"A igreja resgata almas e corações"
Diocese e Vigararia de Ourém reúnem com autarcas
O Bispo da Diocese de Leiria-Fátima, D. António Marto, participou no encontro das autarquias locais organizado pela Vigararia de Ourém, no passado dia 20 de abril, no Centro Pastoral de Gondemaria, no âmbito do Ano Pastoral “Testemunhas de Cristo no Mundo”. Os relatos mostraram que é possível estar presente nas diversas realidades, até na política, levando aí os valores do Evangelho.
O Pároco de Gondemaria, António Lopes, na qualidade de sacerdote anfitrião, foi o primeiro a usar da palavra nos trabalhos que se iram prolongar noite fora, dizendo, ao citar uma declaração do episcopado italiano, sobre os cristãos e a vida pública, que «a Igreja não está subordinada no campo religioso e moral à comunidade política, nem esta está subordinada no campo propriamente político e social à Igreja. Isto não significa que as duas comunidades não se devam encontrar. Porque ambas, embora a títulos diferentes, estão ao serviço da vocação pessoal e social das mesmas pessoas humanas, isto é, encontram-se no mesmo homem que elas servem, para o ajudarem a aperfeiçoar-se humanamente.»
O vigário de Ourém, Pe. José Luís, mencionou a decisão dos párocos da vigararia em reunir com autarcas e ex-autarcas, na «busca de caminhos que nos possam incentivar a descobrir a melhor maneira de sermos resposta ao convite que, no contexto do tema deste Ano Pastoral, Jesus nos faz: “ Brilhe a vossa luz, diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus».
O testemunho dos oradores convidados teve início com a Presidente da Assembleia Municipal para quem a religião ensina a justiça, a solidariedade e «nos dá força para lutar para que o irmão que está ao lado possa ultrapassar as dificuldades». Deolinda Simões reforçou que a força que vem de cima, o «Pilar de Deus», deve orientar os autarcas que se dedicam «verdadeiramente» à comunidade.
Para o Secretário do Vice-Presidente da Câmara Municipal, «autarcas e igreja devem estar unidos na mudança do mundo» e a «doutrina social da igreja é estímulo e guia para caminhar nas soluções». José Fernandes realçou que a política deve ser atividade nobre, «desde que orientada à pessoa humana».
A intervenção de Lucinda Batista, ex-membro da Assembleia de Freguesia de Urqueira, centrou-se no serviço à comunidade e aos outros, como essência da «caridade». O relato da sua experiência de vida cristã colocou ênfase nas responsabilidades de ser catequista e médica de família, duas funções desempenhadas em locais diferentes, mas como o mesmo tronco comum de «serviço à comunidade nos preceitos da fé cristã».
O Presidente da Junta de Freguesia de Seiça, acredita que «com fé, perseverança e a ajuda de Deus» os objetivos de serviço público podem ser atingidos. Referindo-se à realidade portuguesa do «estado laico para uma nação católica», José Custódio, que foi catequista em Seiça, destacou que a ação política tem de ter como objetivo principal os cidadãos, referindo que «sem pessoas não há desenvolvimento».
Na reflexão dirigida aos autarcas, o Bispo da Diocese começou por acentuar a fé cristã que não deve ser vivida «só dentro das quatro paredes da igreja, mas mover-se numa atitude de solidariedade, diálogo e compreensão». D. António Marto incentivou os cristãos a «viverem intensamente a colaboração com Deus na transformação do mundo» e a fazerem «o caminho da igreja, que é a pessoa humana, pela qual Cristo veio dar a sua vida». Frisou que se o estado é laico «não pode ser indiferente à religião» e que «é a sociedade civil que deve ser servida pelo estado e não o contrário». Afirmou que «a Doutrina Social da igreja e a preocupação pelo humanismo integral como consequência da Fé em Deus são absolutamente fundamentais para resolver os muitos problemas que atormentam as sociedades», exemplificando com a violência doméstica, a perda de confiança, a criminalidade, o vazio de valores e os muitos desertos que vão sobressaindo, como o da solidão e o do «vazio de almas e corações de quem perdeu até a noção do bem e do mal», existindo a igreja para «resgatar as pessoas destes desertos», porque a «religião abraça o homem e vai em seu socorro».
O prelado considerou que a política deve ser exercida com o sentimento de uma «forma nobre de caridade e amor fraterno», exigindo qualidades, virtudes e uma «consciência de servir o próximo e a comunidade, com competência, honestidade, justiça, transparência, atenção especial para com os mais necessitados e coerência de vida».
No final, os participantes tiveram oportunidade de desfrutar de um bom convívio.
Sérgio Francisco
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