Caros irmãos e irmãs no Senhor,
Quero antes de mais saudar-vos com todo o afecto e exprimir a minha grande alegria em poder celebrar convosco a eucaristia desta noite santa do Natal de Cristo.
O Natal é uma festa carregada de uma beleza e de uma riqueza humanas inigualáveis, que move todo o mundo. Mas, por vezes, corre-se o risco de esquecer o seu primeiro e principal protagonista: O Deus-Menino, Deus connosco. É Ele que pede o nosso especial acolhimento. E nós, que aqui viemos, queremos deixar-nos interpelar pelo anúncio que acabámos de escutar.
1.“Chegou o dia de Maria dar à luz e teve o seu filho primogénito. Envolveu-o em panos e recostou-o numa manjedoura, por não terem lugar na hospedaria”. Chegou o momento anunciado pelo Anjo: “Darás à luz um filho e por-lhe-às o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-à Filho do Altíssimo”. Estas frases não podem deixar de tocar o nosso coração.
Por um lado, podemos imaginar com quanto amor Maria se preparou para aquela hora. A breve anotação “envolveu-o em panos” deixa-nos intuir algo da santa alegria e do zelo silencioso de tal preparação. Estavam prontos os panos para que o Menino pudesse ser bem acolhido.
Por outro lado, na hospedaria não havia lugar. O Menino teve de nascer num estábulo. De algum modo, a humanidade espera Deus, a sua proximidade. Mas quando chega o momento, não tem lugar para Ele. Está tão ocupada consigo mesma, sente necessidade de todo o espaço e de todo o tempo para as próprias coisas e afazeres, que não resta lugar para o outro: para o próximo, para o pobre, para Deus. E quanto mais ricos se tornam os homens, tanto mais preenchem tudo consigo mesmos, com as suas coisas e os seus interesses.
S. João, no seu evangelho, aprofundou esta breve notícia de S. Lucas, dizendo: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”.
Estas palavras aplicam-se também a nós, a cada pessoa e à sociedade. Temos nós tempo para o próximo que precisa da minha presença, da minha palavra, do meu afecto? Para o doente, o idoso ou solitário que precisa de ajuda? Temos nós tempo e espaço para Deus? Pode Ele entrar na nossa vida tão ocupada?
2. Graças a Deus, a notícia negativa não é a única. Encontramos aí o amor de Maria, a mãe, a fidelidade de S. José, a vigilância dos pastores e a sua grande alegria, a visita dos Magos vindos de longe. E S. João acrescenta: “A quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”. Existem aqueles que O acolhem e deste modo, a começar do estábulo, cresce a nova família dos filhos de Deus, um novo povo, um novo mundo.
A mensagem do Natal diz-nos que Deus não se deixa ficar fora. Ele encontra um espaço, mesmo que seja entrando para o estábulo. Existem homens que vêem a sua luz e a transmitem. O anúncio do Anjo aos pastores fala-nos também a nós hoje; e na celebração deste santo mistério, a luz do Redentor entra na nossa vida.
A luz e a sua mensagem convidam-nos a pormo-nos a caminho, a sairmos da mesquinhez dos nossos desejos e interesses a fim de irmos ao encontro do Menino Deus e adorá-Lo.
Venite, adoremus! Vinde, adoremo-Lo!
Com a humildade dos pastores ponhamo-nos a caminho, nesta noite santa, até junto do Menino no estábulo! Adoremo-Lo, abrindo o nosso coração e o nosso mundo à verdade, ao bem, a Cristo, ao serviço de quantos vivem marginalizados e nos quais Ele nos espera. Então a sua alegria tocar-nos-à e tornará o mundo mais luminoso.
“Exultemos de alegria,
Adoremos o Senhor:
Da Virgem Santa Maria
Nasceu Cristo, o Redentor”.
Boas Festas de Santo Natal a todos vós e a todos os que vos são queridos! Ámen!
Leiria, 25 de Dezembro de 2009
† António Marto, Bispo de Leiria-Fátima