segredo para compreender a doença só se descobre autenticamente na Cruz de Jesus, “ato supremo de solidariedade de Deus para connosco, totalmente gratuito, totalmente misericordioso”. É aceitando a doença nessa perspetiva que ela poderá “tornar-se lugar privilegiado da transmissão da graça e fonte para adquirir e fortalecer a «sapientia cordis»”.

Esse é um outro desafio para os cristãos, conclui o Papa Francisco: “Também as pessoas imersas no mistério do sofrimento e da dor, se acolhido na fé, podem tornar-se testemunhas vivas duma fé que permite abraçar o próprio sofrimento, ainda que o homem não seja capaz, pela sua própria inteligência, de o compreender até ao fundo”.

Luís Miguel Ferraz | Presente Leiria-Fátima

 

Testemunhos do “cuidar” no HSA

 

A grande doença dos nossos dias é a solidão

2015-02-05 doente2Entrei como capelão no Hospital de Santo André (HSA), em Leiria, no passado dia 14 de Setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz. Por coincidência ou não, o sentido desta festa litúrgica marcará sempre o horizonte do meu serviço: a cruz da dor e do sofrimento pode ser caminho para chegar até Deus. Este caminho pode ser mais longo ou mais breve, mais sereno ou mais revoltado, mais acolhido ou mais rejeitado. Quando subo e desço diariamente as escadas ou o elevador, com frequência me ocorre pensar que a nossa vida é assim feita: de subidas e descidas, de decisões e hesitações. O importante é não fazer o caminho só. A grande doença dos nossos dias é a solidão.

Como padre capelão hospitalar, a minha missão é oferecer assistência espiritual a todos os que o solicitem. Pela presença, pela escuta, pelo olhar, por uma palavra de esperança, assim vou passando os dias junto de quem sofre. No seu sofrimento contemplo o meu. Nas suas feridas, como o Bom Samaritano da parábola evangélica, sou chamado a derramar “o óleo da consolação e o vinho da esperança”. Em cada doente ver um irmão que precisa de apoio, porventura, na última etapa da vida.

Chego ao final do dia, com frequência, esgotado mentalmente. Gerir bem o que dizemos a cada um, gerir bem o que cada um nos diz, doentes e profissionais de saúde, nem sempre é tarefa fácil. Ajudar a limpar as lágrimas de quem sofre, doente e familiares, arrancar um sorriso e um brilho de esperança a quem já nada esperava é uma conquista. A luz da Páscoa que levo a cada um ilumina-me os passos e aponta-me o caminho. Agradeço a Deus este trabalho. Tocar no sofrimento do irmão ajuda a curar o meu. Damos, mas recebemos cem vezes mais.

P. Pedro Viva, capelão do HSA

 

“O voluntário dá-se, ama, serve”

2015-02-05 doente3O Dia Mundial do Doente é uma oportunidade especial para pensarmos e vivermos empenhadamente a nossa missão de voluntários na área da Saúde. Este ano, gostaria que todos o fizéssemos na perspetiva que nos aponta o Santo Padre: “acolher e fazer crescer em nós a verdadeira sabedoria do coração”.

Ser voluntário no campo da saúde é exigente! É que este sector do voluntariado é sobretudo, e mais do que os outros, moldado pelas emoções e pelos afetos que temos de saber ultrapassar, para nos podermos abrir aos outros e aos seus problemas, sem reservas.

Temos de procurar entrar nos seus dramas, intuindo quais os principais fatores de sofrimento e tentando ser fonte de segurança, coragem, esperança, uma presença amiga… Estar presente sempre que for preciso! Não é fácil, mas é possível, como nos mostram tantos testemunhos de pessoas que a isso se dedicam.

Ser voluntário é estar atento a si próprio, aos outros e a tudo o que o rodeia. É um desafio que vale a pena.

Todos os anos, neste Dia Mundial do Doente, um grupo de voluntários percorre todo o Hospital, oferecendo a cada doente internado uma pequena lembrança e a nossa solidariedade! São sempre à volta de 300 doentes. E este ano lá estaremos! Com as nossas lembranças, mas também com a nossa presença, com o nosso sorriso, a nossa amizade e doação total.

E sabemos que voltaremos de alma cheia… de sorrisos, de alegrias, de gratidão…! Por isso, o nosso lema é e será sempre: “O voluntário dá-se, ama, serve”

Teresa Gallo, coordenadora do voluntariado do HSA

 

É Ele quem deve “aparecer”

2015-02-05 doente4Gostaria de olhar nos olhos de cada leitor para lhe transmitir a alegria que sinto em partilhar este simples testemunho do que me faz experimentar o amor de Deus, através dos meus irmãos.

É na disponibilidade e na alegria do encontro que, aos domingos e quintas-feiras, faço visitas e levo a Sagrada Comunhão aos idosos de São Romão e aos doentes do Hospital de Santo André. Peço sempre a graça de Deus para os servir como quem serve a Cristo, vendo, pela fé, o rosto de Cristo no rosto de cada um. É uma graça sentir o ardor do meu coração passar para os meus gestos e ser instrumento de Deus para as pessoas. Como é importante o acompanhamento, a presença muitas vezes silenciosa e a atenção às pequenas necessidades, numa proximidade de afeto que faz com que se sintam mais amados e confortados. E como é gratificante transmitir o carinho que sinto pelos idosos e doentes através do olhar, da escuta, dos gestos, do meu modo simples de acolher a todos e, principalmente, ao levar-lhes Jesus na Eucaristia!

O tempo que dedico a estar com essas pessoas é também uma graça e um caminho de santidade para mim, pois elas evangelizam-me com os seus testemunhos, conduzindo-me mais e mais para Deus. Sobretudo, por ver tantos que oferecem as suas dores em reparação pelos pecadores, testemunhas vivas de uma fé que permite abraçar o próprio sofrimento.

O grande desafio que assumo é o de João Batista: “É preciso que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30), procurando ser coerente no que digo e no que faço, ser testemunha da presença e ação de Deus na minha vida. Nem sempre conseguimos viver tudo o que dizemos, mas sentimos que a bondade de Deus age por meio de nós, tocando e transformando a vida das pessoas a partir do nosso testemunho. Portanto, quero ser discreta em receber e em dar Jesus aos meus irmãos, pois é Ele quem deve “aparecer”.

Irmã Maricélia Alves Galindo, ministra da Comunhão e visitadora no HSA

 

Testemunhos do “cuidar” no CHNSC

 

Ser o “ombro amigo”

2015-02-05 doente5Tal como existe no Hospital de Santo André e em praticamente todos os espaços de internamento, também no recente Centro Hospitalar de Nossa Senhora da Conceição (CHNSC), da Santa Casa da Misericórdia da Batalha, se constituiu um grupo de voluntariado católico. São 32 mulheres e 7 homens que prestam ajuda aos vários serviços, desde o apoio diário no transporte dos utentes da Unidade de Cuidados Continuados para a fisioterapia ou na distribuição das refeições, até à dinamização de celebrações litúrgicas e à realização de atividades lúdicas, como teatro, música, artesanato, etc.

Como explica a coordenadora do grupo, Cecília Calé, este trabalho de voluntário “é uma forma de viver mais preenchida com aquilo que realmente é importante, o dar sem esperar nada em troca”. E não uma “mera ação motora e física, mas o dar a mão a quem não a consegue mover, dar os pés a quem não consegue andar, dar carinho a quem está carente, ou seja, ser o ombro amigo, o apoio, o sorriso, a força e a disponibilidade, quando esta falta aos utentes em recuperação”.

 

Caminho verdadeiro da felicidade

Ser voluntária na Unidade de Cuidados Continuados é poder contribuir para que os utentes se possam sentir melhor. É para mim uma grande alegria saber que posso ser útil no seu tratamento com um carinho, com uma brincadeira, ouvir os seus desabafos, dar-lhe uma palavra amiga, um pouco do meu tempo, que por vezes, infelizmente, é negado pela família do doente.

Para mim, o voluntariado é o caminho verdadeiro da felicidade. É tão pouco aquilo que dou, em troca de tanto que recebo deles!!! Aquele olhar, aquela lágrima, aquele sorriso… não mais se esquecem!

Cecília Calé, coordenadora do voluntariado no CHNSC

 

Disponibilidade para gestos simples

2015-02-05 doente6Como católicas, sentimos o dever de ajudar os que estão privados do seu lar, dadas as suas limitações. Na disponibilidade para gestos simples, como ao dar-lhes as refeições, podemos transmitir-lhes um pouco de afeto.

Quando nos reformámos, já tínhamos traçado este objetivo e é muito gratificante podermos ainda dar o melhor de nós. Por outro lado, verificamos que quando damos, ou nos damos, mesmo que não nos apercebamos imediatamente disso, recebemos sempre muito mais!”.

Isabel Caldeira e Adélia Laranjeiro, voluntárias no CHNSC

 

Celebração no Santuário de Fátima

O Dia Mundial do Doente será também assinalado pelo Santuário de Fátima, com um programa especial de oração e celebração neste dia 11 de fevereiro. Sob o título “Santificados em Cristo”, tema que marca o corrente ano pastoral, o programa será o seguinte:

14h00 – Rosário, na Capelinha das Aparições.

15h00 – Conferência, na Basílica da Santíssima Trindade.

15h30 – Preparação da Unção dos Doentes.

16h15 – Missa, com Unção dos Doentes, na Basílica da Santíssima Trindade.

 

Oração para o Dia do Doente em 2015

Pai santo, cada pessoa humana é preciosa aos vossos olhos.

Nós vos pedimos: abençoai os que a Vós,

única fonte de vida e de salvação,

se dirigem com toda a confiança.

Vós que em Jesus Cristo, o Homem novo,

trouxestes a todos a alegria do Evangelho,

apoiai-nos no nosso caminho,

e em particular àqueles que atravessam situações mais difíceis.

Amor eterno, dai um novo olhar aos que acompanham os doentes:

que saibam neles contemplar o rosto do vosso Filho

e servir com amor a sua dignidade.

E Vós, Maria, Sede da Sabedoria,

intercedei como nossa Mãe por todos os doentes

e por quantos cuidam deles.

Fazei que possamos, no serviço ao próximo sofredor

e através da própria experiência do sofrimento,

acolher e fazer crescer em nós a verdadeira sabedoria do coração.

Ámen.

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