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44 - Monsenhor António Antunes Borges – o diplomata

Categoria: Notícias
Criado em 11-10-2018

António Antunes Borges nasceu no lugar e freguesia da Barreira, concelho e diocese de Leiria, no dia 1 de Fevereiro de 1910, filho de Joaquim Antunes e de Maria Emília. Camareiro Secreto de Pio XII e Reitor do Santuário de Fátima, foi também Consultor Adjunto da Embaixada de Portugal junto da Santa Sé, aí manifestando os seus grandes dotes de diplomata.

Cursou preparatórios no seminário diocesano de Leiria, entre 1924 e 1930. Prosseguiu nos estudos eclesiásticos em Roma, para onde seguiu em Outubro deste último ano, na companhia do seu condiscípulo Luís Confraria Portela, e aí se formou “in utroque”, na Pontifícia Universidade Gregoriana e como aluno do Pontifício Colégio Português da Cidade. Em Roma se veio a ordenar de presbítero em 19 de Dezembro de 1936.

«Foram muitos e importantes os cargos por ele desempenhados, em todo o tempo da sua vida sacerdotal, com uma óptima folha de serviços prestados à Igreja, à Diocese e à Cultura Nacional, tanto por cá como em Roma» – escreveu o Padre José Fernandes de Almeida, seu velho amigo, de quem aproveitamos a seguir outras informações.

Entrou para o Seminário de Leiria a 16 de Outubro de 1924. No fim do quinto ano, o bispo D. José Alves Correia da Silva determinou que fosse para Roma para completar os estudos na Universidade Gregoriana. E no dia 20 de Outubro de 1930, de manhãzinha cedo, partiu de Leiria com destino a Roma. Consigo seguiu o Padre Luís Gonzaga da Fonseca, que deveria ser o seu director espiritual durante todo o tempo de Roma. A 25 de Outubro de manhã, chegaram às portas de Roma. Pouco depois estavam no Colégio Português. Era então Reitor Mons. Porfírio Cordeiro e Vice-Reitor o Dr. Teodósio Clemente Gouveia, que mais tarde foi nomeado Reitor, e em 1935 foi sagrado Bispo de Moçambique.

Antunes Borges fez o curso ordinário de Filosofia em três anos, inscrevendo-se em seguida na Faculdade de Teologia que cursou durante quatro anos. No segundo ano de Teologia, a 17 de Fevereiro de 1935, recebeu a Prima Tonsura na Igreja do Seminário Romano maior. E a 13 de Dezembro de 1936, recebeu o Presbiterado, na Basílica de S. João de Latrão, sendo Ordenante Mons. Vicente Migliorelli.

Finalmente, rezou a sua Missa Nova no dia de Natal de 1936, à meia-noite, no altar de Nossa Senhora de Fátima, terminando o curso Teológico a 30 de Junho de 1937, dia em que fez o exame de Universa Theologia.

O reconhecimento das qualidades do novo sacerdote levaram à sua nomeação para vice-reitor do Pontifício Colégio Português de Roma, funções que desempenhará até 1939, ano em que foi chamado para leccionar Filosofia e Teologia no Seminário Maior de Leiria, que acumula com a função de ecónomo.

Mais tarde, quando o Externato de D. Dinis de Leiria foi adquirido pelo Cabido, foi nomeado seu Director, até 1953. Paralelamente,foi ainda professor de Moral do Liceu de Rodrigues Lobo.

Por Provisão de 20 de Junho de 1943, o Bispo de Leiria instituiu o Cabido da sua Catedral e, para preencher a vaga deixada pelo falecimento do Rev. Joaquim José Carvalho, Antunes Borges foi nomeado cónego da Sé Catedral de Leiria, cargo de que tomou posse em 31 de Dezembro desse ano. Foi também examinador e juiz sinodal.

Dez anos depois, pelo Diário do Governo de 19 de Maio de 1953, foi nomeado Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, função que desempenhou até Julho de 1959.

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Mons. Borges (último à direita) em audiência com o Papa João XXIII em Fevereiro de 1959

Entretanto, a Santa Sé quis distingui-lo com a dignidade de Camareiro Secreto do Papa Pio XII, honra que recebeu nova amplitude com a nomeação de Mons. Borges para Prelado Doméstico de Sua Santidade. E a Embaixada de Portugal junto da Santa Sé, apercebendo-se do seu tacto diplomático, nomeou-o seu Consultor Adjunto.

Em agosto de 1959 foi chamado pelo novo Bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio, para assumir distintas funções e responsabilidades na Diocese: por Provisão sua, de 13 de Agosto de 1959, Mons. Doutor António Antunes Borges foi investido no cargo de Reitor do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que desempenhará durante 11 anos, até 1970. Justamente em Fátima, no início deste período, celebrou as suas Bodas de Prata sacerdotais. Em 1967, ano do cinquentenário das Aparições, foi alvo de uma homenagem, extensiva aos três anteriores reitores do Santuário.

No fim das cerimónias da peregrinação de 13 de Outubro de 1970, o Senhor Bispo de Leiria anunciou publicamente que, acedendo ao pedido do Episcopado Português e ao convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Monsenhor António Antunes Borges iria voltar para Roma onde retomaria o alto cargo de Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses e de Consultor Adjunto da Embaixada de Portugal junto do Vaticano, cargos que exercia antes de iniciar o cargo de Reitor do Santuário da Fátima.

No dia 25 de Outubro de 1970, a encerrar o período que esteve à frente do Santuário de Fátima, os Servitas de Nossa Senhora da Fátima prestaram-lhe calorosa homenagem no Santuário (na foto no topo do artigo, Monsenhor Borges agradece essa homenagem).

Já em Roma, e ao fim de cinco anos, por sua solicitação, é-lhe concedida exoneração do cargo de Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses, regressando a Leiria em Março de 1975, sendo de imediato nomeado Vigário-Geral da Diocese pelo Bispo D. Alberto Cosme do Amaral. E, em Outubro do mesmo ano, foi nomeado vice-oficial da Cúria.

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Monsenhor Borges em audiência com o Papa Paulo VI em 7 de Junho de 1973

Depois da sua exoneração do cargo de vigário geral, em 1979, Mons. Borges retirou-se definitivamente para a casa que mandara construir na Barreira, sua terra natal, aí se entregando à continuação de estudos de investigação e preparação de publicações de história e outras que tinha entre mãos.

A este propósito, vale a pena referir uma missiva enviada por Mons. Antunes Borges ao jornal “O Mensageiro” relativa à notícia de publicação próxima de notas que completavam e por vezes contrariavam o que o “Couseiro” publica. Podemos constatar alguma desilusão por, após seis anos do seu regresso, continuar com falta de tempo para dar corpo ao que considerava importante:

«Bem haja pela promessa da publicação de notas preparatórias para uma próxima futura edição do “Couseiro”. // É com profundas saudades que toco, de vez em quando, nos documentos da história das nossas relações com a Santa Sé, trazidos dos arquivos do Vaticano, desse manancial inesgotável, onde é indispensável ir para se escreverem as páginas gloriosas da história da Igreja em Portugal espalhado pelas cinco partes do mundo. // A própria história do Portugal cristão e missionário só poderá ser conhecida suficientemente quando ali se for levantar do esquecimento aqueles preciosos documentos, tanto mais que muitos dos nossos arquivos ficaram grandemente lesados com o terramoto do século XVIII e com os assaltos às bibliotecas dos conventos no século seguinte e com o advento da república. // (…) Repassando mais uma vez, depois de tantas outras, nos pedaços de repouso da vida de cada dia, as fotocópias desses documentos, revia a figura de D. João V, essa tão discutida figura, que ainda hoje está muito longe de ser apresentada nas suas verdadeiras e reais facetas, sobretudo no que respeita às suas relações com a Santa Sé. // Creio que ninguém conseguiu penetrar tão profundamente no seu íntimo como o Papa Bento XIV, apesar de o ter conhecido apenas através da múltipla correspondência que com ele teve desde os princípios da sua eleição papal, em Agosto de 1740, e por meio das informações da Nunciatura. // Nas 51 cartas entre o Soberano Português e o Papa que foi possível coligir, tratam-se os assuntos mais diversos que então se debatiam não só acerca da vida religiosa do Reino e seus domínios como das questões que então angustiavam a Sé Apostólica nas suas relações com os países católicos da Europa. // Estes documentos dão-nos uma ideia bastante precisa e clara sobre as razões de ser das concessões feitas por Bento XIV à Sé Patriarcal de Lisboa e explicam o porquê do título de Rei Fidelíssimo a D. João V e seus sucessores. (…)»

Mas, reduzido à vida privada, Monsenhor Borges entrou rapidamente em crise de saúde, vítima de total invalidez, causada por um colapso mental de amnésia, que o reteve em sua casa, estranho ao convívio dos familiares e amigos. Faleceu em 9 de Outubro de 1986, na sua casa na Barreira, praticamente a dois meses de celebrar as suas Bodas de Ouro Sacerdotais.

O P. Fernandes de Almeida sublinha também o apreço em que era tido no Vaticano: «A Santa Sé, conhecedora dos seus méritos e valiosos trabalhos, agraciou-o com título honorífico de “Monsenhor”. E faz considerações muito elogiosas sobre o carácter intelectual deste seu amigo: «Possuidor de uma cultura sólida e vasta, profana e sagrada, soube aproveitar a sua presença em Roma para se pôr em contacto com os Arquivos do Vaticano e do Instituto de S. António dos Portugueses, investigando fontes de extraordinário valor e em boa parte inéditas, para a história da Igreja em Portugal. Marcou assim posição honrosa entre os melhores investigadores da historiografia nacional, colaborando em jornais e revistas, que muito apreciavam os seus trabalhos.»

É, de facto, curioso que Monsenhor Antunes Borges, tendo feito tanta investigação em vastos domínios, e tendo publicado em tantos jornais e revistas, nunca tenha procedido à edição de qualquer livro. Para além da colaboração em diversos órgãos de comunicação, Monsenhor Antunes Borges tinha entre mãos muitos outros escritos que infelizmente terão desaparecido, nomeadamente, segundo os seus familiares, um estudo histórico sobre as relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé.

Refira-se também que está para breve a edição de um livro sobre a vida e obra de Monsenhor Antunes Borges, de cuja matriz bebemos também algumas informações aqui plasmadas e retirámos as fotos que aqui se juntam, o que antecipadamente se agradece à família.

Mas vejamos os principais assuntos estudados e publicados avulso em jornais e revistas, alguns de considerável dimensão e profundidade, atestando os conhecimentos, a enorme capacidade de investigação e a invulgar prestação de Monsenhor Antunes Borges, enquanto homem e sacerdote, na representação da sua Diocese e do País junto da Santa Sé, como diplomata de inquestionáveis créditos:

- A Realeza de Maria à luz da História [Lumen Vol. XVIII, n.° 11, Nov./1954];

- Verney visto através de alguns dos seus papéis [11 artigos no Novidades n.ºs 5 (3-02-1957) a 35 (29-09-1957)];

- Provisão dos bispados e concílio nacional no reinado de D. João IV (Caps. I, II e III) [Lusitania Sacra, Tomo II, 1957, e Tomo III, 1958];

- Do Galicanismo de Luiz XIV ao Regalismo de D. João V [Lumen Vol. XXIII, Fasc. VI, Jun./1959];

- Para a história das fotografias dos videntes de Fátima [3 artigos na Stella n.ºs 276 (13-18-1960) a 279 (13-11-1960)];

- Aditamentos ao “Couseiro”[O Mensageiro n.º 2502 (16-12-1965)];

- “Duas Palavras de Abertura” [prefácio a Oito dias com as videntes da Cova da Iria em 1917, de Alfredo de Matos (Edição do autor / Gráfica de Leiria, 1968)];

- Apontamentos para a História da Diocese de Leiria: As primeiras constituições do bispado [8 artigos em A Voz do Domingo n.ºs 1846 (18-08-1968) a 1886 (25-05-1969)];

- El-rei D. José e o Marquês de Pombal vistos de Roma à luz de dois séculos [Resistência, Vol. X, n.ºs 157/160, 1977];

- D. Maria I e a demissão do Marquês de Pombal [Resistência n.ºs 207/208/209, 1980]. 


Elementos recolhidos por Carlos Fernandes


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