"Os políticos devem fazer um esforço para que as pessoas sejam e vivam como pessoas"
D. António Marto encontra-se com autarcas e dirigentes associativos
“Sr. Bispo, dirija-nos uma palavra de luz e de sabedoria, para que consigamos enfrentar estes tempos”, assim pediu uma dirigente associativa a D. António Marto, no encontro com 120 autarcas e dirigentes associativos da Vigararia de Colmeias, realizado no dia 12 de Janeiro na freguesia de Albergaria dos Doze, do concelho de Pombal, no termo da sua visita pastoral.
D. António Marto agradeceu a forma como foi recebido nas paróquias, sublinhando que dessa forma pôde estabelecer uma relação mais amistosa, compreendendo melhor as comunidades. Sobre os problemas da pobreza e de uma sociedade algo desregulada, disse que “não há verdadeira qualidade de vida sem uma vida de qualidade espiritual”. O Pastor afirmou que são estes valores que não se vendem, não têm preço nas bolsas. Lembrando que 2011 vai ser o Ano Europeu do Voluntariado e da Cidadania Activa, salientou a grande dificuldade em encontrar gente nova para servir os outros desinteressadamente.
Referindo-se às relações do Estado e da Igreja, num tempo de mais maturidade democrática, o Prelado recorda que devemos usar essa evolução neste tempo porque outrora se assistiu a tempos difíceis em que ou era a Igreja a ter supremacia em relação ao Estado ou vice-versa. “Hoje, entre Estado e a Igreja, existe diálogo, solidariedade e colaboração”, somando-se mais união e capacidade de resolução dos problemas.
D. António Marto citou a Constituição Pastoral da Igreja no Mundo Contemporâneo, do Concílio Vaticano II, frisando que “não há nada verdadeiramente humano que não tenha ressonância no coração dos cristãos”. Sobre o papel das autoridades civis, o Bispo toca numa das problemáticas do tempo contemporâneo. “A autoridade é um serviço e não uma afirmação de poder”, disse o Prelado, no sentido de sensibilizar para o facto das autoridades civis estarem a exigir demasiado às pessoas mas pouco as compreenderem. Neste sentido, o Bispo assume que “a Igreja não foi constituída para exercer poder, a razão da sua missão e competência não deve ser confundida ou ligada ao movimento político, mas é importante que ambos trabalhem pelo bem comum”.
Sobre o bem-estar e dimensão material, numa perspectiva de contextualizar os problemas em que vivemos, D. António Marto deixa pistas para identificação das suas causas e efeitos: “As pessoas estão a tornar-se muito financeiras e pouco humanas, resultando em desigualdades sociais, crescimento do egoísmo, aumento da criminalidade, violência doméstica e um abandono dos idosos”.
Alguns autarcas e dirigentes associativos deram de seguida os seus próprios testemunhos. Entre eles, o Presidente da Câmara de Pombal, Narciso Mota, lamentou o estado degradante do acesso ao primeiro emprego e a não existência de justiça social nas remunerações: é “preocupante e alarmante, porque vejo pessoas com empregos que ganham 250 euros e outras com ordenados de 100.000 euros, com a classe média a desaparecer”. Por este caminho, “o futuro que se apresenta vai dar origem à revolta de muitas pessoas”. Traçando o cenário actual do sistema político e dos seus resultados, disse de forma muito convicta: “a minha geração não está a saber conduzir os destinos do nosso País”, desabafou.
“Precisamos de uma nova liderança política, com outra visão, de maneira a conseguir-se uma regeneração da sociedade”, concluiu o Bispo D. António Marto.
Joaquim Santos
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