"A bancarrota ética levou-nos à bancarrota financeira"



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D. António Marto entre os empresários da Vigararia de Colmeias

 

A responsabilidade social das empresas foi o mote para um encontro de mais de uma centena de empresários da Vigararia de Colmeias, realizada na noite de 14 de Dezembro, no salão paroquial de Vermoil, no âmbito da visita pastoral de D. António Marto ao conjunto das oito paróquias que a constituem.


Ilídio da Mota, Presidente da Junta de Freguesia de Vermoil e também empresário, depois da apresentação de uns diapositivos que convidaram os participantes à reflexão sobre a importância da presença de Deus e das provas da sua existência, iniciou a sessão dando as boas vindas a D. António Marto, destacando que na sua visita pastoral, “os paroquianos ficaram maravilhados com a sua deslocação à Vigararia de Colmeias, localizada nos distritos de Santarém e de Leiria”.


Seguiu-se Manuel Sobreiro, mais um empresário de Vermoil, destacando na sua prelecção o registo muito positivo da vinda do Bispo, “num momento de crise e com tempos futuros que se avizinham que serão difíceis para todos”. O empreendedor sublinhou que na área da Vigararia existem 500 empresas que empregam 4000 trabalhadores, “sendo este factor determinante para garantir à região uma segurança e conforto às populações com o emprego, havendo aqui responsabilidades sociais no dia-a-dia”.


Rodrigues Marques, ex-deputado da Assembleia da República e actual empresário de Albergaria dos Doze, referiu a D. António Marto que este se encontrava perante um número significativo de empresários, destacando que “a grande dificuldade do Estado é não entender que não é possível distribuir riqueza se esta não for produzida”. Numa retórica sobre a situação actual do País, Rodrigues Marques afirmou que “este Estado, que já comeu os ovos, começou a comer a galinha, esquecendo que para voltar a ter ovos é preciso que as galinhas os ponham”.


A empresária Eugénia Mendes referiu que “uma empresa é uma comunidade de pessoas e essas pessoas não são máquinas ou números”. Afirmou que “é necessária uma responsabilidade social interna e externa, mesmo num tempo em que a tesouraria das empresas se encontra caótica”. Apontando o seu caso e outros que, assume que actualmente “já não existem discriminações das mulheres como gestoras, porque, para além da sua igual competência, ajudam a humanizar as empresas”.


Joaquim Santos, empresário de Colmeias e jornalista, falou sobre a possibilidade de reforço nas relações sociais entre a Igreja e as empresas como resposta eficaz às lacunas do Estado Português. Apontando caminhos possíveis, apresentou algumas directrizes que podem ser chave para minimizar efeitos da crise: “A Igreja Católica tem ‘saciado’ tanta gente de várias fomes: a espiritual e a de falta de pão. Tantas vezes desorientados, vejo seres que mendigam, esquecidos e ignorados, sendo a Igreja cada vez mais a porta aberta, o abraço amigo… Este triste cenário, tem sido cada vez mais uma realidade. Esta acção da Igreja, tem sido ajudada pelos empresários da Diocese. Se não temos massa política para dar novos rumos aos portugueses, Igreja e empresários, juntos, poderão ser um caminho possível para que consigamos sair do desnorte. Os empresários precisam da Fé da Igreja e de todos os seus serviços para promoverem melhor as suas actividades. A Igreja necessita das pessoas, dos empresários, para que exista com mais vigor. No fundo, todos precisamos de todos”, adiantou.


A experiência na primeira pessoa como empresário foi uma partilha de Adelino Abreu. Numa tentativa de mostrar que já antevia os momentos difíceis desta conjuntura económica, recordou que “já há muitos anos dizia que esta crise iria acontecer mais cedo ou mais tarde”. Neste contexto, reforçou que uma das formas de combate às dificuldades é “as empresas não terem apenas como objectivo o lucro”, sensibilizando igualmente para o facto de que “existem empresários que deveriam ser mais solidários e que não se pode pedir muito se pouco se produz”. Numa lógica concertada, Adelino Abreu só vê uma saída para este problema: “é importante debater o papel social de um conjunto bem identificado, empresários, funcionários, Estado e sindicatos”.


Acácio Lopes, da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, veio reforçar a necessidade de colocar Cristo no seio das empresas, melhorando as relações e até mesmo a capacidade dos empresários nos seus negócios mas também na sua dinâmica com a sociedade e os seus funcionários. Assumindo que “não há humanismo sem Deus”, este dinamizador associativo desvenda que “quando damos ao outro também estamos a receber em simultâneo, sendo Jesus uma das 'ferramentas' para resolver tantos problemas”.


D. António Marto, agradecendo estar entre as forças vivas da sociedade, assume que estava ali na condição de, também ele, um aprendiz, perante um conjunto alargado de empresários. Realçando que as empresas desempenham uma missão de bem-estar social, o Bispo de Leiria-Fátima destaca que a função de empresário consiste numa missão nobre mas exigente. Aqui, o Pastor desvenda que “uma família e uma empresa são células da sociedade”. Neste âmbito, disse que “é na responsabilidade social que podemos exercer as virtudes humanas e evangélicas, num momento muito difícil para o mundo, depois de uma década que se julgava impossível experimentar”.


Indicando o fenómeno das realidades das novas gerações e dos seus perigos para a humanidade, António Marto disse que, no âmbito financeiro, com as muitas mentiras que existiram nos mercados especulativos onde se gastava o que não se podia, “a globalização está desorientada, sem rosto e sem alma, aparecendo o mundo com um corpo de gigante mas com uma alma anã”, não podendo continuar a vigorar esta situação. Bastante incisivo e esclarecedor da sua visão dos dias difíceis que se vivem, o Bispo recorda que “a economia virtual que era uma mentira repercutiu-se agora na economia real, uma verdade difícil de aceitar para muitos”.


O Prelado não acha que as lamentações sejam parte da solução, sabendo que os portugueses devem perceber que “todos temos de mudar este momento historicamente difícil, onde os Governantes estão sem rumo, sem soluções à vista, precisando de se introduzir ética e valores”. É exactamente por esta razão que se pode afirmar que “a bancarrota ética levou-nos à bancarrota financeira”, adiantou o Bispo, que pediu mais ética nos mercados financeiros e uma nova cultura política.


Exactamente porque os portugueses se encontrarem a viver acima das suas reais possibilidades, Igreja e empresários podem ser em conjunto a solução de um problema que se agrava de forma galopante. Neste campo de acção, D. António Marto declarou aos presentes que “a Igreja tem um papel de interpelação e sensibilização das consciências”.


No final houve um espaço de debate entre todos os participantes e a ‘oração ao empresário’, pelo Vigário de Colmeias, Pe. João Feliciano. A responsabilidade social é uma das bases da solução destes tempos conturbados de crise, não se vislumbrando bons prenúncios para o ano de 2011, que se avizinha. Igreja e empresários também têm uma palavra decisiva a proferir bem alto.
 

 

 

Joaquim Santos

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