"A seara há-de surgir, esperamos que o tempo ajude"
Entrevista ao pároco da Ortigosa, padre Alcides Rocha Neves, no âmbito da Visita Pastoral.
D. António Marto esteve em visita pastoral à paróquia da Ortigosa, nos dias 17 a 20 de Fevereiro. Em entrevista, o pároco, padre Alcides Rocha Neves, faz um balanço desta visita do bispo diocesano.
Que pensa desta iniciativa do Bispo diocesano de fazer uma visita pastoral a todas as paróquias?
A visita pastoral do nosso Bispo às paróquias é um regressar às raízes do cristianismo. Na continuação dos Doze, o Bispo sente a compaixão de Cristo pelas multidões e aproxima-se delas com o mesmo sentir, carinho, ternura e amor. E assim como Cristo se encontrava a sós com os vários grupos que tinha escolhido, a começar pelos Doze, os Setenta e Dois… para lhes dar a conhecer a razão de ser da sua vida e a sua ligação ao Pai, esclarecê-los do que tinham ouvido, parábolas e outros ensinamentos, confrontando-os com os seus defeitos e ambições humanas, não os iludindo mas preparando-os para o futuro dispostos a dar a vida por Jesus ao serviço do Evangelho, também o senhor Bispo hoje se encontra com os vários grupos organizados nas paróquias.
Os tempos e as pessoas são outros, mas parecidos. Como na altura, não nascemos santos nem sábios.
Olhando a realidade que nos cerca, verificamos que a Igreja que somos tem no seu seio mais pagãos baptizados do que cristãos convertidos, isto é, pessoas de coração à maneira de ser como o de Jesus.
Hoje há cristãos que foram feitos sem nunca se terem tornado efectivamente. Vivem na descrença e indiferença. Outros vivem apenas nas “obrigações religiosas”alicerçados nos costumes, modas e tradições. São religiosos mas não são cristãos.
Sejamos sinceros e não queiramos mentir a Deus: já não se é cristão por herança do passado, mas por um presente assumido. Ser cristão é tornar-se cristão. Parece que é tudo igual, mas não é igual.
E para lá chegar e sê-lo, de modo a levar uma vida consentânea com a fé?
Mais ou menos continuamente insatisfeitos, quem nos poderá satisfazer no cansaço, no abatimento, na procura progressiva, na descoberta, na aprendizagem, na aventura pessoal para regressar à verdade do Evangelho que nos liberta, poder entrar na esfera da existência de Deus e não ser “um escravo sem cadeias” como dizia Erch Fromn?
Continuo a acreditar no Bom Pastor e na compaixão pelas suas ovelhas e também naqueles que na peugada dos Apóstolos vão descobrindo Jesus Cristo como único Redentor e Salvador, por Ele se apaixonam e dispõem a dar a dar a vida para que outros tenham vida.
Como se preparou a comunidade para receber o Bispo?
Tudo depende da preparação. Conscientes desta realidade, reunimo-nos por grupos, as comissões das igrejas e cada um dos movimentos e daqui surgiram alguns elementos para formar uma equipa de preparação da visita pastoral. Também alguns elementos destes grupos e outros se prepararam espiritualmente, rezando à luz da Lectio Divina e aproximando-se do sacramento da reconciliação, fizeram-se lições apropriadas para os crismandos e seus pais e uma, para todos os catequistas, para que estes, por seu turno, a adaptassem a cada um dos anos da catequese.
Qual foi o critério na elaboração do programa?
Começou por se fazer um levantamento sócio-religioso da paróquia e perante o pouco espaço de tempo que nos restava, a partir das 18h30 dos dias 17 a 20 de Fevereiro e a noite do dia18 ocupada por um encontro marcado há meses com os grupos paroquiais da Pastoral Social da Vigararia no salão da igreja da Ortigosa, limitámo-nos ao essencial, na expectativa de surgir algum bocadinho livre, imediatamente a ser aproveitado noutra actividade que não constasse do programa, e assim aconteceu.
De forma geral, como decorreu a visita?
Muito bem. Desde o princípio, sempre viva e interessante. No decorrer destes quatro dias palpitou e tive presente uma frase de Jesus: “Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado!” (Lc12,49). Quando o terreno é bom e preparado e o semeador lança a semente da melhor qualidade a seara há-de surgir. Agora, esperamos que o tempo ajude.
Houve algum momento especial que queira destacar?
É difícil distinguir. Não deixo de salientar a comunicação viva e gestual do senhor Bispo com os meninos do 1º ao 6º ano da catequese, o encontro com os 80 casais, e duas visitas: à senhora acamada há 15 anos e à mais velha da freguesia, de 97 anos, ambas plenamente conscientes.
Qual a principal mensagem ou marca deixada por D. António?
Começo por uma frase que ouvi várias vezes: “Um Bispo simples e humilde sem motorista nem guarda-costas”.
A pergunta não é para fazer uma reportagem. Visto permanecer retida na minha mente uma boa parte da mensagem que o senhor Bispo nos trouxe, limito-me a alguns tópicos: “Venho até vós não como um turista que quer conhecer coisas novas, não como um médico que passa receitas e se vai embora, venho como peregrino que quer caminhar convosco”; “A paróquia é a Igreja de Deus no meio dos homens, deve viver a unidade na diversidade”; “Nesta Igreja cada um é uma pedra viva”; “A Igreja vive da Palavra de Deus que acolhe na fé”.
Também não deixo de salientar algumas indicações práticas: “Ponde todo o empenho na formação e aprofundamento da fé”; “Nós não podemos amar o que não conhecemos”; “Vivemos num mundo novo que nos levanta tantas questões e coloca dúvidas à nossa fé”; “ O maior inimigo da fé é a ignorância religiosa por parte dos cristãos”; “Perdemos o gosto de ter Deus connosco, não deixemos a fé morrer à fome”; “É necessária uma catequese /formação para todas as idades (crianças, jovens e adultos)”; ”Tende um grande amor e devoção à Celebração da Eucaristia Dominical”; “Acreditai que somos convidados e hóspedes do Senhor Jesus que quer fazer festa”; “Celebrai a presença de Cristo Ressuscitado que se dá em Comunhão”; “Cristo não tira nada mas dá-te tudo”; “ Abre-te à beleza do Evangelho. Renova a tua fé e dá testemunho de Cristo no mundo“.
Quais as expectativas criadas? Foi já definida alguma prioridade pastoral ou tomada alguma decisão em ordem à renovação da dinâmica paroquial?
Continuar a incrementar o que nos foi avivado.
Numa sociedade de mentalidade de descartável, em que parece ser mais fácil e mais barato comprar um novo, caindo nos problemas familiares em que vivemos imersos, apercebendo-nos dos ataques à família em várias frentes, sentindo necessidade de vencer uma mentalidade confusa de viver em amor, desejando uma relação feliz e duradoura como sonham os que querem viver e os que já vivem em matrimónio e que acham ser possível crescer nesta felicidade, espevitando cada um o dom de si mesmo, em reunião aberta a todos os paroquianos, após a visita pastoral, e na continuação do encontro do senhor Bispo com os casais, algumas pessoas já envolvidas na pastoral familiar prontificaram-se a convidar alguém para falar aos casais a fim de se ter tempo para os dois, sentir a companhia um do outro e continuar esta construção todos os dias.
Também e porque já antes da visita se tinha ventilado, alguns catequistas reafirmaram que continuavam dispostos a colaborar com os jovens após a catequese dos 10 anos e sacramento do crisma, ajudando-os na integração do grupo já existente em Riba d’Aves e no arranque de um novo grupo na Ortigosa.
Redacção O MENSAGEIRO
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